Skip to content
Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

Romeu e Julieta: romantismo ou dependência emocional?

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Um alerta intemporal sobre impulsividade, falhas na comunicação e a ilusão de que o outro é responsável pela nossa felicidade

Quando pensamos em Romeu e Julieta, somos quase automaticamente conduzidos à ideia do amor romântico elevado à sua forma mais pura: um amor intenso, arrebatador e disposto a tudo. Durante séculos, esta história foi apresentada como o expoente máximo do romantismo. Mas e se Shakespeare não estivesse, afinal, a glorificar o amor — e sim a alertar-nos para os seus excessos?

William Shakespeare escreveu Romeu e Julieta no final do século XVI, muito antes do surgimento do movimento Romântico, que só ganharia força no século XVIII. No contexto do Classicismo, os casamentos eram, na sua maioria, acordos económicos e sociais, e não decisões baseadas no amor. Assim, é pouco provável que Shakespeare estivesse a defender o amor romântico como ideal absoluto, tal como hoje o concebemos.

Aliás, ao olharmos para a história com algum distanciamento emocional, o enredo  se revela menos idílico do que costumamos acreditar. Romeu e Julieta conhecem-se em um baile, apaixonam-se quase instantaneamente e, em poucos dias, decidem casar-se em segredo, apesar da rivalidade profunda entre as suas famílias. Não há tempo para o conhecimento mútuo, para o diálogo profundo ou para a construção de confiança. Há intensidade, impulso e idealização.


Imagem atribuida a John Taylor, Domínio púlblico, via Wikimedia Commons

Quando o amor encontra resistência externa, Julieta toma uma decisão extrema: beber uma poção que a fará parecer morta, tudo para poder fugir com Romeu. O plano falha devido a um problema que continua a ser uma das maiores causas de conflito nos relacionamentos modernos — a comunicação. Romeu, sem saber da encenação, acredita que Julieta morreu e, incapaz de lidar com a dor da perda, suicida-se. Julieta, ao acordar e perceber o que aconteceu, faz o mesmo.

O que esta história nos mostra, afinal? Mais do que um amor sublime, vemos um relacionamento marcado pela impulsividade, pela ausência de limites, pela fusão emocional extrema e por decisões tomadas sem clareza ou responsabilidade emocional. Talvez Shakespeare estivesse menos interessado em idolatrar o amor e mais empenhado em mostrar como ele pode tornar-se destrutivo quando vivido sem maturidade.

O escritor contemporâneo Mark Manson ajuda-nos a olhar para esta questão de forma provocadora ao afirmar que o amor romântico funciona, no cérebro, de forma semelhante à cocaína, ativando os mesmos circuitos neurológicos associados ao prazer e à recompensa. Tal como a droga, o amor pode fazer-nos sentir extraordinariamente bem — mas também pode levar-nos a comportamentos irracionais, dependência emocional e sofrimento intenso.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Daí a pergunta essencial: somos responsáveis pela nossa própria felicidade ou estamos a colocá-la inteiramente nas mãos do outro? Quando acreditamos que o outro é a nossa salvação emocional, criamos relações frágeis, baseadas na necessidade e não na escolha consciente.

Relacionamentos saudáveis exigem mais do que paixão. Exigem comunicação clara, limites bem definidos, valores alinhados e a capacidade de cada pessoa sustentar o seu próprio bem-estar emocional. Amor não é fusão total, nem sacrifício absoluto. É encontro, partilha e crescimento mútuo.

Talvez Romeu e Julieta não seja, afinal, uma celebração do amor ideal, mas um aviso intemporal sobre o que acontece quando confundimos intensidade com profundidade e paixão com maturidade. Um lembrete de que amar não deveria ser um ato de perdição — mas um espaço onde dois indivíduos inteiros escolhem caminhar juntos, sem se perderem de si mesmos.

E para você, Romeu e Julieta continuam sendo uma história de amor ou um convite a repensar a forma como vivemos nossos relacionamentos? Vou adorar conhecer a sua percepção.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.

Demais Publicações

O complexo de vira-latas com grife

Por que a nossa crônica incapacidade de planejar expõe mais do que o atraso tático de uma Seleção?

A substituta renegada

Só por magia um homem poderá viver um tal amor que, acredito, ele sabe que não será possível

Você sente culpa por não estar feliz?

Entenda a positividade tóxica; cobrança para parecer bem o tempo todo pode levar à culpa e à negação das emoções

Como transformar conhecimento em um negócio que escala

Comunicação feita com autenticidade não precisa de manipulação

Quem define os limites da inteligência artificial

A disputa que começou nos bastidores da tecnologia pode revelar quem terá influência sobre a próxima fase da transformação digital

Um renascimento digital

Com três CDs, um DVD e quase três décadas de uma carreira consagrada, Viviane Cantarella, revela como o universo das lives transformou sua arte em cura e conexão global

No clima e no sabor da Copa

Surpreenda a galera e leve um petisco fácil e gostoso para vocês aproveitarem esse momento e torcer rumo ao hexa

A vida em Bullet Points

Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista

Quando uma música custa mais do que uma cena

Por que Off Campus reduziu as referências ao One Direction na adaptação

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções