Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora, hoje gostaria de convidá-los a observar um fenômeno curioso, de nossa confusa natureza humana, e que já vem de algum tempo, tanto que tomou conta de nossas praças digitais: a necessidade de transformar a nossa bondade em um evento público.
Já notou como, diante de qualquer tragédia ou causa social, surge uma corrida frenética para ver quem posta a frase mais indignada ou o filtro mais solidário? É sobre esse “teatro da virtude” que precisamos conversar.
Veja bem, o problema não é a solidariedade, mas a sua espetacularização.
Para entendermos onde nos perdemos, “pedimos licença” e damos o devido crédito a Guy Debord. Em sua obra profética, A Sociedade do Espetáculo (1967), Debord nos alertou que o mundo moderno substituiria o “ser” pelo “ter”, e o “ter” pelo “parecer”. No espetáculo, a vida vivida é trocada pela vida representada. Transpondo isso para os nossos dias: não basta ser empático; é preciso que o algoritmo registre que você é. A dor do outro, muitas vezes, deixa de ser um chamado à ação para se tornar o cenário de fundo de uma selfie moral.

O horror do vazio nos assombra e a necessidade de uma plateia urge diante da solidão. Mas por que sentimos essa necessidade compulsiva?
Se formos honestos conosco no silêncio da noite, admitiremos que a realidade, em seu estado bruto, é de uma mudez assustadora. Como Sapiens, somos máquinas de fabricar sentido; criamos utopias e ideologias para não sermos esmagados pela percepção de que a vida não nos fornece um manual prévio. No entanto, parece que dar sentido à existência não nos basta; precisamos que alguém assista e valide a nossa experiência.
A solidão cósmica é uma chaga que todos carregamos. É a sensação vertiginosa de que nossas dores e alegrias não possuem peso se não houver um “outro” para testemunhá-las. Somos como atores aterrorizados pela possibilidade de atuar para uma plateia vazia. A empatia de espetáculo, então, torna-se o nosso anestésico: ela oferece uma plateia instantânea que aplaude nossa existência e preenche o nada absoluto com notificações de “curtir”.
A mim parece que o retorno aos sentidos e à verdade do instante é o que de concreto surge na realidade, caracterizando a experiência que vivemos.
Não escrevo estas linhas com a pretensão de oferecer um consolo ou uma resposta definitiva — afinal, como ser humano, sofro desta mesma angústia existencial. Não há fórmulas para curar o vazio. Mas talvez a saída não esteja no volume do aplauso digital, e sim na recuperação do “gosto” pela vida.

Como sugeria Nietzsche, a sabedoria pode estar em voltarmos o olhar para a terra e para as coisas simples. Se a realidade é dura e o sentido é frágil, resta-nos o instante.
A verdadeira La Dolce Vita talvez não seja aquela postada na velocidade de um clique, mas aquela experimentada através dos nossos cinco sentidos: o sabor de um café sem a pressa da foto, o toque de uma mão que ajuda sem o flash da câmera, o som de um silêncio compartilhado.
Se não conseguimos escapar totalmente da vontade de nos apresentarmos aos outros, que o façamos, então, com a coragem da verdade — para o bem ou para o mal. Que a nossa empatia não seja uma peça de teatro, mas um encontro real entre dois seres que, no fundo, só querem saber que não estão sozinhos nesse mar agitado. Que tal, na próxima vez que o coração apertar, em vez de postar, você apenas… sinta?





























