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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Don’t khomi my afro hair

Design Dolce sob imagem por pocstock em Canva

O simples fato de o cabelo estar ali exposto não significa que se pode, por vontade própria e sem permissão, tocar

A expressão “khomi” significa “pegar” num dos dialetos do sul de Moçambique, mas este texto não será para falar de versos, gramáticas, analogias, etc. Até porque, provavelmente, eu iria afundar-me nesse mar desconhecido.

A ideia é se debruçar sobre esta vontade constante que as pessoas têm de querer pegar no cabelo de mulheres negras. Sim, digo “pessoas” porque tanto homens como mulheres, ao depararem-se com uma coroa linda — seja ela comprida ou não — tendem a querer tocá-la para aferir se realmente se trata de uma coroa natural ou “emprestada”. Para mim, isso é uma violação gritante da individualidade e intimidade de cada mulher.

O simples fato de o cabelo estar ali exposto não significa que se pode, por vontade própria e sem permissão, tocar. Existem outras partes do corpo humano igualmente expostas e nem por isso as tocamos. Tudo em nós é energia — tudo mesmo, sem exceção — e cabelo crespo ou não (melhor intitulá-lo como “cabelo afro”), não foge à regra. Ao tocarmos, deixamos a nossa energia diária, ou até de anos, ali, enredada nos fios ondulados, direcionando-se ao corpo da mulher e alterando (dependendo da sua proteção) toda a sua energia e até o seu humor.

Design Dolce sob imagem por Oleg Gekman em Canva

Sei que pode soar estranho para alguns, e até parecer exagero, mas é a pura verdade: através de um simples toque no cabelo, é possível mudar o dia — ou até mesmo a vida — de uma crespa.

Então, por favor, evitem pegar nos cabelos crespos. Não é difícil apreciar sem tocar. Evitem meter a mão para “aferir a veracidade” de ser natural ou não. É invasivo.

E, contrariamente a outras raças, a mulher negra é privilegiada justamente por poder trocar o seu estilo capilar a qualquer momento, sem seguir regras, e transformar-se numa mulher diferente a cada estação ou mês.

Mas, olha que essa troca — ou até a manutenção do próprio crespo — não é fácil, e muito menos barata. É muita pesquisa até achar a linha certa para cada tipo de cabelo, muitos óleos, cremes, lilhelhos (planta encontrada em Moçambique usada como xampu natural). Então, caro leitor e cara leitora, o cabelo crespo exige muito esforço, paciência e dedicação para ter aquele brilho todo. E para, no fim, perder as ondas por que alguém tocou? Ah… sinceramente…

Design Dolce sob imagem por pocstock em Canva

Se o cabelo está na cabeça da crespa, é dela. Se é natural ou não, pouco importa. Mas, deixem de tocar no cabelo das crespas. Nós não gostamos!

Mas, acredite, caro leitor e cara leitora: muitas vezes, as mulheres sentem-se indiretamente obrigadas a ceder a essa “vigilância capilar”.

Permitam que exibamos as nossas coroas sem medo e sem vergonha. Já deveria ser normal assumir que o cabelo crespo cresce — e cresce muito! — e que bem cuidado tem um brilho único.

Que se deixe de olhar para as nossas coroas como se fossem novidades extraterrestres. Normalizem todos os tipos de cabelos. Os tempos em que éramos olhadas como peças de exposição ou adorno já passaram. Está mais do que na hora de aceitar a negritude e tudo o que vem com ela, pois, no fim, somos todos seres únicos e maravilhosos.

A todas as crespas — assumidas ou não — um beijão enorme.

Continuem a brilhar.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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