Skip to content

O vazio dos sentidos e o teatro da virtude

No silêncio do ser, a vida revela seu gosto real.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Por que precisamos de uma plateia para validar nossa existência e como resgatar o gosto da vida fora do espetáculo?

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, hoje gostaria de convidá-los a observar um fenômeno curioso, de nossa confusa natureza humana, e que já vem de algum tempo, tanto que tomou conta de nossas praças digitais: a necessidade de transformar a nossa bondade em um evento público.

Já notou como, diante de qualquer tragédia ou causa social, surge uma corrida frenética para ver quem posta a frase mais indignada ou o filtro mais solidário? É sobre esse “teatro da virtude” que precisamos conversar.

Veja bem, o problema não é a solidariedade, mas a sua espetacularização.

Para entendermos onde nos perdemos, “pedimos licença” e damos o devido crédito a Guy Debord. Em sua obra profética, A Sociedade do Espetáculo (1967), Debord nos alertou que o mundo moderno substituiria o “ser” pelo “ter”, e o “ter” pelo “parecer”. No espetáculo, a vida vivida é trocada pela vida representada. Transpondo isso para os nossos dias: não basta ser empático; é preciso que o algoritmo registre que você é. A dor do outro, muitas vezes, deixa de ser um chamado à ação para se tornar o cenário de fundo de uma selfie moral.

Foto de Antoine Beauvillain na Unsplash

O horror do vazio nos assombra e a necessidade de uma plateia urge diante da solidão. Mas por que sentimos essa necessidade compulsiva?

Se formos honestos conosco no silêncio da noite, admitiremos que a realidade, em seu estado bruto, é de uma mudez assustadora. Como Sapiens, somos máquinas de fabricar sentido; criamos utopias e ideologias para não sermos esmagados pela percepção de que a vida não nos fornece um manual prévio. No entanto, parece que dar sentido à existência não nos basta; precisamos que alguém assista e valide a nossa experiência.

A solidão cósmica é uma chaga que todos carregamos. É a sensação vertiginosa de que nossas dores e alegrias não possuem peso se não houver um “outro” para testemunhá-las. Somos como atores aterrorizados pela possibilidade de atuar para uma plateia vazia. A empatia de espetáculo, então, torna-se o nosso anestésico: ela oferece uma plateia instantânea que aplaude nossa existência e preenche o nada absoluto com notificações de “curtir”.

A mim parece que o retorno aos sentidos e à verdade do instante é o que de concreto surge na realidade, caracterizando a experiência que vivemos.

Não escrevo estas linhas com a pretensão de oferecer um consolo ou uma resposta definitiva — afinal, como ser humano, sofro desta mesma angústia existencial. Não há fórmulas para curar o vazio. Mas talvez a saída não esteja no volume do aplauso digital, e sim na recuperação do “gosto” pela vida.

Foto de Stellar_speck na Unsplash

Como sugeria Nietzsche, a sabedoria pode estar em voltarmos o olhar para a terra e para as coisas simples. Se a realidade é dura e o sentido é frágil, resta-nos o instante.

A verdadeira La Dolce Vita talvez não seja aquela postada na velocidade de um clique, mas aquela experimentada através dos nossos cinco sentidos: o sabor de um café sem a pressa da foto, o toque de uma mão que ajuda sem o flash da câmera, o som de um silêncio compartilhado.

Se não conseguimos escapar totalmente da vontade de nos apresentarmos aos outros, que o façamos, então, com a coragem da verdade — para o bem ou para o mal. Que a nossa empatia não seja uma peça de teatro, mas um encontro real entre dois seres que, no fundo, só querem saber que não estão sozinhos nesse mar agitado. Que tal, na próxima vez que o coração apertar, em vez de postar, você apenas… sinta?

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

Demais Publicações

Novembro começa pedindo verdade

Que essa primeira quinzena seja de coragem para soltar, honrar, mergulhar e, finalmente, seguir com clareza

Você autorizaria uma IA a mexer no seu dinheiro?

Agentes de inteligência artificial começam a assumir tarefas financeiras. Além do risco de operações indevidas, surge outra preocupação: quem tem acesso aos seus dados quando você delega essas atividades?

Quando a polarização dos adultos invade a infância

Estamos ensinando nossas crianças a pensar ou apenas a escolher um lado?

A praça das Agulhas Silenciosas

A praça nunca foi tão silenciosa; nem tão perigosa

Como a queixa sexual se constrói e se mantém dentro do contexto conjugal?

Experiências pessoais são fundamentais para a vivência sexual dos casais

Beleza em tempo de renovação: novembro nos convida a desacelerar, dezembro nos inspira a brilhar

A beleza não está apenas no espelho, mas na maneira como nos cuidamos, nos valorizamos e nos preparamos para viver novos momentos

Turismo das lendas urbanas

Cidades que escondem histórias fascinantes

Como ensinar empatia a crianças e adolescentes?

Em um mundo cada vez mais individualista, ensinar a empatia desde cedo é essencial para formar cidadãos mais conscientes e preparados para lidar com diferentes realidades e desafios

Aranha Negra

A luta pelo respeito, pela verdade e pela dignidade começa por sabermos a quem devemos pedir explicações

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

dolce-mulher-publ-22-segredos-da-mulher-confiante-post-inst
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções