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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Dias quase perfeitos

Guache e lápis aquarelado sobre papel Canson por Ana Helena Reis

Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos

Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros.

Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbica, que ao mesmo tempo transmite uma paz reconfortante.

Hirayama encontra prazer em gestos banais. Escovar os dentes. Escolher uma música para ouvir no carro. Cumprir bem a tarefa de deixar os banheiros públicos impecáveis. Para ele, isso basta. Sua gentileza com os outros é sua forma de contribuir para o mundo.

Esse olhar me tocou de maneira especial. Vivo, hoje, uma transição. De uma vida profissional acelerada para um momento mais introspectivo, mais contemplativo. Uma rotina menos marcada por obrigações. Mais aberta a atividades simples, corriqueiras, que se tornam fonte de prazer.

Mas há um ponto que me inquieta. Para viver seus Perfect Days, Hirayama abandona quase tudo da vida anterior. Relações familiares, laços afetivos, responsabilidades. É como se tivesse optado por um isolamento absoluto. Isso levanta uma questão: até que ponto essa proposta não é uma utopia?

Afinal, muitos não podem simplesmente abrir mão dos “dias úteis”. Da pressão do trabalho. Dos horários, das contas, das cobranças.

Penso nas pessoas que encontro ao anoitecer, correndo para pegar um ônibus lotado depois de um dia exaustivo. Gente que, muitas vezes, nem sabe como vai pagar as contas do dia seguinte. E que, ainda assim, encontra espaço para sorrir e me oferecer um simples “boa noite”.

Talvez esteja aí a maior lição. Não é preciso renunciar a tudo para viver dias perfeitos. Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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