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A armadilha da verossimilhança quando animais contam histórias

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

A fabricação de narrativas verossímeis nasce da urgência de sobreviver, mas se consolida na busca por vantagem estratégica sobre a interpretação do real

Por Paulo Maia

Em uma das cenas mais tensas do filme Animals (lançado no Brasil com a certeira tradução Sobrevivência), a personagem interpretada por Gillian Anderson retruca com frieza a indignação moral de um político que tenta recorrer à “decência humana” para se diferenciar dos demais seres vivos. A resposta dela vem como uma lâmina: “Homens são apenas animais que contam histórias”.

Isso mesmo, meu caro leitor e querida leitora, a frase condensa uma das percepções mais incômodas sobre a nossa espécie. Não contamos histórias apenas por um capricho poético, mas por uma exigência atávica. Diante da ameaça da realidade ou do julgamento alheio, a mentira deslavada é frágil, mas a narrativa bem costurada oferece um abrigo seguro. Como expõe a própria dinâmica do filme em frases cortantes — “existe a verdade e existe uma história” e “a história tem prioridade quando a verdade não se alinha” —, a ficção verossímil é desenhada para nos manter salvos das consequências imediatas dos fatos. Contamos histórias para sobreviver, para dar o próximo passo ilesos e para construir a ilusão de um caminho seguro.

IIustração criada com ferramentas de inteligência artificial.

O ponto cego desse comportamento revela-se quando a necessidade primordial de sobrevivência — a fuga do medo da morte ou da ruína — é satisfeita. É aí que a fabricação de relatos ganha seu contorno mais denso e perigoso: o desejo de levar vantagem sobre a interpretação da verdade.

No convívio social e na política polarizada, a realidade bruta raramente é aceita em seu estado puro; ela passa pelo filtro inevitável do julgamento dos pares. É nesse escambo que entra a lógica que o próprio filme sintetiza: “o poder da barganha é o equilíbrio entre a vantagem de aceitar e as consequências de recusar”. Fabricamos uma narrativa convincente, autêntica e fácil de lembrar sob pressão porque ela nos confere superioridade estratégica sobre os acontecimentos. Manipula-se a percepção dos fatos não apenas para evitar o dano, mas para garantir que o nosso grupo, a nossa causa ou a nossa imagem saiam vitoriosos na disputa pelas narrativas.

O engano fundamental dessa engrenagem é a ilusão de que somos capazes de julgar e compreender a totalidade da realidade. Na fundação do pensamento moderno, René Descartes já alertava para a limitação estrutural da razão humana. Ao notar que a mente dos homens é finita e incapaz de abranger a complexidade do mundo de uma só vez, Descartes estabeleceu a necessidade da análise — a decomposição dos problemas em pequenas partes para examiná-los com rigor.

IIustração criada com ferramentas de inteligência artificial.

Para o filósofo francês, a compreensão plena de todas as coisas é um atributo exclusivo do divino; ao ser humano cabe a modéstia de entender apenas por partes, de forma parcial e provisória. Quando esquecemos essa lição e acreditamos que a nossa narrativa abarca o todo, caímos na cegueira. A narrativa manipuladora ganha força justamente porque oferece uma “totalidade falsa” — uma resposta simples, fechada e reconfortante para fenômenos que são intrinsecamente complexos e fragmentados.

Nas situações-limite da vida pública ou privada, o ato de barganhar com a verdade ganha contornos trágicos. Pressionado por decisões cujos desdobramentos podem ser avassaladores, o indivíduo é frequentemente tentado a edificar uma versão dos fatos que minimize os estragos e proteja seus interesses — muitas vezes convencido de que está escolhendo o “melhor caminho” ou agindo com a melhor das intenções.

IIustração criada com ferramentas de inteligência artificial.

Ocorre que a realidade factual não se submete eternamente ao roteiro da ficção. Quando as decisões são tomadas com base na manipulação dos fatos para obter vantagem momentânea, as consequências reais marcham de forma implacável, muitas vezes vitimando inocentes e arrastando os próprios contadores da história para a queda. Ao tentarmos ajustar os fatos à nossa conveniência narrativa, esquecemos que não temos o poder de prever o futuro — e a “vantagem” imaginada pela nossa vaidade revela-se, não raro, o atalho para o colapso.

Admitir a nossa incapacidade estrutural de distinguir com absoluta certeza onde termina o fato e onde começa a narrativa é encarar a realidade em sua dimensão mais crua. Como Descartes intuiu, não possuímos recursos cognitivos para apreender a totalidade do real. Esta é a regra do jogo e o ambiente em que nos cabe viver entre nossos iguais.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Reconhecer essa limitação é como compreender a física do cotidiano: quando somos apanhados por uma tempestade, nós nos molhamos e podemos até adoecer — é um dado inexorável da natureza. Tentar “corrigir” ou erradicar esse comportamento narrativo, que é a própria base da nossa sustentação e adaptabilidade, equivale a uma ingenuidade brutal. Não por acaso, o título do filme de Ben Affleck recebeu no Brasil uma tradução reveladora: Sobrevivência. A fábula não é um luxo estético; é um mecanismo primário de vantagem e sobrevivência. Acreditar que podemos expurgar essa traça de nossa psique por meio de engenharia moral ou doutrinas mentais é tão absurdo quanto tentar ganhar altura ou alterar a cor dos olhos pelo mero exercício do pensamento.

O que nos resta é aprender a conviver com o imprevisto e com a nossa própria ambiguidade estrutural. Ao pretendermos erguer narrativas purificadas para obter o controle absoluto do real, frequentemente nos tornamos o próprio mal que julgávamos estar combatendo. A verdadeira maturidade intelectual não nasce da promessa de um olhar límpido sobre os fatos, mas do ceticismo sóbrio que nos impede de virar devotos da história que nós mesmos inventamos para vencer.

Até a próxima!

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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