Por Paulo Maia
Meu caro amigo leitor e minha querida amiga leitora, peço licença para deixar de lado, por um instante, os tratados de filosofia e as análises frias do nosso comportamento social.
Hoje, a vida nos convida a ouvir o coração e a olhar para o gramado de um estádio de futebol. Afinal, como já profetizava o mestre Nelson Rodrigues, somos a “pátria de chuteiras”. E quando, na última segunda-feira, dia 18, o treinador italiano Carlo Ancelotti pronunciou aquele nome que o país inteiro aguardava, o Brasil suspendeu a respiração. Neymar Jr. está na Copa.
Confesso a vocês que, até pouco tempo atrás, minha mente racional e um tanto rigorosa torcia o nariz para essa possibilidade. Nunca fui entusiasta do extracampo do nosso camisa 10; suas condutas como cidadão muitas vezes distanciam-se do que considero exemplar. Também não acreditava na sua convocação face ao futebol que ele vinha apresentando nos gramados. Mas, como jogador de futebol, sempre o vi como alguém excepcional, acompanhando sua carreira e testemunhando sua genialidade dentro de campo.

Imagem por Agência Brasil, CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons
E o futebol, esse oxigênio que corre nas veias do brasileiro, tem uma justiça própria que não cabe em planilhas de desempenho ou em julgamentos morais. O futebol é a literatura dos pés. E, ao ver a vibração que tomou conta das ruas e mesmo das redações internacionais, percebi que era hora de rever minha opinião e dar ouvidos à mística.
Há quem conteste a convocação com argumentos matemáticos: ele já não tem o vigor de outrora, as lesões cobraram seu preço e os anos pesam. Tudo verdade. Mas reduzir o futebol à estatística é como reduzir a poesia à contagem de sílabas. Neymar é o último herdeiro de uma linhagem de deuses românticos — o fio condutor que nos liga a Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Rivaldo, e àquela geração que, em minha época, encantou com Zico e Sócrates. Depois de Neymar, o deserto de camisas 10 excepcionais nos fez perceber o tamanho de sua falta.
A decisão de Ancelotti não foi puramente técnica; foi um ato de sabedoria sobre a natureza humana. Há um componente invisível no esporte que nenhum algoritmo de computador consegue mensurar: o peso da presença.
No vestiário, Neymar não é apenas um atleta; é um escudo. Ele atrai para si a pressão esmagadora que custuma paralisar os mais jovens, permitindo que a nova safra jogue leve. Ele tem o respeito reverencial dos companheiros e o olhar temeroso dos adversários, que sabem que o gênio, mesmo envelhecido, precisa de apenas um milésimo de segundo, de um único lance cinematográfico, para mudar o destino de uma nação.

Imagem por Danilo Borges/copa2014.gov.br Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Ainda que sua conduta ultimamente possa ser questionada — afinal, ele estapeou um companheiro de equipe durante os treinos, o Robinho Jr., e tem batido boca constantemente com a torcida —, a admiração e o respeito que os demais jogadores têm por ele são visíveis. Tais nuances devem ser consideradas em ambientes habitados por seres humanos, dados a ambiguidades e contradições.
Esta Copa do Mundo terá o sabor agridoce das despedidas. Será o último ato, o canto do cisne de uma era dourada onde Lionel Messi e Cristiano Ronaldo desfilarão suas últimas gotas de magia. O banquete do futebol mundial estaria incompleto se o nosso último craque irreverente não estivesse lá, cruzando caminhos com a nova geração de jogadores, como o francês Mbappé, o jovem espanhol Lamine Yamal e a robustez do inglês Harry Kane. O espetáculo pede sua presença.
Dou minha mão à palmatória e me resigno, considerando que mudar de ideia e ver as coisas sob outro ponto de vista pode ser um gesto de generosidade com a própria vida.

Imagem por DSanchez17 from St Albans, England, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons,
Hoje, vejo nessa convocação um sopro de alegria tão necessário para um povo cuja paixão pela camisa amarela muitas vezes é sequestrada pela política para seus objetivos escusos e mal-intencionados. Em tempos de tantas divisões e abismos ideológicos, permitir-se vibrar com o talento puro e esperar pelo inesperado é um ponto positivo para a alma coletiva. Que o grupo da seleção se feche, que o relacionamento flua e que a moral se eleve.
No grande teatro da bola, a verdadeira La Dolce Vita talvez seja a doce esperança de ver (ou sonhar), mais uma vez, com a glória de ter uma sexta estrela acima do escudo que o país das chuteiras tanto busca.






























