Existe um mito silencioso sobre as férias escolares. A ideia de que são dias leves, de desconectar e recarregar as energias. Para as crianças, e merecidamente para os professores, talvez seja. Mas para nós, mães, as férias são um intensivo de gestão de caos.
A falta de rotina, que para eles é liberdade, para mim é uma reorganização diária do impossível. Os horários viram sugestões. O home office, que deveria ser meu porto seguro de produtividade, vira um campo de batalha entre prazos, pedidos de lanche e a tentativa heroica de manter uma reunião online sem que uma crise existencial infantil aconteça ao fundo.
Esta semana, finalmente, o sinal tocou. A volta às aulas chegou. E com ela, não apenas a mochila organizada e o uniforme limpo, mas algo muito precioso: o meu próprio respiro.

Para uma mãe atípica e solo como eu, as férias são também a temporada das maratonas médicas. É quando agendamos todos os retornos, as terapias, os exames de rotina. São idas e vindas a hospitais, clínicas e laboratórios que consomem dias inteiros, uma energia que parece infinita, até que acaba. É uma logística de guerra, onde a única soldada sou eu.
Por isso, a volta às aulas não é apenas a volta deles. É a minha retomada territorial. É a chance de recolocar os móveis da rotina no lugar, de regrar os afazeres, de acalmar a mente que viveu em estado de alerta constante por semanas.
Eles estudam de manhã e confesso que sou noturna, isso é um desafio para mim. Minha criatividade e minha força de trabalho acordam quando a cidade escurece. Saber que as crianças estão na escola de manhã não vai magicamente transformar-me em uma pessoa matutina. Mas me dá algo inestimável: previsibilidade. Sei a hora exata em que saem, a hora exata em que voltam. Dentro daquele retângulo de horas, meu tempo volta a ser, um pouco, meu. Posso mergulhar em uma tarefa, atender um cliente, ou simplesmente respirar sem interrupções programadas.

A quantidade de coisas para fazer não diminuiu. A vida continua cheia, os desafios seguem os mesmos. Mas o simples fato de conseguir enxergar o dia com alguma clareza, de poder destinar blocos de tempo com alguma certeza, é um alívio que vai direto para o sistema nervoso. É como se a mente, antes um arquivo de documentos jogados ao vento, pudesse finalmente ser organizada em pastas.
Então, enquanto vejo meus filhos irem para a escola, não sinto apenas a saudade do tempo livre com eles – que existe, é claro. Sinto, principalmente, uma gratidão profunda por essa estrutura que nos sustenta. A escola se torna, nesses momentos, muito mais que um lugar de aprendizado para eles. É um pilar de sanidade para mim.

E sei que muitas de vocês, aí do outro lado, entendem perfeitamente esse suspiro coletivo que damos na segunda-feira de volta às aulas. Não é sobre querer ficar longe dos filhos. É sobre precisar se reencontrar no meio do furacão para poder estar presente de verdade quando eles voltarem.
Que essa nova rotina nos traga não apenas produtividade, mas pedacinhos de paz. Horas de qualidade com nosso trabalho e nosso autocuidado, para que possamos ter, no fim do dia, horas de qualidade ainda maiores com eles, e quem sabe, até uma noite inteira para essa mãe noturna recuperar seu próprio ritmo, em silêncio, sabendo que amanhã haverá um horário para tudo de novo.






























