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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Arte da imperfeição

Ilustração feita com Apple Pencil – desenho em dourado sobre as trincas de uma imagem fotografada, por Ana Helena Reis

Cultuamos o prazer imediato, a busca do melhor, a valorização do maior - temos necessidade do completo

Perfeito vem do Latim “perfectus”, que na cultura greco-latina significa acabar, terminar, completar sem faltar nada. Nós, os que, como eu, fomos criados com esse modo de ver ocidental e dicotômico de ver o mundo, tendemos a buscar essa perfeição em tudo o que nos cerca.

Cultuamos o prazer imediato, a busca do melhor, a valorização do maior – temos necessidade do completo. Maiores prazeres, melhores oportunidades, o desejo como valor que impulsiona o progresso. Nesse modus vivendi não há espaço para imperfeição, para o menos, o quase, o em parte.

Esticamos a régua na medida da perfeição, do superlativo, muitas vezes inatingível. Se tropeçamos na jornada, muitas vezes preferimos mudar totalmente de caminho a diminuir as expectativas e se sentir bem com o incompleto.

Nas relações, não nos acostumamos a aceitar os defeitos alheios nem as nossas fragilidades.  A conviver com o que é dissonante, com o que não atinge o padrão que esperamos.

Se ampliarmos essa observação para o modo como lidamos com as coisas em geral, perceberemos uma tendência a descartar tudo o que, de alguma maneira, não atingiu a perfeição, envelheceu, perdeu o viço, se rompeu ou quebrou.

Para não ter que conviver com a frustração do não perfeito, o caminho que adotamos com frequência é abandonar os cacos, que é mais fácil do que tentar aproveitá-los para fazer nascer algo novo.

Quem consegue ver nesses fragmentos do que foi desfeito a possibilidade de reconstrução em um novo formato de relações, um novo arranjo de forças ou uma nova estética, é quem saiu em busca de um elemento de amálgama que unisse os cacos e fosse capaz de reinventar a beleza, na imperfeição.

Abraçar a arte da imperfeição é abandonar os limites impostos pela ditadura do perfeito, para adotar um ensinamento oriental que vem conquistando mais e mais adeptos, e pode ser exemplificado pelo Kintsugi. Seguindo uma tradição milenar japonesa, o Kintsugi consiste em realçar as fissuras dos objetos que se quebraram, envelheceram ou estragaram por meio da aplicação de ouro para juntar as peças. O resultado é uma verdadeira obra de arte, a arte da reconstrução de algo que tem valor para quem consegue enxergar beleza na imperfeição – das coisas, das pessoas, das relações e da própria vida. Para quem cultivou esse amálgama de ouro dentro de si.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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