Por Paulo Maia
Olá, caro leitor e querida leitora!
Recentemente, discutimos aqui na coluna, o “silêncio da virtude”, inspirados por uma reflexão de Luiz Felipe Pondé no programa Linhas Cruzadas. Naquela ocasião, falávamos sobre como a verdadeira virtude é um hábito discreto, que foge dos holofotes.
Hoje, retorno ao tema por uma via mais amarga. Se a virtude é silenciosa, o mau caráter tem sido ensurdecedor. Peço licença para recorrer novamente a figuras como Pondé e Yuval Noah Harari — autores que, confesso, são bússolas frequentes nesta coluna, mas que se fazem indispensáveis quando o assunto é cutucar as feridas da nossa “natureza Sapiens”.
Como vimos naquele texto, para Aristóteles, o caráter não era um discurso, mas um “entalhe” na alma feito pela repetição. Você se torna justo praticando a justiça. O problema é que transitamos do caráter comunitário para o que chamo de “caráter performativo”.

Hoje, parece que resgatamos o pior da famigerada “Lei de Gérson”. Para os leitores mais jovens: essa expressão nasceu de um comercial de cigarros de 1976, onde o craque da seleção dizia que gostava de “levar vantagem em tudo”. O que era uma peça publicitária infeliz virou o DNA de uma era. Na política e no judiciário — vide os recentes e escandalosos episódios envolvendo magistrados e o Banco Master —, a ética foi substituída pela “narrativa estratégica”. Não há mais o arrependimento, apenas a tentativa de se dar bem sem “ficar mal na foto”.
O caráter hoje é moldado por algoritmos que silenciam a alteridade. Vivemos em câmaras de eco onde o ódio é validado como “coragem” e a grosseria como “autenticidade”.
Como aponta Harari, nossa biologia é tribal, mas a civilização era o esforço de superar o “nós contra eles”. O ambiente digital reverteu esse progresso. Criamos um caráter tribal: somos éticos com nossos “iguais” e bárbaros com quem está do outro lado da cerca digital. O caráter se dilui na defesa da tribo, justificando o injustificável em nome da “causa” ou do partido.
Por que pessoas “boas” se tornam cruéis nas redes? A tela atua como um escudo que desliga nossa empatia biológica. O filósofo Emmanuel Levinas ensinava que a ética nasce quando encaramos o “Rosto do Outro”. O rosto nos humaniza e nos limita.
Sem o “olho no olho”, o outro vira apenas um avatar, um alvo. É essa dissociação que permite que alguém justifique um feminicídio culpabilizando a vítima ou que uma autoridade pública ignore a própria “vergonha na cara” ao ser flagrada em esquemas financeiros. Sem o rosto, o caráter perde seu freio de mão.
Há um erro crasso em delegar a formação moral apenas às escolas. Ética não é matéria de prova; é pedagogia viva. Vivemos uma hipocrisia geracional: o impacto de um adulto que cobra honestidade do jovem, mas pratica a pequena corrupção diária, é devastador.

A unidade de ação entre o que se diz e o que se faz é a única escola de caráter eficaz. Quando figuras que deveriam ser exemplos de retidão — como juízes e políticos — perdem a decência, eles emitem um sinal verde para a barbárie em toda a pirâmide social.
No fim das contas, a reumanização da sociedade começa na mesa de casa e na honestidade do troco. A virtude verdadeira, como disse no artigo anterior, não precisa de palco.
Gosto de pensar que o caráter é o que sobra quando o Wi-Fi cai. É quem você é quando não há likes em jogo, quando não há câmeras, quando não há uma “assessoria de crise” para construir sua narrativa. A paz da convivência pública é apenas o reflexo da nossa microética diária. Se quisermos resgatar a dignidade deste tempo, talvez precisemos voltar ao básico: menos performance, mais vergonha na cara.
Ah, e claro, meu caro leitor e querida leitora, o convite ainda permanece: viver com autenticidade, sem a necessidade de anunciar quem somos.





























