Skip to content

Erosão cognitiva: alerta dos especialistas para o uso da IA na infância

Design Dolce sob imagem por Jonathan Borba em Pexels

Se quisermos uma geração capaz de inovar, questionar e criar, precisamos cuidar para que a IA seja ferramenta, não prótese cognitiva

Por Sheron Mendes

Vivemos um paradoxo: a inteligência artificial (IA), ao mesmo tempo em que pode personalizar o ensino e facilitar tarefas, também ameaça corroer as bases da cognição humana. Pesquisas do Departamento de Saúde e bem-estar da Frontiers in Psychology de 2025 chamam esse fenômeno de erosão cognitiva, a tendência de delegarmos tantas funções mentais às máquinas que acabamos atrofiando habilidades como memória, raciocínio crítico e criatividade.

Se para adultos essa dependência já preocupa, para crianças em processo de alfabetização o risco é ainda maior. Diferente do ato de sugar do bebê, que já nasce programado biologicamente, a leitura não é um processo inato do ser humano: ela precisa ser construída, sinapse por sinapse, em diálogo com o ambiente. Como destaca a neurocientista Maryanne Wolf, “cada criança forma um circuito de leitura único, envolvendo múltiplas áreas do encéfalo que se reorganizam para integrar visão, linguagem, memória e emoção”, diz ela.

A fase inicial da leitura e da escrita, portanto, não é apenas uma etapa técnica: ela envolve a capacidade de lidar com informações momentâneas, da atenção sustentada e da habilidade de organizar o pensamento em símbolos. Quando essas tarefas são transferidas a um chatbot, o cérebro infantil deixa de exercitar operações que sustentam o aprendizado ao longo da vida.

Design Dolce sob imagem por Gustavo Fring em Pexels

A teoria da mente estendida ajuda a compreender o dilema. Desde sempre utilizamos artefatos externos, do ábaco ao caderno, para expandir nossas capacidades cognitivas. Esses instrumentos não apenas registram ou facilitam cálculos, eles mobilizam o corpo e o pensamento. O ábaco exige raciocínio lógico e visualização numérica; o lápis e o caderno, além de exercitarem a coordenação motora fina, estimulam a organização sequencial, a reflexão e o pensamento crítico. São ferramentas que convidam à autoria, pois a criança precisa construir cada traço e elaborar cada ideia. Já a inteligência artificial generativa, quando usada de modo substitutivo, entrega textos, imagens ou respostas prontas. Nesse cenário, o estudante deixa de ser autor para se tornar espectador, perdendo a experiência essencial de “pensar por si”.

A Frontiers in Psychology confirma essa preocupação. Em um de seus estudos, alunos que recorreram ao ChatGPT para resolver problemas de matemática acertaram mais exercícios, mas compreenderam menos os conceitos. Já estudos da Science & Education, também de 2025, mostram que muitos jovens simplesmente colam perguntas nos chatbots e recebem soluções sem elaborar raciocínios próprios. O resultado é a ilusão de competência, um placebo cognitivo que mascara fragilidades de base.

Isso não significa que a IA deva ser banida da escola. Ao contrário: quando usada como artefato complementar, ela pode oferecer feedback personalizado, auxiliar alunos com dislexia ou deficiência visual e enriquecer ambientes gamificados que estimulam engajamento. O problema não está na tecnologia em si, mas no modo como a incorporamos.

Design Dolce sob imagem por TAtiana Syrikova em Pexels

Na alfabetização, a prioridade deve ser garantir que a criança escreva, leia, erre e reflita com autonomia. A IA pode entrar como apoio, sugerindo hipóteses, ampliando vocabulário ou mediando diálogos. Assim como acontece com a calculadora, que só deve ser introduzida após a criança dominar números e operações básicas, a inteligência artificial precisa ser apresentada depois que os fundamentos da leitura e da escrita estiverem consolidados. Do contrário, corre-se o risco de pular etapas do desenvolvimento cognitivo e formar usuários dependentes, não pensadores autônomos. A erosão cognitiva não é destino inevitável, mas consequência de escolhas mal analisadas. Proteger a infância desse risco exige prudência, e para isso, adotar IA na medida certa, formar professores para usá-la criticamente e cultivar na criança a consciência de que pensar é uma atividade insubstituível. Se quisermos uma geração capaz de inovar, questionar e criar, precisamos cuidar para que a IA seja ferramenta, não prótese cognitiva. Afinal, alfabetizar é mais que aprender letras, é aprender a pensar.

Publicidade | Dolce Morumbi®

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Sheron Mendes é bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em educação na UNINTER.

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

O outono de abril

Não deixe de aproveitar alimentos que estão no seu melhor momento e preço

De frente ou de costas?

Numa manhã gostosa, depois de uma longa caminhada, cansados e suados correram para o chuveiro

A beleza que emancipa: como a mulher moderna se reinventa

A beleza não é apenas sobre a aparência física, é sobre a confiança e a autoestima

Viagens com propósito e o turismo voluntário pelo mundo

Se você quiser uma experiência diferente durante a sua viagem pode pensar em se voluntariar e ainda ajudar pessoas

Violência física e psicológica contra crianças e adolescentes deixam marcas que duram para sempre

Agressões contra crianças e adolescentes causam danos profundos e duradouros ao desenvolvimento cognitivo, comportamental e emocional

Uma voz que venceu o silêncio

Após 20 anos de estrada e desafios, a cantora paraense Adriana Oliver encontra no palco digital de Rúbia Custódio o reconhecimento e a cura através da música raiz

Quando tudo parecia travado, algo invisível destravou a equipe

A transparência plena permite que os reais conflitos e incômodos das pessoas venham à tona

O olhar que decifra emoções

A trajetória de Gisele Oneda e o poder do registro eterno

O ritmo do agora: onde perdemos o compasso?

O que resta da nossa humanidade quando decidimos acelerar a voz do outro e abreviar o tempo do sagrado?

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

publ-gisele-ribeiro-reiki-16.10.25-1-1
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções