Skip to content

Eva e a construção histórica da culpa feminina

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O mito de Eva não é apenas teologia; é a narrativa que sustenta estruturas e que, por isso, precisa ser rasgada, denunciada, desconstruída

Por Crisbelli Domingos

Por que ainda culpamos Eva? Essa pergunta deveria ecoar em cada manchete sobre feminicídio, em cada estatística que revela a brutalidade contra mulheres, em cada discurso que insiste em responsabilizá-las por sua própria dor. O mito da mulher que desobedeceu, seduziu e arrastou o homem ao pecado não é apenas uma história antiga; é um dispositivo ideológico que atravessou séculos e moldou a forma como pensamos, julgamos e tratamos o feminino. Eva não foi apenas personagem bíblica: foi transformada em símbolo da culpa, em justificativa para um sistema que naturaliza a inferioridade feminina e legitima sua submissão.

A narrativa da queda não é inocente. Ao atribuir à mulher a origem do mal, construiu-se um imaginário que associa o feminino à desordem, à tentação, à fragilidade moral. Esse imaginário não ficou restrito aos púlpitos e às páginas sagradas; ele contaminou leis, costumes, práticas sociais. O patriarcado encontrou nesse mito um argumento perfeito para sustentar sua lógica: se a mulher é culpada por corromper a ordem divina, então deve ser controlada, vigiada, punida. Essa ideia atravessou a Idade Média, justificou fogueiras, perseguições, exclusões. E, convenhamos, ainda hoje alimenta discursos que culpabilizam vítimas, romantizam a violência e transformam liberdade feminina em ameaça.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Vivemos em um país onde uma mulher é assassinada a cada sete horas. O Monitor de Feminicídios no Brasil (Lesfem), que compila dados preliminares de janeiro a outubro de 2025, indica que o país registrou 5.582 casos consumados e tentados no período, com uma taxa anualizada de 5,12 feminicídios por 100 mil mulheres.

Feminicídio não é um acidente, não é “crime passional”: é a expressão extrema de uma cultura que vê a mulher como propriedade, como objeto de posse. É sintoma de uma misoginia estrutural que não se limita à violência física. Ela está no olhar que julga, na piada que humilha, na lei que falha, na sentença que absolve. Está na lógica que insiste em perguntar “o que ela fez para provocar?”, como se a culpa fosse sempre dela. Essa mentalidade é herança direta de um imaginário que começou com Eva e que, de forma perversa, continua vivo.

Mesmo em tempos de avanços legais e movimentos feministas, os resquícios desse mito persistem. Persistem quando mulheres são julgadas por suas roupas, por suas escolhas, por sua sexualidade. Persistem quando a liberdade feminina é vista como desordem social. Persistem quando a violência é naturalizada como parte da vida privada. O mito de Eva não é apenas teologia; é política. É poder. É controle. É a narrativa que sustenta estruturas e que, por isso, precisa ser rasgada, denunciada, desconstruída.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Enquanto não enfrentarmos essa raiz simbólica, continuaremos vivendo num jardim onde a serpente é a misoginia, e onde a culpa, injustamente, sempre recai sobre a mulher. Combater o feminicídio e a desigualdade não é apenas questão de leis ou políticas públicas; é questão de imaginário, de cultura, de coragem para reescrever histórias. Porque, no fim das contas, Eva nunca foi o problema. O problema sempre foi o ódio que inventaram contra ela e contra todas nós.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Crisbelli Domingos é Doutora e Mestre em Estudos Linguísticos (Pragmática e Ciências Cognitivas), e coordenadora de cursos da área de Línguas e Sociedade da Uninter.

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

No clima e no sabor da Copa

Surpreenda a galera e leve um petisco fácil e gostoso para vocês aproveitarem esse momento e torcer rumo ao hexa

A vida em Bullet Points

Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista

Quando uma música custa mais do que uma cena

Por que Off Campus reduziu as referências ao One Direction na adaptação

E se uma viagem fosse um aroma?

Um simples aroma é capaz de transportar uma pessoa de volta a uma viagem já realizada

A elegância estruturada

Espartilhos, postura e os códigos de sofisticação feminina ao longo da história

A admiração: o oxigênio silencioso do amor

Combustível invisível que alimenta a entrega, a coragem de construir, de proteger, de persistir

Minhas primeiras impressões sobre a CASACOR 2026!

Com o tema “Mente e Coração”, a maior mostra de design do país prova que o futuro do morar está na desmistificação do óbvio e no resgate das memórias afetivas

A senha que atravessou vidas

Uma história de reconhecimento, escolhas e amor consciente

A libertação dos acordes para encantar multidões

Conheça a trajetória emocionante de uma jovem violinista que resgatou o amor pela música através da conexão com o público

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções