Com o Carnaval vem, talvez, a mais exuberante expressão da identidade brasileira, além de ser também um dos palcos mais potentes da moda como linguagem cultural. Muito além do brilho e das plumas, dos carros alegóricos e do samba na rua, ele carrega história, resistência, reinvenção e, acima de tudo, narrativa.
Ao longo dos meus anos de experiência na alta moda, aprendi que nenhuma criação nasce do vazio. Toda estética é reflexo de seu tempo, de suas referências e de seus movimentos sociais. O Carnaval materializa isso de forma grandiosa: ele é passarela, manifesto e memória coletiva ao mesmo tempo. Conta momentos do povo brasileiro, falando do seu presente ou suas memórias, exaltando fatos e projetando ideias futuras como contexto social, criativo e abundante.
Historicamente, as festas carnavalescas chegaram ao Brasil sob influência europeia, mas foi aqui que ganharam alma própria. Das máscaras venezianas aos bailes imperiais, passando pelo entrudo e, mais tarde, pelos desfiles das escolas de samba, vemos a transformação de uma celebração importada em um espetáculo autenticamente brasileiro. E é nesse processo que a moda assume um papel central.

Os figurinos carnavalescos são arquivos vivos da história. Cada fantasia carrega símbolos religiosos, africanos, indígenas, barrocos e futuristas. As escolas de samba contam enredos que revisitam personagens esquecidos, exaltam culturas marginalizadas e questionam narrativas oficiais. O tecido, a pedraria e o bordado tornam-se instrumentos de discurso.
Da perspectiva da alta moda, o Carnaval sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração. Grandes estilistas beberam da exuberância brasileira para criar coleções que dialogam com o excesso, a cor e o movimento. Mas é importante entender que, no Carnaval, o excesso não é superficial nem demodê, ele é linguagem. É a afirmação de identidade. É potência.
Vejo também uma mudança significativa na forma como o vestir carnavalesco se democratizou. Hoje, a customização, o faça-você-mesmo e a moda consciente ocupam espaço. Há uma busca por autenticidade e por reaproveitamento, algo que conversa diretamente com as discussões contemporâneas sobre sustentabilidade, tema que também atravessa a alta moda de maneira urgente.
Para mim, o Carnaval é o momento em que a moda se liberta das amarras comerciais e retorna à sua essência: expressão. Não há certo ou errado, há intenção. Há história. Possui corpo em movimento. E talvez seja essa a maior lição que a festa nos oferece: a moda não é apenas o que vestimos, mas o que escolhemos contar sobre quem somos.
Entre brilhos e narrativas, o Carnaval segue sendo um dos mais belos encontros entre arte, história e estilo, um espetáculo que nos lembra que vestir-se é, antes de tudo, um ato cultural.

Dar continuidade a essa reflexão é, inevitavelmente, mergulhar nas múltiplas camadas que fazem do Carnaval brasileiro um fenômeno único no mundo, e aqui entre nós, um show a parte de qualquer outra forma de ver a criatividade.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí transformou-se em um dos maiores espetáculos a céu aberto do planeta. Ali, a moda ganha proporções monumentais. Carnavalescos como Joãosinho Trinta revolucionaram a estética do luxo ao defender que “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. Ele trouxe o brilho, a grandiosidade e a teatralidade como linguagem política. Mais recentemente, nomes como Rosa Magalhães, Paulo Barros e Leandro Vieira mostraram que figurino é narrativa, cada detalhe dialoga com o enredo, com a história e com o tempo presente.
Em São Paulo, o Carnaval cresceu em força e identidade própria, com escolas que investem em acabamento e inovação técnica comparáveis à alta-costura. É interessante observar como ateliês de fantasias trabalham com processos que lembram os bastidores da moda de luxo: moulage, bordado manual, aplicação minuciosa de cristais, estruturas arquitetônicas que exigem engenharia e arte em perfeita harmonia.

Já em Salvador, a estética é outra. O trio elétrico trouxe movimento e proximidade. A moda do Carnaval baiano não está apenas nas fantasias elaboradas, mas nos abadás customizados, que se tornaram um fenômeno criativo à parte. Ali, o styling é coletivo e democrático, cada pessoa recria sua peça, recorta, borda, amarra, transforma. É moda viva, espontânea e profundamente conectada ao corpo em movimento.
Em Pernambuco, o Galo da Madrugada e o Carnaval de Olinda revelam outra dimensão: a tradição dos bonecos gigantes, das fantasias artesanais e das referências históricas que dialogam com o frevo e o maracatu. A presença afro-brasileira é pulsante, especialmente nos maracatus-nação, onde indumentária e ancestralidade caminham juntas. As coroas, os bordados dourados e os tecidos ricos remetem à realeza negra e reafirmam identidades historicamente silenciadas.
Como profissional da alta moda, sempre me impressiona a capacidade técnica envolvida nesses processos. A construção de uma fantasia de destaque ou de rainha de bateria exige conhecimento de estrutura, ergonomia, equilíbrio e, claro, estética. O corpo precisa sustentar a peça e, ao mesmo tempo, dançar com ela. É moda pensada em movimento, algo que muitas vezes falta nas passarelas tradicionais.
Também não podemos ignorar a influência do Carnaval na moda internacional. A estética tropicalista, a exuberância das cores e o maximalismo brasileiro já inspiraram coleções de estilistas como Jean Paul Gaultier e Dolce & Gabbana, que reconheceram no Brasil uma potência criativa singular. O diálogo entre fantasia e prêt-à-porter se tornou cada vez mais fluido.

O que me encanta, especialmente, é perceber como o Carnaval antecipa tendências. A valorização da diversidade de corpos, a liberdade de gênero, o uso de transparências, metalizados, recortes estratégicos e volumes dramáticos aparecem primeiro na avenida, sem medo, sem filtro e depois ganham releituras comerciais.
Mais que apenas uma festa, o Carnaval Brasileiro é um arquivo histórico, laboratório estético e manifesto coletivo. Ele nos ensina que a moda pode ser exuberante sem perder profundidade, política sem perder beleza, popular sem perder sofisticação.
E talvez seja essa a maior riqueza que observo, ao longo da minha trajetória na alta moda: quando tradição e ousadia caminham juntas, nasce algo verdadeiramente atemporal. O Carnaval é exatamente isso, um espetáculo que reinventa o passado para vestir o futuro.





























