Ao chegar a Versalhes, compreendi que não se trata apenas de um palácio: é um universo onde a natureza foi moldada como obra de arte, e a arte, por sua vez, se tornou instrumento de poder, contemplação e eternidade.
Os jardins: a coreografia da natureza
Foi pelos jardins que iniciei minha caminhada. Arabescos de buxos, caminhos geométricos e fontes que dançam em diálogo com o céu me conduziram como se fossem compassos de uma sinfonia barroca.
Projetados por André Le Nôtre, esses jardins se estendem por mais de 800 hectares, reunindo árvores centenárias, flores que explodem em cores, esculturas em mármore e bronze e uma sucessão de perspectivas que nos fazem esquecer a noção do acaso.
Em Versalhes, até a natureza é guiada pela mão do artista: um museu vivo, em constante mutação, onde 221 esculturas ao ar livre acompanham a respiração do tempo.
A galeria dos espelhos: reflexos de poder e eternidade
Entrar na Galeria dos Espelhos é atravessar um rito. É impossível não sentir o peso da história: em 1919, ali foi assinado o Tratado de Versalhes, pondo fim à Primeira Guerra Mundial. Mas muito antes disso, este salão abrigava festas, recepções e celebrações que marcavam o brilho da monarquia francesa.
Os 357 espelhos que revestem os 17 arcos refletem as janelas abertas para os jardins — um diálogo entre interior e exterior, luz e sombra, história e natureza. Cada reflexo multiplica a grandiosidade e nos lembra que a arte barroca é, antes de tudo, espetáculo e encenação.
Os aposentos Reais: intimidade em cena
No coração do palácio, os aposentos reais rei Luís XIV e rainha Maria Antonieta nos revelam um outro lado: a intimidade encenada como poder. Tecidos suntuosos, móveis preciosos, pinturas, vasos e lustres transformam o cotidiano em teatralidade.
O quarto da rainha, espaço de encontros e conversas, é pura sofisticação; já os aposentos do rei, instalados no centro do palácio, reafirmam a centralidade do soberano em seu próprio universo. Até no dormir, o rei estava no centro da cena.
Versalhes: palco da arte e da memória
Versalhes não é apenas patrimônio da humanidade: é memória encarnada em pedra, bronze, vidro e natureza. Um palco monumental onde a arte foi chamada a encenar o poder e, ao mesmo tempo, a resistir ao tempo.
Caminhar por seus jardins e salões é ser tomado por uma sensação paradoxal: a de estar em um espaço eterno e, ao mesmo tempo, em movimento, pois cada detalhe, cada perspectiva, renova-se diante do olhar.
Olhar curatorial
Ao atravessar Versalhes, percebi que cada jardim, cada espelho e cada aposento não existem apenas como cenário histórico, mas como metáforas vivas da própria arte: a arte como encenação, como poder, mas também como lugar de contemplação e silêncio. O barroco nos convida a mergulhar em excessos de formas e significados, mas, ao mesmo tempo, nos mostra como a arte pode transformar a natureza em experiência estética e o cotidiano em espetáculo.
Versalhes, para mim, não foi apenas visita: foi escuta, diálogo e revelação. E é este olhar que sigo levando comigo a cada museu e palácio do mundo — porque, mais do que contar histórias, a arte nos ensina a sentir.
Deixo aqui essa experiência como convite. No próximo destino da série Museus pelo Mundo, prepare-se para mais uma imersão em arte, arquitetura e história, onde a poesia e o olhar curatorial caminham lado a lado.
Com amor, arte e alma, sigo tecendo olhares e sentidos: essa é a minha curadoria viva.

Imagens cedidas por Amanda Sanzi