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Meu amigo “Boneco Branco”

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Percebo como é pequena a nossa visão sobre a história de outra pessoa

Por Rafael Guimarães Pereira

Naquela pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, praticamente todo mundo tinha apelido.

Era assim.

Tinha gente cujo verdadeiro nome quase ninguém sabia. O apelido era mais conhecido do que o nome de batismo. Eu também tinha o meu: “Da Barra”. O motivo era simples. Antes de morar ali, eu tinha vivido em outra cidade pequena, Barra do Ribeiro.

E havia o Boneco Branco.

Ele era um dos dois irmãos, Cristiano “Blaus” e Rodrigo “Boneco Branco” ou “Boneco”, eu era amigo de ambos.

Só havia uma coisa curiosa naquela amizade: eu sempre ia à casa dele. Ele nunca ia à minha.

Um dia, em uma conversa que aconteceu há muitas décadas, ele me disse:

— Eu já tenho amigos suficientes.

Aquilo me deixou desconfortável.

Não exatamente ofendido. De alguma forma eu até respeitava aquela posição. Era uma característica dele, uma maneira de se relacionar com as pessoas que eu não compreendia muito bem.

Então me afastei.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

A vida continuou. Vieram a faculdade, mudanças de cidade, novos grupos, novos amigos, trabalho, família. Aos poucos, aquela turma foi ficando para trás.

Mas aquela frase ficou.

De vez em quando eu me lembrava do Boneco Branco e me perguntava:

Por que ele teria dito aquilo?

Naquela época, não tínhamos o conhecimento que temos hoje sobre tantas condições e diferenças individuais. Olhando para trás, algumas características dele poderiam talvez ser compreendidas de outra maneira. Mas isso é apenas uma hipótese minha.

E, na verdade, isso pouco importa.

Porque nada disso tirou um grama do carinho que eu tinha — e ainda tenho — por ele.

Recentemente, depois de tantos anos, a pergunta voltou: por onde anda o Boneco Branco?

Resolvi procurar.

Fui atrás de informações por meio de outro amigo em comum e descobri que ele é arquiteto, mora em Capivari do Sul e não mais naquela pequena cidade onde nos conhecemos.

Descobri também que enfrentou problemas importantes nos rins, passou por hemodiálise e, mais recentemente, recebeu um transplante.

Soube ainda que ele não gosta de receber visitas e que não mantém redes sociais.

E então fiquei pensando.

Quanto eu realmente sabia sobre aquele amigo?

Muito pouco.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Eu conhecia o adolescente que encontrava na cidade. Conhecia algumas de suas características, algumas preferências, algumas atitudes. Mas sua vida era — e continua sendo — infinitamente maior do que aquilo que eu conseguia enxergar.

E isso me fez pensar também naquilo que estudamos na conscienciologia: a seriéxis, a série de existências da consciência.

Se partirmos dessa hipótese, aquele encontro naquela pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul provavelmente não começou naquela vida.

Aquela turma de amigos, aquela cidade, aqueles irmãos e o próprio Boneco Branco talvez sejam companhias de longa data, reencontradas nesta existência para algum tipo de aprendizado e assistência recíproca.

É uma hipótese que muda bastante a maneira de olhar para as pessoas.

Porque, se existe um grupo evolutivo, talvez essas pessoas não sejam apenas “amigos de uma época”. Podem ser consciências com as quais temos uma história muito mais longa do que conseguimos lembrar.

E aí aparece uma questão que considero muito importante: a atualização da autoimagem.

Eu não sou mais aquele rapaz.

E ele também não é mais aquele rapaz.

Passaram-se décadas. Vivemos experiências diferentes, enfrentamos dificuldades, construímos relações, erramos, acertamos, aprendemos e, de uma forma ou de outra, evoluímos.

Por isso, talvez seja injusto continuar olhando para alguém pela imagem que construímos décadas atrás.

A pessoa mudou.

Nós mudamos.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O grupo mudou.

E talvez uma das funções do grupocarma seja justamente essa: oferecer oportunidades para que possamos aprender uns com os outros, superar antigas dificuldades de relacionamento, desfazer interprisões e, pouco a pouco, substituir vínculos baseados em obrigação, cobrança ou conflito por vínculos baseados em liberdade.

Gosto dessa ideia: desfazer interprisões para permanecermos unidos pela liberdade.

Foi por isso que procurei saber por onde andava o Boneco Branco.

Não necessariamente para retomar aquela amizade.

Nem para invadir a vida de alguém que claramente prefere mais distância.

Mas para atualizar a minha própria imagem daquele amigo.

Hoje, quando penso nele, já não penso apenas naquele adolescente que me disse que já tinha amigos suficientes.

Penso em um homem que construiu sua própria trajetória, tornou-se arquiteto, enfrentou uma doença renal grave, passou por hemodiálise e recebeu um transplante.

E percebo, mais uma vez, como é pequena a nossa visão sobre a história de outra pessoa.

Talvez seja uma boa lembrança para todos nós.

Não sabemos exatamente quem está ao nosso lado.

Não sabemos o que cada pessoa carrega.

Não sabemos de onde vêm determinados comportamentos.

E talvez nem precisemos saber tudo.

Podemos simplesmente exercer um pouco mais de compreensão.

Porque, se a hipótese da seriéxis estiver correta, talvez aquele “estranho” que encontramos pelo caminho não seja um desconhecido.

Talvez seja apenas mais um velho companheiro de jornada que a vida nos apresentou novamente.

E talvez o nosso trabalho seja aprender a conviver com ele de uma maneira um pouco melhor desta vez.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Rafael Guimarães Pereira é doutor em Química, empreendedor e pesquisador da liderança. Atua na interface entre ciência, inovação e desenvolvimento humano, com foco em autoliderança e formação de líderes. É casado, pai, cofundador da LIDERARE e voluntário dessa instituição e da ECTOLAB.

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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