Tem dias que começam tortos. A gente acorda e já sente: algo no ar não colabora. O café derrama, o pão queima, o filho acorda com o humor virado e o trânsito resolve conspirar contra. São dias em que a fatura do cartão chega mais alta que o esperado, em que uma notícia desagradável atravessa a manhã, em que aquele cansaço que parecia controlado resolve gritar mais alto.
Dias difíceis.
Eles existem na vida de toda mãe, de toda mulher, de todo ser humano. Mas quando a gente está na linha de frente da própria casa, quando as decisões recaem todas sobre os nossos ombros, esses dias ganham uma densidade especial. Eles não vêm sozinhos. Trazem na bagagem uma culpa silenciosa: a de achar que poderíamos ter feito algo para evitá-los.
Já percebeu como nos cobramos ainda mais nos dias difíceis? Como se fosse obrigação nossa manter o sol brilhando dentro de casa, mesmo quando lá fora, e dentro da gente, o tempo fechou?

A gente explode por qualquer coisa, se arrepende, chora, se arrepende, tenta se reequilibrar, desmorona de novo e assim segue nesses dias insanos.
Mas tenho aprendido que os dias difíceis não são falhas na programação da vida. São parte do roteiro. E mais do que isso: são, muitas vezes, os nossos maiores professores. E o melhor? Eles passam.
É num dia difícil que a gente descobre do que é feita. É quando o chão parece sumir que a gente percebe que, na verdade, sempre soube voar. Ou pelo menos, se equilibrar.
Nos dias difíceis, a meta não é ser produtiva. A meta é sobreviver com o mínimo de dignidade emocional possível. É deixar a louça na pia sem culpa. É pedir uma pizza em vez de cozinhar. É colocar um filme para as crianças e se permitir cinco minutos de silêncio no quarto, mesmo que o silêncio venha acompanhado de lágrimas.
Nos dias difíceis, a gente aprende a relativizar. Aquele problema que ontem parecia o fim do mundo, hoje a gente olha e vê que cabe dentro de um amanhã. A gente aprende que nem toda batalha precisa ser vencida no grito; algumas só precisam ser atravessadas.
São aqueles dias em que devemos ser apenas expectadoras da nossa vida, olhar de fora, só observar e deixar fluir. Porque eles passam, não tenha dúvida.
E tem uma coisa preciosa que só os dias difíceis ensinam: gratidão pelos dias comuns. Gratidão pelo simples, pelo básico que temos.

Quando o dia custa a passar, a gente passa a valorizar as terças-feiras sem graça, os fins de semana sem crise, as manhãs em que o simplesmente nada extraordinário acontece. A gente descobre que a paz mora justamente aí, no ordinário, no previsível, no “mais do mesmo” que tanto reclamamos.
Então, se hoje o seu dia está difícil, respira. Não somente porque vai passar, mas porque tem um recado seu esperando você no final dele. Um recado sobre resistência, sobre amor-próprio, sobre aprendizado e a capacidade de recomeçar mesmo com o gosto amargo na boca.
Acolhe o dia difícil como quem acolhe uma amiga cansada. Oferece um chá, um colo, uma trégua. E amanhã, quando ele tiver ido embora, você vai olhar para trás e ver: você está ali. Inteira, ou remendada. Mas de pé e com a certeza que o sol voltará a brilhar em nossas vidas.
E de pé, seguimos.































