“Quem se esquece de quem é pode se tornar qualquer pessoa.”
Pr. Julio Rostirola
Por um silêncio aqui, por uma concessão ali, por uma frase engolida para não gerar conflito, por um limite que deixa de existir para preservar um vínculo. E quando percebemos, já não ocupamos mais espaço — nem dentro da nossa própria vida.
Esse processo é mais comum do que muitas mulheres imaginam. Trata-se de algo profundo, que atravessa a história do feminino e a forma individual como aprendemos a amar, pertencer e nos vincular.
O risco de amar demais o outro está em amar sem sustentação interna. Quando isso acontece, a mulher começa a se moldar para ser aceita. Ajusta comportamentos, relativiza desconfortos, diminui necessidades. Não porque não percebe, mas porque aprendeu — desde cedo — que precisava caber e suportar para ser aceita.
É importante dizer: isso não está necessariamente associado a fragilidade ou submissão. Pode acontecer com qualquer mulher que, em algum momento da vida, se descuidou de si — por medo, cansaço, desesperança, excesso de responsabilidade ou até por questões de saúde física e emocional.
Nesse terreno surgem as chamadas traições emocionais disfarçadas. Nem sempre existe outra pessoa envolvida. Muitas vezes, a ferida vem da indiferença, do silêncio recorrente, da desqualificação emocional, da ausência de escuta, da manipulação sutil ou da invalidação constante dos sentimentos. São experiências que não deixam marcas visíveis, mas corroem lentamente a identidade.
É o tipo de relação em que a mulher começa a falar sozinha. Divide seu dia, o cansaço, as emoções — e encontra pouco ou nenhuma conexão do outro lado. A presença física permanece, mas a presença emocional desaparece. E, pouco a pouco, ela vai se tornando invisível dentro da própria relação.

Sinais de um relacionamento sem reciprocidade — e com risco de adoecimento
Alguns sinais merecem atenção, especialmente quando se repetem e se intensificam ao longo do tempo:
- você se adapta constantemente, enquanto o outro pouco se movimenta
- suas necessidades emocionais são minimizadas ou ignoradas
- você sente que precisa “medir palavras” para não gerar desconforto
- parece “pisar em ovos” para pedir alguma coisa. E sente culpa por pedir o mínimo
- conversas importantes são evitadas, interrompidas ou desvalorizadas
- sua dor é banalizada
- não sente sua importância
- ausência de reconhecimento pelo que faz
- abre mão dos seus desejos para evitar conflitos
- sua energia vital diminui, mas a relação permanece igual
Essas dinâmicas não precisam ser explícitas para adoecer. Muitas vezes, o adoecimento é silencioso, interno, acumulativo.
A psicologia ajuda a compreender por que tantas mulheres permanecem nesse lugar. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, mostra que os vínculos formados na infância influenciam diretamente a maneira como nos relacionamos na vida adulta. Mulheres com histórico de apego ansioso, por exemplo, tendem a temer o abandono, confundir amor com esforço constante, silenciar necessidades e se adaptar excessivamente para manter o vínculo.
Esse padrão não escolhe classe social, idade, nível cultural ou o quanto uma mulher já passou por terapia ou processos de autoconhecimento. Ele atravessa mulheres jovens, maduras, bem-sucedidas e conscientes — porque não está ligado apenas ao saber racional, mas à história emocional vivida e registrada no corpo.
Muitas aprenderam cedo que, para pertencer, precisavam se ajustar. Cresceram entendendo que ser aceita era mais importante do que ser quem realmente eram.
Na vida adulta, isso se traduz em sinais claros de autoanulação: dificuldade de dizer não, medo constante de desagradar, culpa ao impor limites, sensação de estar sempre em dívida emocional, abandono de interesses, amizades e desejos. A mulher continua funcionando, cuidando, entregando —desaparecendo e até adoecendo.

O fato de reconhecer suas feridas internas não torna permissivo o abuso.
Relacionamentos assim não precisam ser violentos para serem adoecedores. O sangue não é visível; corre por dentro. Por isso, muitas mulheres demoram a reconhecer que estão em relações emocionalmente abusivas. Porque o abuso não está no grito, no tapa, está no esvaziamento progressivo interno.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de estudos em psicologia social apontam que mulheres apresentam maior incidência de sofrimento emocional associado a vínculos afetivos, especialmente ansiedade relacional e esgotamento emocional. Esses números não falam de fragilidade feminina, mas de condicionamento emocional e de uma cultura que ensinou mulheres a amar e serem aceitas, antes mesmo de aprenderem a se amar.
É por isso que trabalhar autoestima, identidade e amor-próprio não pode ser um evento pontual. Precisa ser prática contínua. Quanto mais faltou para essa mulher em sua infância, mais ela precisa se fortalecer no dia a dia para não cair na armadilha da dependência emocional, da codependência e do amor que cobra um preço alto demais.
A inteligência emocional nos ensina a fortalecer nosso eu, agir com autenticidade, reconhecer nossos valores e ativar mecanismos de proteção para reconhecermos sinais precoces de autoabandono, sustentar limites sem culpa, quebrar padrões, validar sentimentos sem se diminuir e amar sem se perder. Além, de nos lucidar para escolhas saudáveis.
Faço aqui um alerta — como educadora da autoestima e como mulher que já foi vítima de gaslighting, fiquem atentas, pois se acomodar em um relacionamento onde se dá mais do que se recebe, pode levar ao adoecimento do corpo, da mente e do espírito. Não permitam!
Viver um amor intenso é bonito. Mas é perigoso quando a autoestima não está fortalecida a ponto de o amor-próprio ser incondicional — e o amor pelo outro, totalmente condicional ao respeito, à comunicação, à reciprocidade, lealdade e à valorização e entrega mútua.
Amar não deveria custar a sua identidade. E nenhuma relação vale o preço de você deixar de ser quem é.
Se você sente que está se perdendo de si, saiba: é possível se reconstruir, se fortalecer e reaprender a amar sem se abandonar. Estou aqui para ajudar mulheres nesse caminho de reconexão, consciência e cura emocional.






























