Por Paulo Maia
Olá, caro leitor e leitora, como entender o ser humano, essa criatura que é, desde sempre, dividida? Entre a razão que pretende ordenar o mundo e as emoções que nos atravessam como tempestades, vivemos em permanente tensão. Somos animais que aprenderam a conviver, mas nunca deixamos de carregar em nós o instinto selvagem que nos impele à sobrevivência e à dominação.
O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588–1679), ao retomar a frase do dramaturgo romano Plauto (c. 254–184 a.C.) — “o homem é o lobo do homem” — em sua obra “Leviatã”, nos recorda que a convivência não é natural, mas fruto de pactos frágeis que tentam conter nossa violência latente. Sem tais pactos, a vida se reduziria ao estado de natureza, onde impera a força bruta e o medo constante.

Não por acaso, diversas culturas evocaram a imagem do lobo para falar de nós mesmos. Na hoje América do Norte, os Cherokee narram a parábola dos dois lobos que habitam cada ser: um alimentado pela raiva e pela inveja, outro pela paz e pela esperança. O que prevalece é aquele que nutrimos. Já os ditados populares reforçam a mesma metáfora: “lobo em pele de cordeiro” denuncia a dissimulação; “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício” lembra que hábitos nocivos persistem; e “quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha” adverte sobre os riscos de tolerar o perigo.
Mas se a razão é vista como antídoto contra a selvageria, ela própria não está imune às armadilhas. Blaise Pascal (1623 –1662) nos advertiu que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. A realidade, contingente e cega, provoca em nós reações químicas e elétricas que podem distorcer o julgamento racional. O instinto de sobrevivência infiltra-se nas decisões que acreditamos ser lógicas, e assim a razão, longe de ser soberana, torna-se cúmplice de nossos impulsos.
Já o alemão Nietzsche (1844 – 1900) nos lembra que o homem é feito de pulsões, e que a razão não passa de uma fina camada sobre forças mais profundas. Freud (1856 – 1939), por sua vez, revelou que o “lobo” em nós é também inconsciente: desejos reprimidos e impulsos primitivos que moldam nossa vida cotidiana. Charles Darwin (1809 – 1882) acrescentou que a cooperação não é virtude, mas estratégia evolutiva: sobrevivemos porque aprendemos a conviver, mas nunca deixamos de competir.

E citando mais um filósofo, do existencialismo, Soren Kierkegaard (1813 – 1855), com sua melancolia lúcida, nos adverte que toda forma verdadeira de conhecimento começa com um entristecimento consigo mesmo. O autoconhecimento não é triunfo, mas desvelamento doloroso: reconhecer que somos frágeis, contraditórios e expostos ao acaso. É nesse mergulho que descobrimos que não há fórmulas prontas para a vida, apenas o exercício contínuo de compreender nossos limites e aceitar nossa complexidade.
Aceitar que somos lobos e humanos ao mesmo tempo é compreender que não existe convivência sem conflito, nem razão sem emoção. O desafio não é eliminar o lobo, mas aprender a conviver com ele. Alimentar o lobo da colaboração, sem negar a existência do lobo da violência, talvez seja o caminho mais honesto para que possamos sobreviver juntos em um mundo que não nos oferece garantia alguma.



























