Esses dias me deparei com uma notícia que não saiu da minha cabeça e logo pensei em compartilhar com vocês algumas reflexões que me vieram à mente.
Tânia Maria, uma artesã nordestina (seu nome de batismo é Sebastiana Maria de Medeiros Filha), estreou no cinema aos 73 anos no filme Bacurau e recentemente em O Agente Secreto e por esse filme, é uma possível indicação ao Oscar 2026 de melhor atriz coadjuvante.
Me lembrei então de Cora Coralina, que publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, aos 76 anos, uma das mais importantes escritoras brasileiras.
Confesso que parei e respirei fundo ao ler isso. Não pelo feito em si, mas pelo encanto do tempo que essas histórias revelam.
Vou fazer 51 este ano, este número pesa na mente em alguns momentos quando algo não dá certo. Me pego em dúvida se ainda existe espaço para mim…mas vendo exemplos como estes eu sinto que o tempo é só um número.
Quantas vezes nós, mulheres e mães, carregamos a sensação sutil – e às vezes gritante – de que o “tempo certo” já passou? De que a janela para aquele sonho antigo, aquele projeto que vive só na gaveta da mente e até mesmo o encontro de um grande amor, já se fechou?
A cultura nos empurra uma lógica implacável: tem hora para estudar, hora para constituir família, hora para brilhar na carreira. E quando a vida real acontece, com seus cuidados, suas interrupções, suas prioridades que nunca somos nós em primeiro lugar, a sensação que fica é a de atraso. Como se o comboio da realização tivesse partido sem a gente.

A Sara me ensinou e ensina todos os dias sobre isso. Sobre não ter tempo certo para as coisas, o tempo certo é quando elas acontecem. A síndrome de down dela é algo que foge de todos os padrões de aprendizado e desenvolvimento de uma criança, porém ela não impede que aconteçam; ela só nos mostra que é preciso dedicação, confiança e paciência para que seja no tempo dela. E porque não pode ser assim para nós também, “pessoas normais”? Termo aliás, que nem deveria existir, mas esse é um assunto para outro artigo…
Então, vemos histórias como a da Tânia e da Cora, entre tantas outras anônimas, sussurrando uma verdade diferente. Elas não falam de “sucesso tardio”. Falam de vida no próprio ritmo. Falam de uma semente que ficou adormecida, não morta. Que foi sendo adubada, mesmo sem ninguém ver, por todas as experiências, dores, amores e perdas que constituíram a mulher que essas senhoras se tornaram.
A vida, muitas vezes, não nos poupa. Concordo. Há atrasos que doem, silêncios longos que assustam, travessias que exigem tudo da gente. A maternidade, em especial, pode ser uma dessas travessias que redesenham completamente o mapa do nosso tempo, quando ela atípica então, foge mais ainda do esperado.
E é justamente aí, no meio desse redesenho, que podemos nos perder de nós mesmas. Acreditamos que, porque não seguimos um roteiro pré-estabelecido, perdemos o direito ao nosso próprio enredo.
Mas e se enxergarmos de outro jeito?
E se cada cuidado dado, cada noite em claro, cada ajuste de rota feito por amor, não for um desvio do caminho, mas justamente o caminho que nos leva até o ponto de partida real? O ponto em que, finalmente, estamos fortes o suficiente, sábias o suficiente, inteiras o suficiente – e, talvez, desapegadas o suficiente das expectativas alheias – para começar.

Nem tudo chega no tempo que a gente imagina, mas algumas coisas chegam no tempo em que a gente finalmente está pronta para nele existir.
Esse pensamento é um abraço para a mãe que quer voltar a estudar, mas acha que a sala de aula é território dos jovens. Para a mulher que sente um chamado para empreender, mas teme ser “tarde demais” para aprender. Para a artista que adiou seus pincéis ou suas palavras, achando que a vida prática não tinha espaço para isso. Para o encontro inesperado de sua alma gêmea.
O seu sonho não tem data de validade. A sua criatividade não expira. A sua capacidade de recomeçar é parte inerente do que você é – uma mulher que já transformou tanto, tantas vezes, só para seguir em frente.
Talvez o maior presente que podemos nos dar neste ano que começa seja rasgar o calendário interno da cobrança. Trocar o “já deveria ter” por um “quando eu estiver pronta”.
A vida pode, sim, nos surpreender. Mas primeiro, precisamos nos surpreender a nós mesmas, dando crédito à nossa própria história e abrindo espaço, sem pressa e sem culpa, para o que ainda está por florir.
A pergunta não é “ainda está em tempo?”. A pergunta é:
“O que em você, cultivado por toda a sua jornada, está pronto para finalmente nascer?”
A resposta, no seu tempo, virá. E nós brilharemos, como Tânia e Cora.






























