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Eu achei que sabia o que queria… até aprender a me escutar de verdade

Às vezes é no meio da crise que nos enxergamos de verdade e a questão que fica é: O que eu faço com tudo isso? Como dar o próximo passo?

Por João Paulo Pedote

O momento de crise

Era a pandemia. Eu havia perdido muitos clientes enquanto profissional autônomo e estava fazendo uma segunda faculdade. Enfim, uma bela crise estava montada. Queria seguir meu sonho de trabalhar com desenvolvimento humano, mas sem dinheiro e sem perspectivas concretas, era difícil entender como dar o próximo passo.

Desde criança nunca tive uma visão clara do que eu queria fazer profissionalmente. Chegava a pensar em vários trabalhos diferentes, e depois do colegial até cursei a faculdade de Artes Cênicas para ser ator. 

Quando entendi que queria ajudar as pessoas a melhorarem e ficarem bem com elas mesmas, decidi trabalhar com desenvolvimento humano. Isso me conectava a um propósito de vida mais significativo para mim e me dava a certeza íntima que era isso o que gostaria de fazer.

Como a vida profissional tem muitos caminhos diferentes que podemos seguir e isso pode gerar confusão sobre qual é o melhor para o momento, eu acabava usando um outro recurso para conseguir me orientar nessa jornada pessoal.

Imagem de freepik

As energias, os medos e as escolhas

Ainda criança eu costumava fazer uma “leitura” das energias das pessoas, dos ambientes e dos contextos. Eu não sabia na época, mas eu usava essas percepções para me ajudar a tomar decisões e, futuramente, me foram úteis para fazer algumas escolhas importantes na vida.

Com o tempo compreendi que aquilo que eu fazia de maneira intuitiva era o equivalente a expandir minhas energias para envolver aquilo que me interessava e começava a “tatear” essas coisas com as energias. Então, eu usava vários sentidos diferentes para decodificar o que estava percebendo. Em alguns momentos eram sensações, como se essas energias encostassem em uma superfície lisa, em outros havia uma repercussão que eu sentia no meu corpo, em outros vinham palavras ou ideias de seriedade, leveza, humor ou mesmo de perigo.

No caso da minha carreira profissional, quando focava na área de desenvolvimento humano, as energias estavam mais claras, limpas, luminosas, positivas ou em fluxo, sentia meus músculos relaxarem, minha cabeça ficava mais alerta, e o “tato” das energias era suave e liso, sem aderências. Esses eram sinais para mim que aquele poderia ser um bom caminho.

Por sua vez, quando eu focava em trabalhos muito diferentes, por exemplo, trabalhar na área financeira de grandes corporações com foco de ganhar dinheiro, as energias ficavam escuras, misturadas, confusas, densas, negativas ou estagnadas, minha barriga ficava mais rígida, as emoções de ansiedade e medo afloravam, e parecia que eu ficava mentalmente desconectado e isolado do resto. Então, eu levava isso em consideração para entender que poderia ser uma escolha negativa no meu caso.

Entretanto, nesse momento de crise profissional, em meio à pandemia, essa percepção mais sutil (que sempre me ajudou a tomar decisões), foi sendo substituída pelo medo de ficar sem emprego. Ao invés de me guiar pela “leitura” das energias e pelo meu senso íntimo de direção apontando o que seria um bom caminho, me agarrei na ideia que parecia ser a mais “segura”: ter um trabalho com remuneração fixa em empresas e organizações, independente de ajudar ou não as pessoas. E comecei a me inscrever em várias vagas de emprego.

O ponto de virada

Comecei a fazer diversos processos seletivos e não tive sucesso em nenhum. A situação começou a ficar mais insustentável, e não estava sabendo mais o que fazer. Então, precisei fazer uma reflexão sincera comigo mesmo e entendi o problema: era eu mesmo.

Estava tão fixado na fantasia que eu tinha criado que acabei me fechando para mim mesmo, deixei de me escutar, de valorizar minhas percepções das energias e do meu senso íntimo de propósito, que sempre me ajudaram a pensar os próximos passos.

Quando entendi isso, me coloquei com uma nova postura. Decidi me abrir para trabalhos diferentes das minhas expectativas, contanto que ajudassem as pessoas de alguma maneira e foram surgindo algumas oportunidades novas. Uma delas foi a do trabalho que estou até hoje e que me gerou muito crescimento pessoal e profissional.

Atuo na coordenação de um programa de política pública focado em fomento do artesanato e manualidades no município de São Paulo. Crescemos bastante nesses anos todos e os relatos das pessoas dizendo a importância do programa nas suas vidas não têm preço.

Imagem de freepik

A colheita dos aprendizados

Essa experiência me ajuda até hoje, porque entendi que ter uma ideia rígida, inflexível, e colocar toda a minha força para impor ela sobre o meu mundo, não funciona. E, ainda por cima, consome uma energia muito grande que não nos ajuda a crescer.

Desde então, comecei a me aprofundar e a valorizar cada vez mais essa “leitura” das energias das pessoas, dos ambientes, ideias ou trabalhos e a minha própria intuição.

Nessa trajetória, me vinculei a um grupo de pesquisadores que buscam colaborar uns com os outros em pesquisas sobre percepções que vão além dos 5 sentidos. E isso tem me ajudado bastante. Realizamos reuniões, palestras e rodas de conversa presenciais sobre esses assuntos em São Paulo. O grupo é aberto a quem quiser participar. Temos pesquisadores de outras localidades também, inclusive do exterior. É tudo gratuito e com base no voluntariado.

Dar ouvidos para as próprias ideias, intuições e percepções mais sutis pode ser uma ferramenta muito importante para identificar quando estamos nos aproximando ou nos afastando de nosso propósito. Também nos traz informações valiosas dos contextos para fazermos escolhas saudáveis.

E hoje, estou começando a fazer as pazes comigo mesmo nos momentos de crise. As emoções existem por uma razão, e também nos trazem muitas informações importantes sobre nós mesmos. Aprender a escutar essas emoções, sem se deixar dominar por elas, também é um aprendizado de todos os dias.

Às vezes, uma conversa sincera consigo mesmo pode ser a chave para começar a mudar aquilo que mais te atrapalha.

O ato de se escutar de verdade pode ser desconfortável, mas com certeza traz pérolas que ajudam a construir uma vida que vale a pena viver.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

João Paulo Pedote graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas Municipais. Atualmente trabalha na área de gestão de políticas públicas. Pesquisador da consciência, tem como foco de estudo a relação entre a autoaceitação consciencial e a autoliderança evolutiva.

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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