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Um livro na sombra da Consolação

Imagem por Francisco Leopoldo e Silva (1879-1948) - Interrogação (Túmulo de Moacyr de Toledo Piza), no Cemitério da Consolação, São Paulo, Brasil

Naquele passeio noturno, visto por muitos como presságio de mau agouro, a curiosidade dela não se acovardava diante do cenário soturno.
“Acostuma-te à lama que te espera!”, recordou-se do verso de Augusto dos Anjos, poeta estudado na juventude.

Por Tânia Lins

“Noite de 25 de outubro de 1923. Nenê entrava em um carro de praça quando Moacyr surgiu das sombras. Queria conversar com a cortesã. Os dois se sentaram no banco de trás do automóvel e iniciaram a derradeira viagem. Em meio a uma discussão acalorada, estampidos secos ecoaram no interior do veículo. Moacyr disparou três tiros à queima-roupa contra a ex-amante e, em seguida, atirou no próprio peito. Assim divulgaram as crônicas da época”, o guia do passeio finalizou a explicação enquanto apontava a lanterna em direção a uma escultura.

Ali estava a representação de uma mulher nua, entalhada em mármore branco, com o pescoço levemente inclinado em direção aos joelhos; aos seus pés jazia uma esfera também esculpida em mármore. Intencionalmente, a postura da beldade evocava o formato de um ponto de Interrogação – nome que o artista Francisco Leopoldo e Silva escolheu para a obra. Tratava-se do túmulo do respeitado advogado Moacyr Toledo Piza, que, segundo a versão amplamente divulgada, assassinara a cortesã conhecida como Nenê Romano, uma mulher que despertou a paixão e a cobiça de muitos homens.

A visita guiada pelo Cemitério da Consolação parecia levar vida a um local consagrado à morte. Em meio a tantas pessoas, concluiu que o gosto peculiar não era exclusividade sua – sempre foi fascinada pelo sobrenatural, por esse mundo invisível que apavora a tantos.

Nenê Romano | Moacyr Toledo Piza

Ela continuou o passeio imersa em muitos questionamentos. As lápides, coalhadas de baratas, tornavam o local ainda mais fúnebre, mas não o suficiente para detê-la. Caminhava resoluta pelas alamedas, que pareciam sussurrar histórias esquecidas ao longo dos anos. Foi então que, movida pela inquietação, decidiu buscar mais informações sobre o trágico crime aparentemente passional.

Nos anos 1920, Nenê Romano destacava-se como uma das cortesãs mais famosas de São Paulo, tendo entre seus amantes até políticos influentes. Ao sofrer um atentado a mando de sinhazinha Junqueira, uma proeminente senhora do café, no qual foi atacada com uma navalha por seus agressores, a beldade resolveu buscar reparação na justiça. Na ocasião, seu caminho se cruzou com o de Moacyr Toledo Piza, advogado, jornalista e escritor pertencente a uma família tradicional paulistana.

Não demorou para que se envolvessem afetivamente, protagonizando um caso que durou cerca de dois anos. Sem aceitar o fim do relacionamento, o ilustre advogado, então, assassina a ex-amante, suicidando-se em seguida. Pairam muitas dúvidas sobre as reais motivações do crime: teria sido passional ou provocado por intrigas políticas? Algumas versões afirmam que Nenê era também amante de Washington Luís, ilustre político e um dos alvos da pena afiada de Piza. Quando escreveu a obra Roupa Suja: Polêmica Alegre, em que faz uma crítica direta às práticas da elite paulista da República Velha, o causídico também direciona várias críticas morais ao presidente do Estado de São Paulo, Washington Luís, denunciando o comportamento devasso do político. O livro não menciona explicitamente Nenê Romano, mas faz alusões à cortesã, insinuações veladas, que foram fortemente aceitas por pesquisadores.

Uma das alamedas do Cemitério da Consolação, São Paulo
Imagem por Wilfredor, CC0, via Wikimedia Commons

Ao expor segredos, práticas ilícitas e amizades duvidosas, a obra causou rupturas nas relações entre a elite política e Piza, que angariou inimigos poderosos. Mas há veracidade nessas acusações e insinuações? Muitas são boatos, relatos de bastidores, que corriam à boca miúda; não há documentação conclusiva para todas as afirmações atribuídas a Washington Luís ou a outros sobre as relações de caráter íntimo com a cortesã.

A ligação direta entre a obra e o assassinato de Nenê por Piza, seguido do suicídio do advogado, é tema de discussão entre historiadores – alguns consideram Roupa Suja um fator importante para o desencadeamento da tragédia, mas não necessariamente o determinante final.

O que realmente teria acontecido? E assim, tal como a escultura que guarda a última morada de Moacyr Toledo Piza, a história permanece sob uma interrogação. Teria sido um crime passional, motivado pela possessividade do eminente causídico, ou o peso das revelações de Roupa Suja o verdadeiro gatilho?

Na conclusão tendenciosa das autoridades – endossada pela opinião pública –, a culpa recaiu sobre Nenê Romano, descrita pelo Jornal O Combate como “flor da rua e da lama”, capaz de manipular e enfeitiçar com seus encantos mundanos um respeitado advogado.

Entre verdades e rumores, alguns são lembrados com glória; outros, com escárnio. Uns são reverenciados com sepulturas luxuosas; outros jazem sob lápides abandonadas. Os cemitérios das cidades são como livros: guardam histórias que o tempo não conseguiu enterrar.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Tânia Lins é bacharel em Administração de Empresas, licenciada em Letras e pós-graduada em Língua Portuguesa e Comunicação Empresarial e Institucional. Atua há mais de quinze anos no mercado editorial, com experiência profissional e acadêmica voltada à edição, preparação e revisão de obras, gerenciamento de produção editorial, leitura crítica e análise literária. Atualmente, é coordenadora editorial na Editora Vida & Consciência.
@vidaeconsciencia

Colaboração da pauta:

Frida Luna Boutique de Comunicação

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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