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Som e fúria na brevidade da vida e na leveza do ser

Foto de Nathan Dumlao na Unsplash

Para lidar com a brevidade da vida e a pressão moderna por perfeição, podemos sempre recorrer à Shakespeare para refletir sobre a leveza como resposta à angústia existencial

Por Paulo Maia

Olá, meu caro leitor e minha querida leitora!

Apesar dos tempos bicudos e da sensação de que a vida voa como um jato, exigindo de nós uma pressa desmedida, ainda há um tempo para um bom café para refletirmos um pouco sobre nossos momentos cotidianos e o que eles revelam sobre nós.

Por exemplo, refletir sobre a natureza humana, um dos meus temas preferidos, nada melhor que frequentar alguns clássicos.

Temos atualmente em cartaz nos teatros de São Paulo, algumas peças baseadas nos clássicos de Shakespeare: “Hamlet, Sonhos Que Virão”, estrelada por Gabriel Leone, “O Mercador de Veneza”, com Dan Stulbach, “Rei Lear”, da Cia. Extemporânea, e “Sonho de uma Noite de Verão”, da trupe Ave Lola. Todas merecem ser vistas.

Aliás, qualquer peça inspirada em Shakespeare merece ser vista e revista várias vezes, assim com ler e reler suas peças. Jamais perderá o sabor e o poder arrebatador em nossas pobres almas mergulhadas na aventura pseudo fantástica da modernidade.

Foto de Portia Weiss na Unsplash

Sim, as obras do Bardo sempre dialogarão conosco e, em qualquer adaptação ou montagem literal, estaremos sempre boquiabertos diante da atualidade de seus textos.

Entre eles, me veio à mente o clássico Macbeth, que nos lembra da fragilidade da existência com uma imagem que atravessa séculos:

“Apaga-te, apaga-te, breve chama! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator, que se pavoneia e aflige a sua hora no palco, e depois não se ouve mais. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”.

Esta frase é dita após Macbeth ouvir sobre a morte da rainha, sua esposa, Lady Macbeth. Uma reflexão que expressa o desespero e o niilismo do personagem diante da insignificância da existência.

É impossível não sentir o peso dessa metáfora — somos atores de passagem, com falas breves e gestos efêmeros, tentando dar sentido ao palco que nos foi concedido, ou seja, este mundo e a vida que experimentamos. E, no entanto, é justamente dessa consciência da brevidade que nasce a angústia moderna: em um mundo que exige perfeição, produtividade e sucesso a qualquer preço, a sombra de nossa finitude se torna ainda mais sufocante.

Pascal, no século XVII, já percebia que o ser humano, ao se confrontar com sua finitude, buscava distrações para não encarar o vazio. Chamava isso de divertissement: caçamos, jogamos, trabalhamos sem cessar, não porque precisamos apenas dessas atividades, mas porque não suportamos o silêncio que nos lembra da morte.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Nietzsche, por sua vez, nos provoca a inverter o olhar. Se a vida é breve e marcada pelo sofrimento, que seja afirmada mesmo assim. Seu conceito de amor fati — amar o destino — é um convite a abraçar a existência em sua totalidade, sem desejar que fosse diferente. Para ele, a grandeza está em dizer “sim” à vida, mesmo diante do absurdo.

Camus, no século XX, retoma essa angústia e a chama de absurdo: a contradição entre nosso desejo de sentido e o silêncio do universo. Mas, em vez de se entregar ao desespero, propõe que criemos nosso próprio significado. Como Sísifo, condenado a empurrar eternamente sua pedra, podemos encontrar dignidade e até alegria no simples ato de continuar.

Se Shakespeare via a vida como um palco efêmero, hoje esse palco parece ter se transformado em uma arena de exigências incessantes. A modernidade nos cobra perfeição, produtividade e sucesso em cada ato. Somos pressionados a sermos assertivos, competitivos e impecáveis, como se a brevidade da vida pudesse ser compensada pela intensidade de nossas conquistas. Mas esse espírito do tempo, em vez de nos edificar, muitas vezes nos arrasta para a ansiedade, o medo do fracasso e até a depressão.

Vivemos como atores que não apenas precisam desempenhar seu papel, mas também provar constantemente seu valor diante de uma plateia invisível — as métricas, os algoritmos, os olhares sociais. O paradoxo é cruel: quanto mais buscamos controlar o sentido da vida, mais sentimos sua volatilidade. E é nesse excesso de seriedade que perdemos justamente o que poderia nos salvar: a leveza.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Talvez a grande lição esteja em aceitar que a vida é breve, sim, mas não precisa ser pesada. Se somos apenas sombras que caminham, como disse Shakespeare, que caminhemos com leveza. Se somos atores de passagem, que façamos da nossa hora no palco não uma aflição, mas uma celebração.

Nietzsche nos convida a amar o destino, Camus nos lembra que podemos criar sentido mesmo no absurdo, e Pascal nos alerta sobre nossas fugas. Mas todos, de formas distintas, apontam para uma mesma direção: viver não é sobre alcançar o absoluto, mas sobre dar significado ao instante.

Pois é, querida leitora e meu caro amigo leitor! Em um tempo que nos exige perfeição e sucesso a qualquer preço, talvez a resposta seja justamente o contrário: rir de nós mesmos, aceitar nossas falhas, e reconhecer que o valor da vida não está em sua duração, mas na intensidade com que nos permitimos estar presentes. A brevidade, longe de ser maldição, pode ser a chave para uma vida mais leve, menos ansiosa e mais verdadeira.

Ilustração do livro “A tragédia de Shakespeare, Hamlet, Príncipe da Dinamarca”
de Shakespeare, William, 1564-1616; Rolfe, W. J. (William James), 1827-1910
, Sem restrições, via Wikimedia Commons

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”.

Um mosaico de ideias e sentimentos com textos que convidam a refletir sobre o humano e suas contradições.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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