Skip to content
Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Tatibitate

Ilustração de Ana Helena Reis feita em caneta nanquim e desenho a lápis sobre em papel Canson

Alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice

Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo.  Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha.

Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que ainda não domina totalmente a linguagem, correto? Ledo engano. Ouvi esse diálogo em uma sala de teste ergométrico, em que a pessoa que estava sendo testada era uma senhora na faixa de sessenta anos. Constrangida, ela tentava se desvencilhar desse linguajar da assistente de enfermagem sem sucesso.

O que percebo é que alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice. É como se, na hora de desenhar a linha do tempo, os anos da vida adulta não existissem.

Infância e velhice se tornaram uma categoria única, com a diferença que, aos olhos principalmente de quem atende o público, essas crianças longevas sofreram uma perda significativa de senso crítico, autoestima, raciocínio e capacidade cognitiva.

Assim, a partir dos sessenta anos, os denominados “da terceira idade” se veem frente a situações cômicas, se não fossem odiosas.

Uma delas é essa mania de usar diminutivos, uma linguagem quase tatibitate. Os idosos não tem membros, tem membrinhos. Não são tratados como senhor e senhora e sim como senhorinha e senhorzinho. Tem sapatinhos e não sapatos e carregam malinhas e não uma mala.

Esse uso constante do diminutivo reduz o idoso a uma condição infantilizada e o interlocutor a praticamente um tutor daquele ser incapaz. Isso para não falar do sorriso condescendente que acompanha o diminutivo, quase de comiseração.

Vivemos em um país com trinta e sete milhões de pessoas (18% da população) com mais de sessenta anos e essa parcela da sociedade cresce a 2,5% ao ano. Há que se pensar, portanto, em uma reciclagem dos treinamentos para atendentes do público pois, no andar da carruagem, o diminutivo assumirá o comando na língua portuguesa.

Está na hora de esticar a linha do tempo e encurtar o tratamento com diminutivos!

Design Dolce sob imagem por Obencem em Canva

Publicidade | Dolce Morumbi®

Publicidade | Dolce Morumbi®

Publicidade | Dolce Morumbi®

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

Demais Publicações

A falta de ética na era da performance

Entre narrativas digitais e bolhas de filtro, o que ainda resta da nossa “vergonha na cara”?

Quando o convite que não vem dói mais em quem ama

Ela perguntou: 'E eu, mãe?' E eu não tive resposta. Só a certeza de que a luta pela inclusão não pode parar

O poder do sorriso

Um simples sorriso pode melhorar o estado emocional de duas pessoas ao mesmo tempo

Família, eu vou subir ao altar!

Quase nunca alguém pergunta verdadeiramente à noiva: “Estás bem? Tens a certeza do que vais fazer?”

Crise do petróleo e o dilema brasileiro: oportunidade histórica ou chance perdida?

A recente escalada de tensões no Oriente Médio trouxe novamente esse cenário ao centro do debate global

Encantar é uma arte!

Fernanda Pradella é uma contadora de histórias, uma guardiã de emoções e uma especialista na arte de encantar

O futuro do pão

A panificação evoluiu muito e cada vez mais as pessoas conhecem a fermentação natural, os famosos pães de casca dura e alvéolos enormes

Não fale com estranhos

Algumas sombras existem; Outras a gente inventa

O novo horizonte da hospitalidade

Quando a experiência se torna o verdadeiro luxo

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

publ-gisele-ribeiro-reiki-16.10.25-1-1
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções