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O eleitor mudou e a política corre atrás

A atenção tornou-se o novo campo de disputa.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Durante muito tempo, campanhas políticas foram construídas a partir da lógica da exposição; hoje é necessário conquistar atenção do eleitor

Um vereador grava um vídeo dentro do carro e alcança mais pessoas do que um programa eleitoral inteiro produzido por uma equipe profissional.

A cena ajuda a explicar uma das transformações mais profundas da comunicação política nas últimas décadas: o eleitor mudou.

Durante muito tempo, campanhas foram construídas a partir da lógica da exposição. Quanto maior o espaço na televisão, maior a capacidade de influenciar o debate público. Hoje, a lógica é outra. Antes de convencer alguém, candidatos precisam conquistar algo cada vez mais escasso: atenção.

Essa mudança não aconteceu de forma repentina. Ela foi sendo construída à medida que as pessoas passaram a consumir informação nos mesmos ambientes onde trabalham, se divertem, acompanham influenciadores, conversam com amigos e fazem compras.

Em 2008, a campanha de Barack Obama mostrou ao mundo o potencial das redes sociais na mobilização eleitoral. Menos de duas décadas depois, a internet tornou-se o principal ambiente de disputa pela atenção do eleitor.

A política deixou de ocupar espaços exclusivos e passou a competir dentro de um ecossistema digital extremamente disputado. O adversário já não é apenas outro candidato.

Hoje, uma proposta de governo disputa espaço com séries, podcasts, vídeos curtos, notícias, influenciadores, memes e centenas de estímulos que chegam à tela do celular ao longo do dia.

Por isso, campanhas de diferentes países passaram a se parecer cada vez mais com estratégias utilizadas por marcas, empresas e criadores de conteúdo. O objetivo continua sendo convencer. O caminho utilizado para chegar até as pessoas, porém, mudou.

Nos Estados Unidos, na Europa e em outras democracias, a figura do candidato ganhou protagonismo. Histórias pessoais e posicionamentos individuais passaram a ocupar um espaço que antes pertencia aos partidos.

Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu com Volodymyr Zelensky, na Ucrânia. Durante os primeiros meses da guerra, vídeos gravados com o próprio celular passaram a circular pelo mundo. A qualidade da imagem era secundária. O que chamava atenção era a mensagem implícita: ele continuava ali. Em um ambiente marcado pela desconfiança, proximidade e presença comunicavam mais do que qualquer produção sofisticada.

No Brasil, o mesmo fenômeno pode ser observado em campanhas municipais e regionais, onde conteúdos simples para redes sociais frequentemente geram mais engajamento do que peças mais elaboradas.

Essa lógica não surgiu primeiro na política. Executivos passaram a construir reputação fora das empresas. Médicos passaram a produzir conteúdo para se conectar diretamente com pacientes. Advogados, empreendedores e especialistas descobriram que influência deixou de depender apenas das instituições às quais pertenciam.

Antes de convencer, é preciso ser visto.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A política já não disputa apenas votos: disputa atenção

Nesse contexto, mensagens simples tendem a circular mais rápido do que explicações complexas. Narrativas emocionais costumam gerar mais engajamento do que argumentos excessivamente técnicos. Não porque os temas tenham se tornado menos importantes, mas porque a atenção passou a ser um recurso escasso. O eleitor passa do vídeo de uma campanha para um meme, depois para uma notícia, depois para uma receita de bolo, tudo em menos de cinco minutos.

Em muitos casos, um vídeo gravado na cozinha de casa produz mais engajamento do que uma peça criada por uma agência inteira.

A simplificação de temas complexos não nasceu com as redes sociais, mas encontrou nelas um ambiente ideal para se espalhar. O resultado é uma comunicação mais rápida, mais emocional e, muitas vezes, mais dividida.

No Brasil, onde a polarização já faz parte do cotidiano político, o desafio parece estar menos na capacidade de mobilizar apoiadores e mais na construção de conversas capazes de atravessar as fronteiras das próprias bolhas.

Enquanto isso, uma nova camada de influência ganhou espaço no debate público.

Em muitas cidades brasileiras, a pessoa que mais influência uma comunidade não ocupa cargo público, não apresenta telejornal e nunca disputou uma eleição.

Pode ser um médico que fala sobre saúde nas redes sociais. Um influenciador regional. Um especialista que construiu audiência ao longo dos anos discutindo temas específicos.

Enquanto partidos ainda disputam espaço nos meios tradicionais, essas novas lideranças conversam diariamente com públicos que já aprenderam a confiar nelas.

Uma das mudanças mais curiosas desse cenário é que alcance e influência deixaram de ser sinônimos.

Uma campanha pode alcançar milhões de pessoas. Um criador regional pode falar com muito menos gente e, ainda assim, exercer maior capacidade de mobilização dentro de sua comunidade.

Estratégias baseadas em comunidades vêm ganhando espaço. Em vez de falar para todos ao mesmo tempo, campanhas buscam conversar com grupos específicos, respeitando suas referências, interesses e linguagens. A comunicação política tornou-se menos centralizada e mais distribuída.

Em um ambiente onde um assunto pode dominar as redes pela manhã e desaparecer à noite, campanhas passaram a depender menos de calendários rígidos e mais da capacidade de interpretar o que acontece em tempo real. Monitorar comunidades, compreender contextos e reagir rapidamente tornou-se tão importante quanto produzir conteúdo.

Apesar das novas tecnologias, dos algoritmos e das plataformas que surgem a cada ciclo eleitoral, a confiança continua sendo o ativo mais difícil de construir e o mais fácil de perder.

As experiências internacionais mostram que não existe um modelo universal de comunicação política. Mais do que fórmulas prontas, elas oferecem pistas sobre transformações que também já estão em curso no Brasil.

Mais do que reproduzir métodos importados, o desafio está em compreender como essas tendências podem dialogar com a cultura, as instituições e as particularidades do eleitor brasileiro.

Estratégias e tecnologias atravessam fronteiras com facilidade. A credibilidade, porém, continua sendo construída dentro das particularidades de cada sociedade, de suas instituições e da relação que líderes conseguem estabelecer com seus eleitores.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.
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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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