“ Por essa razão,o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”….Gênesis 2:24
“ Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentelae da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. 2 Eu farei de ti uma grande nação; …”Gênesis 12:1-12
A sabedoria milenar contida no Gênesis não é apenas um preceito teológico; é um mapa antropológico para a saúde emocional. Quando lemos que o homem deve “deixar pai e mãe” e partir para a “terra que eu te mostrarei”, somos confrontados com uma necessidade existencial: a ruptura como condição para a construção.
O cordão umbilical na modernidade líquida
Vivemos o que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu como “Modernidade Líquida”. Nela, os laços são frágeis e as responsabilidades são evitadas em prol de uma liberdade ilusória. Paradoxalmente, essa mesma fluidez faz com que muitos jovens adultos permaneçam “ancorados” em casa dos pais, não apenas por questões económicas, mas por uma incapacidade de enfrentar a solidez de um compromisso próprio.
A saída de casa, que deveria ser um rito de passagem, torna-se um ensaio interminável. O resultado é a entrada no casamento sem o devido “desmame” psíquico, levando para o novo lar as expectativas, os mimos e, por vezes, as neuroses da infância.Muitos casais iniciam uma vida a dois sem terem, de facto, saído da casa dos pais no sentido metafórico.
O psicólogo Murray Bowen, pioneiro na teoria dos sistemas familiares, chamava a isto a falta de “diferenciação do self”. Sem essa diferenciação, o novo cônjuge não é um parceiro pleno, mas um satélite que ainda orbita em torno do sistema solar da sua família de origem.

A hierarquia das lealdades: a visão sistêmica
Para que uma nova família prospere, é preciso compreender o que o terapeuta Bert Hellinger descreveu nas suas “Ordens do Amor”. Segundo a visão sistêmica, o novo sistema (o casal) tem precedência sobre o sistema antigo (os pais).
Não se trata de falta de amor ou de gratidão pelos progenitores, mas de uma necessidade de sobrevivência da nova célula. Quando um marido ou uma mulher permite que a voz da mãe ou do pai tenha mais peso do que a voz do cônjuge, a hierarquia é violada. O conflito entre sogros e noras/genros é, quase sempre, o sintoma de um cordão umbilical que não foi cortado, mas apenas esticado
A “terra que te mostrarei”: o risco da individualidade
A ordem bíblica para sair em direção ao desconhecido implica que o casal deve criar as suas próprias regras, tradições e limites.
- A prioridade: o casal deve ser uma unidade estanque.
- A fronteira: os pais passam a ser parentela. Devem ser honrados e ouvidos, mas nunca devem ser os arquitetos das decisões do novo lar.

Como sugeria Jean-Paul Sartre, a liberdade de sermos quem somos exige que nos desprendamos das definições que os outros (mesmo os pais) projetaram sobre nós. Um casamento só se torna “uma só carne” quando ambos os parceiros são adultos diferenciados, capazes de dizer: “Amo os meus pais, mas a minha lealdade primária pertence agora a quem caminha ao meu lado”.
Segundo Sartre, “a existência precede a essência”, e no casamento, a existência da nova célula familiar deve preceder os hábitos herdados. Os conflitos entre sogros, noras e genros surgem quase sempre quando as fronteiras são porosas. Quando um marido ou uma mulher corre para o colo materno ao primeiro sinal de crise, ele está, simbolicamente, a trair o pacto de união.
Sem a distância necessária para a autonomia, o que temos não é uma união de “uma só carne”, mas um aglomerado de dependências que sufoca a individualidade do casal. Cortar o cordão umbilical não é um ato de rebeldia, mas o maior tributo que um filho pode prestar à educação que recebeu: demonstrar que está pronto para ser o autor da sua própria história.
Na Cumplicidade Dolce, o convite desta quinzena é para a coragem. Afinal, só consegue construir um castelo quem tem a audácia de deixar o conforto do ninho.





























