Por Arnaldo Reis Figueiredo
A política brasileira deixou de ser, há algum tempo, um espaço de debate racional para se transformar em um campeonato de torcida organizada. Como no futebol, muitos escolhem seu lado antes mesmo de analisar o jogo. Vestem a camisa, defendem o escudo e fecham os olhos para o desempenho. Nesse ambiente, a análise crítica desaparece, o diálogo se rompe e o país deixa de ser o centro da discussão.
Ter posição política não é o problema. O risco começa quando a ideologia deixa de ser ferramenta de análise e passa a funcionar como identidade emocional. A partir daí, qualquer questionamento soa como ataque, e qualquer erro vira detalhe. Julgam-se menos os fatos e mais a origem das decisões. O resultado é previsível: um debate raso, improdutivo e incapaz de oferecer respostas reais aos desafios do Brasil.
Enquanto brigamos por rótulos, deixamos de discutir o essencial. Falamos exaustivamente de esquerda e direita, mas quase nada sobre caráter, preparo, histórico e credibilidade. Cargos públicos não deveriam ser prêmios ideológicos, e sim responsabilidades confiadas a quem demonstra competência e compromisso com o interesse coletivo. Suas escolhas afetam milhões de vidas.
Essa inversão de prioridades não é abstrata. Ela se manifesta de forma concreta em debates que o país já fez, e, aparentemente, abandonou pelo caminho. A discussão sobre a chamada ficha limpa é um exemplo claro dessa distorção. Durante anos, o tema ocupou espaço central no debate público, mobilizou eleitores e simbolizou um desejo coletivo por mais ética na política. Foi amplamente discutido no país, defendido em discursos e campanhas. No entanto, com o passar do tempo, o assunto foi sendo esvaziado na prática e, não raramente, ignorado pelos próprios políticos, por conveniência.
Isso revela um ponto incômodo: uma democracia madura não deveria depender apenas de uma lei para afastar maus políticos. Deveria depender, sobretudo, da consciência do eleitor. Leis são necessárias, mas não substituem critérios básicos de julgamento por parte da sociedade.
A reflexão é simples, direta e amplamente conhecida. Da mesma forma que você não confiaria a gestão da sua empresa, da sua casa ou da sua família a alguém com histórico sério de irresponsabilidade ou falta de credibilidade, não deveria confiar essa mesma pessoa para administrar um município, um estado ou um país. A lógica não muda. O tamanho da responsabilidade, sim.
Se esse critério básico fosse realmente levado a sério, muitos dos nomes que hoje ocupam ou disputam cargos públicos, independentemente do espectro ideológico, sequer estariam no jogo. Isso abriria espaço para novas lideranças, com reputação construída, histórico consistente e compromisso real com o futuro do país, e não apenas com o próximo ciclo eleitoral.
Mas votar com responsabilidade exige esforço. Exige sair da superficialidade e resistir à tentação de decidir na última hora, guiado por marketing, estética, frases de efeito ou vídeos bem-produzidos nas redes sociais. Votar dá trabalho. Pesquisar, comparar, questionar e refletir faz parte do processo. Democracia não é consumo por impulso.
Esse desafio se agrava em um país com formação política historicamente frágil, reflexo de um sistema educacional que pouco estimula o pensamento crítico. Justamente por isso, quem tem mais acesso à informação carrega uma responsabilidade maior. Não a de empurrar pessoas para a esquerda ou para a direita, mas a de incentivar o questionamento, a análise de trajetórias e a compreensão das consequências de cada escolha eleitoral.
O mesmo raciocínio vale para temas frequentemente aprisionados à lógica da torcida, como o desequilíbrio socioeconômico brasileiro. O país permanece profundamente desigual, e isso não pode ser atribuído a um único governo ou a uma única ideologia. Ao longo do tempo, administrações de diferentes orientações repetiram erros semelhantes, insistindo em políticas que, na prática, encarecem a contratação, desestimulam o empreendedorismo e dificultam a geração de empregos. O resultado é um ciclo conhecido: maior dependência do Estado, menos autonomia e a ampliação contínua do chamado “Custo Brasil”.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial
Menos ideologia. Mais Brasil.
Enquanto o debate público permanecer refém da polarização, continuaremos presos a ciclos de frustração. Não cobramos resultados, cobramos fidelidade ideológica. Não avaliamos políticas públicas, defendemos narrativas. Nesse jogo, o país sempre perde.
Esse debate se torna ainda mais urgente em ano eleitoral. É nesse período que a polarização se intensifica, os discursos se simplificam e a lógica da torcida ganha ainda mais força. Justamente por isso, reforçar o pensamento crítico e a responsabilidade individual do eleitor não é apenas desejável, é necessário.
Uma eleição madura não nasce de slogans nem de paixões ideológicas. Ela nasce de cidadãos dispostos a analisar trajetórias, confrontar promessas com resultados e escolher com base em caráter, competência e credibilidade. O voto não é um gesto automático nem um ato de protesto vazio. É uma decisão que molda o presente e influencia diretamente o futuro do país.
Se quisermos um Brasil mais equilibrado, mais justo e com reais condições de crescimento, precisamos começar por nós mesmos. Menos idolatria política. Mais cobrança por resultados. Menos torcida. Mais consciência.
Que este ano eleitoral represente um ponto de inflexão. Que saibamos colocar o Brasil acima de partidos, a ética acima das ideologias e o futuro acima de qualquer polarização. Só assim poderemos construir uma eleição mais madura, e um país melhor, por nós e para todos os brasileiros.





























