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Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

Quando o amor não começa pelo amor

A figura da Matchmaker e os especialistas dos reality shows modernos partilham uma premissa comum: a de que o amor é demasiado importante para ser deixado ao sabor da sorte

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Há algo de desconcertante — e ao mesmo tempo fascinante — na ideia de subir ao altar ao lado de alguém que acabámos de conhecer. Para muitos, parece um salto no escuro. Para outros, uma experiência social ousada que questiona um dos pilares mais romantizados da modernidade: o amor como ponto de partida.

Curiosamente, aquilo que hoje nos soa radical esteve, durante séculos, no centro da organização social. Os casamentos arranjados não eram exceção — eram a norma. Famílias decidiam alianças com base em critérios pragmáticos: a proximidade de terras, a preservação de patrimônio, a estabilidade econômica ou a continuidade de linhagens. O amor, quando surgia, era muitas vezes um efeito secundário — não a causa. Hoje, olhamos para os casamentos arranjados — ou para o fenômeno televisivo Married at First Sight (Casados à primeira vista) — com um misto de choque e curiosidade. Mas será que o “sim” antes do “olá” guarda algum segredo que a modernidade esqueceu?

O pragmático vs. o romântico

Nas sociedades tradicionais, como na Índia ou em certas comunidades judaicas (através da figura da Matchmaker), a premissa é inversa à nossa. Enquanto no Ocidente moderno buscamos a paixão fulminante para depois construir uma estrutura, nestas culturas constrói-se a estrutura para que o afeto possa florescer em segurança.

Estatísticas mostram que a Índia possui uma das taxas de divórcio mais baixas do mundo (cerca de 1%). Contudo, como filósofos da vida quotidiana, devemos olhar para este dado com cautela. A ausência de divórcio nem sempre é sinônimo de presença de felicidade; pode ser fruto de pressões sociais, carência de autonomia financeira feminina ou dogmas religiosos. No entanto, há um elemento nestas uniões que desafia o nosso conceito de “amor-paixão”: a substituição do acaso pela curadoria.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A curadoria do destino: do matchmaker ao algoritmo

O fenômeno contemporâneo dos reality shows, onde duas pessoas se conhecem pela primeira vez no altar, vem reacender esta discussão sob uma nova lente. Retira-se a família do centro da decisão e coloca-se a “ciência” e o critério de seleção está nas mãos de psicólogos e coaches que utilizam testes de personalidade e inventários de valores para criar o “par ideal”— ou pelo menos uma tentativa de compatibilidade psicológica. Se os critérios foram minimamente respeitados por quem faz o “match”, o sucesso da união passa a depender menos da química mágica e mais da vontade deliberada de cada um.

A figura da matchmaker e os especialistas dos reality shows modernos partilham uma premissa comum: a de que o amor é demasiado importante para ser deixado ao sabor da sorte. Na Índia contemporânea, o processo evoluiu para uma curadoria de compatibilidade, onde se analisam valores éticos, background educativo e visão de futuro. O que se mantém é a mesma pergunta essencial: pode o amor crescer depois do compromisso?

O compromisso como motor da felicidade

A grande viragem reside na natureza do compromisso. No modelo romântico atual, o compromisso é a consequência do amor (“Eu amo-te, por isso comprometo-me”). Nestes modelos de escolha guiada, o compromisso é o ponto de partida (“Eu comprometo-me, para que possamos aprender a amar-nos”).

Quando ambos entram no altar com a consciência de que o outro foi escolhido com base em valores partilhados, e estão verdadeiramente decididos a investir, a relação ganha uma solidez rara. Viver um relacionamento saudável torna-se, então, um exercício de construção civil: cumplicidade, confiança e comunicação não são dons mágicos que surgem com a paixão. São construções diárias, feitas de escolhas conscientes, de escuta ativa e de disponibilidade emocional. Exigem tempo, investimento e, acima de tudo, intenção.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A engenharia da cumplicidade

Talvez o segredo dos casamentos de outrora, ou destes novos formatos científicos, seja a aceitação da imperfeição humana. Ao retirarmos o peso de que o parceiro deve ser uma “alma gêmea mística” que o destino nos entregou pronto, ganhamos a liberdade de o aceitar como um companheiro de jornada.

Seja por um arranjo familiar, pelo critério usado através de testes de Perfil Comportamental como o HMI (Human Mastery Indicator) e compatibilidade de valores ou por um encontro casual, o sucesso de uma união não reside na forma como ela começa, mas na coragem de ambos em permanecerem presentes quando as luzes da festa se apagam. A cumplicidade, afinal, é o amor que decidiu amadurecer. Talvez a modernidade tenha confundido liberdade de escolha com falta de empenho; no final do dia, a verdadeira felicidade não nasce de encontrar a pessoa perfeita, mas de decidir que aquela pessoa — escolhida com critério e propósito — merece o nosso melhor.

É possível, então, que um relacionamento saudável não dependa exclusivamente de um início romântico? A resposta pode ser desconfortável para os mais idealistas, mas é também libertadora: sim, é possível. Desde que ambas as pessoas estejam genuinamente comprometidas em construir algo em conjunto.

No fundo, talvez o verdadeiro ponto de partida de um relacionamento não seja o amor — mas a decisão de o construir.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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