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As lições sem romantismo nem ilusões de Maquiavel às vésperas do voto

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Por que a leitura do clássico “O Príncipe”, de Maquiavel, é o melhor remédio contra a idealização infantil e o desencanto eleitoral?

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, à medida que o Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral — em que somos chamados a escolher os ocupantes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, dos Governos Estaduais e da Presidência da República —, um fenômeno quase inevitável volta a se repetir nas conversas de calçada e nas redes sociais: a tentação da idealização. Buscamos, com um desejo quase infantil, candidatos que encarnem a perfeição moral, discursos imaculados e promessas de um mundo sem conflitos. E, invariavelmente, colhemos a frustração.

Talvez o melhor remédio contra essa ingenuidade periódica seja o retorno a uma das obras mais mal compreendidas da história do pensamento ocidental. Lançado no século XVI, no turbulento cenário da Itália renascentista, O Príncipe, do florentino Nicolau Maquiavel, continua sendo o texto definitivo sobre a anatomia do poder.

Busquei notas que havia feito há um tempo, quando estudava esta obra, para trazer aqui elementos que podem ser esclarecedores, não apenas em relação à obra, mas sobretudo na reflexão que nós, cidadãos, devemos ter em perspectiva para entender, na dura realidade da vida, o exercício e o comportamento daquele que busca o poder, seja ele em qualquer instância.

Divulgação

Primeiro, é interessante entender o contexto e alguns dados históricos. Nicolau Maquiavel era um alto funcionário público e diplomata da República de Florença (a Itália ainda não havia sido unificada). Ele atuou intensamente na administração do Estado entre 1498 e 1512. Ele recorreu ao exílio no início de 1513, logo após a queda da República de Florença e o retorno da família Médici ao poder.

Durante o exílio, Maquiavel escreveu o texto e o dedicou a Lourenço de Médicis (especificamente Lourenço II de Médici, Duque de Urbino e neto de Lourenço, o Magnífico), governante de Florença. A intenção ao dedicar-lhe a obra era demonstrar sua competência política e conseguir retomar seu cargo na administração pública florentina após o exílio. O autor esperava impressionar os novos governantes para ser aceito de volta à vida pública como conselheiro ou burocrata.

Durante a vida de Maquiavel, o texto circulou apenas em cópias manuscritas privadas entre amigos e figuras políticas selecionadas. Maquiavel não batizou a obra com o nome conhecido hoje. Em seus rascunhos, ela era intitulada originalmente em latim como De Principatibus (Dos Principados). O título O Príncipe só foi consolidado pelos editores na publicação de 1532, cinco anos após sua morte, e ainda assim com a autorização do Papa à época, Clemente VII que, curiosamente, também pertencia à família Médici.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Apesar do aval papal inicial para a publicação, o tom profundamente realista e amoral da obra gerou imensa controvérsia nas décadas seguintes, tanto que, em 1564, durante o Concílio de Trento, o livro foi incluído no Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos pela Igreja Católica.

Com a proibição e ao longo do tempo, a tradição popular convencionou transformar o nome do autor em adjetivo pejorativo. “Maquiavélico” tornou-se sinônimo de perversidade, traição e crueldade gratuita. O rótulo, contudo, é fruto de uma leitura rasa. Maquiavel não ensinou o mal; ele foi o primeiro a ousar descrever a política exatamente como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse. Em vez de criar utopias de governantes perfeitos, olhou para a história e para a crueza dos fatos. Compreendeu que a política é uma ciência empírica e que seu fim primário, para além das belas intenções, é organizar a vida em sociedade, permitir a convivência pacífica entre diferentes e evitar que desabemos no estado de violência bruta — aquele abismo em que o homem se torna o lobo do próprio homem.

Para Maquiavel, a política não pode ser exercida como uma extensão do catecismo ou da moralidade privada. O soberano que tenta ser inteiramente “bom” em um mundo habitado por homens frequentemente ingratos, volúveis e egoístas caminha a passos largos para a própria ruína — e, pior, arrasta o seu povo para o caos.

Para navegar nesse mar revolto, a obra estabelece dois conceitos fundamentais que todo eleitor deveria ter em mente ao avaliar um líder:

A Fortuna: trata-se do acaso, das circunstâncias imprevistas, das crises econômicas, das guerras e das tempestades da história, da contingência. A Fortuna é como um rio violento que, quando transborda, devasta tudo ao seu redor. Nenhum governante controla a Fortuna, mas todos são testados por ela.

A Virtù: longe de significar “virtude moral” no sentido aristotélico, a Virtù maquiavélica é a capacidade política, a inteligência prática, a coragem calculada e a astúcia para ler o momento presente. É a habilidade de construir diques e canais antes que o rio da Fortuna transborde. A Virtù é a prudência que domina o tempo, sabendo a hora exata de ser ousado e o momento preciso de recuar.

Um político sem Virtù pode até chegar ao poder por mero golpe de sorte da Fortuna, mas ruirá no primeiro vendaval. Já o verdadeiro líder combina a ousadia de moldar os fatos com a prudência de não correr riscos desnecessários.

Retrato de Nicolau Maquiavel por Santi di Tito, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as lições mais valiosas de O Príncipe — e que se aplicam com espantosa precisão à nossa era de hiperexposição e redes sociais —, está a forma como o governante deve administrar a sua imagem pública e o seu comportamento diante das crises.

Maquiavel observou que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos. A percepção da autoridade é quase tão importante quanto o exercício real do poder. E, nesse tabuleiro, um dos maiores erros que um líder pode cometer é a defesa excessiva.

Na psicologia política de Maquiavel, o governante que passa o tempo todo reativo, tentando se explicar, justificando cada ato e rebatendo cada acusação, transmite à sociedade uma imagem fatal: a de fraqueza. Quando o líder se coloca na posição de réu, aceita o jogo do adversário, acende a curiosidade pública sobre a veracidade das dúvidas e esvazia a sua aura de firmeza.

Gravura colorida baseada no *Retrato de Nicolau Maquiavel*, de Stefano Ussi, 1894
Imagem de Stefano Ussi, Public domain, via Wikimedia Commons

Maquiavel ensina a economia de movimentos:

O silêncio como força: diante de ruídos menores, o silêncio e a serenidade demonstram autodomínio e superioridade estratégica.

O tempo da resposta: o governante só deve entrar na arena de embate quando o ataque ameaça diretamente a estabilidade real do Estado ou de sua governabilidade.

Evitar o ódio, cultivar o respeito: um líder pode e deve ser temido por sua firmeza, mas jamais deve ser odiado por crueldade desnecessária ou desprezado por condescendência e fraqueza.

Na nossa ágora digital, onde a tentação da resposta imediata faz com que políticos se desgastem em bate-bocas diários, a lição de Maquiavel soa como um aviso: quem se explica demais perde o controle da narrativa.

A grande conclusão que o pensador florentino nos legou é a de que a verdadeira ética na política não se mede pelas intenções do governante, mas pelos resultados concretos para a coletividade.

Sob a ótica do “bom-mocismo” politicamente correto, pode parecer chocante admitir que a política exige escolhas difíceis, dissimulações estratégicas e um profundo ceticismo sobre a natureza humana. No entanto, Maquiavel jamais pregou a maldade. O que ele defendia era uma justiça pragmática. Para ele, o papel supremo do Estado é prover estabilidade à instabilidade natural de uma sociedade atravessada por paixões, vaidades e interesses conflitantes.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Ao entrarmos na cabine de votação, vale lembrar que não estamos escolhendo um líder religioso, um guia espiritual ou um amigo de infância. Estamos escolhendo quem terá a Virtù necessária para administrar os recursos públicos, mediar conflitos de classe e manter a ordem sem descambar para a tirania ou para o caos.

Ler O Príncipe não é um exercício de cinismo; é um ato de maturidade cidadã. Ao despir a política dos seus mantos românticos, Maquiavel nos devolve a responsabilidade do olhar atento. Afinal, só quando compreendemos as regras reais do jogo de poder é que deixamos de ser meros espectadores manipulados e passamos a exigir a única coisa que realmente importa: a estabilidade e a preservação do bem comum.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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