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Estilista, empresária de moda, consultora de branding para o mercado de luxo

Quando a moda esquece de ouvir: o caso Adidas e o México

Oaxaca Slip-On | Imagem Reprodução do perfil Instagram de @sneakernews

O lançamento do modelo Oaxaca Slip-On, inspirado nas tradicionais sandálias huarache, trouxe à tona uma ferida antiga: o uso de criações culturais sem reconhecimento, participação ou benefício para os seus verdadeiros autores

Há muito tempo, a moda se alimenta de referências culturais. Tecidos, padrões, cortes e técnicas artesanais atravessam fronteiras e reaparecem nas passarelas e vitrines globais. Mas existe uma linha tênue entre inspiração e apropriação — e a recente polêmica entre a Adidas, o designer Willy Chavarría e a comunidade zapoteca de Oaxaca mostrou, mais uma vez, que essa linha não pode ser ignorada.

O lançamento do modelo Oaxaca Slip-On, inspirado nas tradicionais sandálias huarache, trouxe à tona uma ferida antiga: o uso de criações culturais sem reconhecimento, participação ou benefício para os seus verdadeiros autores. Não se trata apenas de “referenciar” uma estética. Trata-se de valorizar o trabalho manual, a história e a identidade de um povo que vê, recorrentemente, seu patrimônio transformado em produto de massa sem consentimento.

O pedido público de desculpas de Chavarría e da Adidas foi necessário, mas insuficiente se ficar apenas no campo simbólico. Reconhecer o erro é o primeiro passo; o segundo, e mais importante, é criar mecanismos de reparação e de colaboração genuína. Isso significa remunerar artesãos, incluir suas vozes nos processos criativos e construir relações comerciais que sejam justas e respeitosas.

O México, ao anunciar medidas para proteger legalmente as criações indígenas, sinaliza que não está disposto a assistir, passivamente, à diluição de seu patrimônio cultural. E esse posicionamento ecoa além de suas fronteiras. Em um mundo globalizado, onde uma ideia pode virar tendência em segundos, a responsabilidade ética das marcas precisa ser tão rápida quanto sua capacidade de produção.

O caso da Adidas é um lembrete: a moda tem poder para amplificar culturas, mas também para apagá-las. Cabe aos criadores e empresas escolherem qual legado desejam deixar — o de quem extrai sem dar nada em troca ou o de quem transforma o sucesso em ponte para o respeito e a valorização.

Ruínas do Palácio em Mitla, México, com pintura original nas paredes, comunidade zapoteca de Oaxaca
Imagem enviada para a Wikipédia em inglês por Bobak Ha’Eri, CC BY 2.0 , CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

O que aconteceu

Início de agosto de 2025 – A Adidas lança o modelo Oaxaca Slip-On, que combina a sola de um tênis moderno com a trama de couro trançado típica das sandálias huarache, feitas há séculos por artesãos zapotecas da comunidade de Villa Hidalgo Yalálag, em Oaxaca. Nenhuma referência à origem cultural é feita na divulgação oficial do produto.

7 e 8 de agosto – A presidente do México, Claudia Sheinbaum, e a ministra da Cultura, Alejandra Frausto Guerrero, acusam a Adidas de apropriação cultural. O Ministério da Cultura destaca que as huaraches não são apenas um produto estético, mas parte de um patrimônio vivo que merece respeito e proteção.

8 de agosto – A imprensa internacional repercute o caso. Jornalistas, líderes indígenas e ativistas culturais lembram que o México já enfrentou situações semelhantes com marcas como Zara, Carolina Herrera e Isabel Marant.

10 de agosto – A polêmica se intensifica nas redes sociais. Hashtags como #HuaracheEsMéxico e #AdidasApologize viralizam, com milhares de usuários exigindo crédito e compensação à comunidade zapoteca.

11 de agosto – Willy Chavarría, designer do modelo, publica um pedido de desculpas, afirmando estar “profundamente arrependido que o calçado tenha sido apropriado nesse design e não desenvolvido em parceria direta e significativa com a comunidade oaxaquenha”; A Adidas divulga comunicado oficial pedindo desculpas, reconhecendo o erro e prometendo um diálogo direto com Yalálag para buscar formas de reparação e valorização cultural.

12 de agosto em diante – O governo mexicano anuncia que estuda medidas legais com base na lei de 2022, que criminaliza o uso não autorizado de símbolos, técnicas e designs indígenas. Especialistas afirmam que o caso pode abrir um precedente internacional na proteção de patrimônios culturais na moda.

Sandália típica Huarache feito à mão. Foto de abril de 2007.
Nenhum autor legível fora identificado. Domínio público com base em reivindicações de direitos autorais. Imagem via Wikimedia Commons

Entre a inspiração e a exploração

Ainda que pedidos de desculpas sejam um passo necessário, a pergunta central persiste: por que esse diálogo não aconteceu antes do produto chegar às lojas? O Oaxaca Slip-On não surgiu por acaso; ele foi fruto de um processo criativo que, em algum momento, escolheu ignorar a consulta e a parceria com a comunidade de onde veio a inspiração.

Quando grandes marcas utilizam elementos culturais sem permissão ou remuneração, perpetuam uma lógica de extração: retiram o que é único, transformam em mercadoria global e deixam para trás a comunidade que deu origem àquele conhecimento. Não é só sobre estética, é sobre poder e desigualdade.

Com sua legislação recente, o México demonstra estar disposto a proteger juridicamente seu patrimônio. Isso coloca pressão sobre outras nações para adotarem medidas semelhantes, e sobre a indústria da moda para rever seus processos. Afinal, criatividade não precisa ser sinônimo de apropriação — ela pode, e deve, ser uma ponte para colaboração, reconhecimento e benefício mútuo.

Um alerta para a indústria

O caso da Adidas é apenas mais um exemplo em uma longa lista de apropriações na moda, mas ganha força por envolver uma marca global e um designer de origem latina, o que evidencia que nem mesmo a proximidade cultural garante práticas responsáveis.

A solução não está em evitar referências cruzadas, mas em estabelecer processos éticos de cocriação. Isso significa remunerar artesãos, incluir suas vozes nos créditos e campanhas, e garantir que cada peça conte a história verdadeira de sua origem — não uma versão higienizada para caber no marketing de uma multinacional.

No fim, a moda tem duas escolhas: continuar explorando silêncios e lacunas legais, ou usar sua visibilidade para fortalecer as culturas que a inspiram. Cabe à Adidas, e a todos que ocupam posição semelhante, decidir de que lado da história querem estar.

Reconhecer e reparar uma negligência é um ato de virtude rara, e raridades assim são cada vez mais urgentes. A virtude, afinal, é um clássico que nunca sai de moda.

O designer Willy Chavarría
Imagem por Steven Biccard, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Marlize Baierle é estilista e empresária de moda, iniciou sua carreira no mercado de luxo em Milão na criação de joias e roupas, especialmente com peças exclusivas para noivas e guarda roupas personalizados, com atenção voltada às tendências globais. Graduada em artes, destacou-se no sul do país como produtora de casamentos e eventos corporativos e hoje divide sua agenda entre Santiago, no Chile e São Paulo, atuando como consultora de branding e etiqueta corporativa com olhar e toque especial que buscam sempre a elegância e um diferencial de destaque no interesse de seus clientes.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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