Em meu último artigo, escrevi sobre o tempo. Sobre como a vida tem um ritmo próprio e como nossos sonhos florescem quando estamos realmente prontas para vivê-los.
E acredito nisso de coração. Mas hoje quero puxar esse fio para um lugar mais… pé no chão. Porque uma coisa é acreditar no tempo certo da sua realização. Outra, bem diferente, é fazer essa realização bater a meta do cartão e do aluguel.
Vamos combinar que não nasci herdeira e nem casei com um homem rico (risos). A conta chega todo mês, e ela não aceita como pagamento a explicação de que “meu momento ainda vai chegar”.
Existe um romantismo perigoso em torno da realização. Um conto de fadas que termina no “e ela brilhou” e apaga propositalmente a cena seguinte: a heroína abrindo a carteira e contando as moedas para ver se o brilho se sustenta até o fim do mês.
Para nós, mulheres que somos pilares de família, de sonhos, de uma casa que precisa funcionar, o reconhecimento não pode ser apenas aplausos e elogios. Precisa ter combustível. Precisa ter a textura do pão na mesa, a cor da conta paga, o som da chave girando na porta de um aluguel em dia.

Isso não é materialismo. É sobrevivência com dignidade. É a tradução mais concreta do que significa “fazer dar certo”.
O mundo adora a história da mulher que se reinventa por paixão. Mas e a história da mulher que se reinventa por necessidade? Que pega seu talento, seu conhecimento acumulado nas noites em claro, sua resiliência forjada no cansaço, e os transforma não em um hobby, mas em fonte de renda?
Essa história é a minha. É a de tantas de vocês. É menos poética e mais suada. Menos “descoberta do dom” e mais “coragem de cobrar por ele”. Porque amor de mãe também é isso: garantir o teto. E amor-próprio também é: saber que seu trabalho vale o suficiente para te dar paz.
Então, se o texto passado foi sobre esperar com sabedoria o seu tempo, este é sobre construir com as próprias mãos a hora da sua segurança.
São as duas pernas do mesmo caminhante: uma sabe que não pode apressar o amanhecer; a outra sabe que, quando o dia clarear, será preciso colher, moer e assar o pão.

Não abro mão da poesia de acreditar no tempo certo. Mas coloco os pés no chão de barro da vida real: de que adianta a hora chegar se ela não trouxer o sustento?
Talvez a maior realização não seja apenas ver nosso nome num palco ou na capa de um livro. É ver nosso nome limpo ou no comprovante de pagamento de uma conquista que é só nossa. É sentir o alívio profundo de um “dá pra pagar” que ecoa como um mantra de vitória.
Que possamos, sim, florescer no nosso tempo. Mas que tenhamos a coragem de exigir que esse florescimento nos alimente, nos abrigue e nos dê a paz que todo ser humano – e toda mãe – merece.
Porque no final do dia, o reconhecimento mais verdadeiro é aquele que nos permite dormir profundamente, sabendo que amanhã estaremos aqui, mais fortes e mais seguras, para sonhar de novo, com o pé no chão e a conta no azul.





























