Por Victor Hugo Leda
De Bolsonaro a Adibi: por que construir uma legião é mais valioso do que ter razão
O fim da separação entre púlpito, palanque e escritório
Durante décadas, repetiu-se como regra básica de convivência profissional: política, religião e negócios não se misturam. O conselho era simples: evite temas sensíveis, seja neutro, foque no produto.
Essa era terminou.
O que vivemos hoje é o colapso dessa separação artificial. O público já não consome apenas produtos ou serviços; ele consome posicionamento, valores e identidade. Nesse novo cenário, surge uma figura híbrida: o CEO messiânico.
Não basta gerir bem. Não basta entregar lucro. É preciso representar algo maior. O líder empresarial contemporâneo precisa ser percebido como alguém que carrega um propósito, que simboliza uma causa, que conduz pessoas não apenas funcionários, mas seguidores.
Esse fenômeno não nasceu no mercado corporativo. Ele foi aperfeiçoado na política populista e na liderança religiosa. Agora, está sendo adaptado às empresas que desejam expansão acelerada, parcerias estratégicas e um ativo invisível que nenhum balanço consegue medir: capital simbólico.
Este artigo analisa como os mecanismos da narrativa político-religiosa, arquétipos, mito fundador, dicotomia moral, ritual visual e mobilização digital estão sendo transferidos para a gestão empresarial moderna.
O arquétipo do Messias: do sobrenome ao símbolo
Jair Bolsonaro não se tornou “Messias” por acaso. O sobrenome deixou de ser apenas identificação civil e passou a operar como título simbólico. No marketing político, isso é a sacralização da imagem.
Quando um líder se transforma em arquétipo, ele deixa de habitar apenas o campo da análise racional e passa a operar no campo simbólico. E símbolos não são debatidos são defendidos.
Esse mecanismo não é exclusivo da política. Ele é replicável.
Nikolas Ferreira, por exemplo, é exaltado por parte do público como líder religioso mesmo sem ocupar um cargo eclesiástico formal. O que importa não é o título institucional, mas a performance de valores. No imaginário coletivo, ele encarna algo.
Para o CEO, a lição é clara: não é necessário ser santo é necessário ser percebido como guardião de princípios.
A aplicação prática começa na biografia. Todo arquétipo nasce de uma ruptura. “Antes de mim, a empresa estava perdida.” Essa frase não é arrogância; é estrutura narrativa. É o chamado do herói.
O momento de virada precisa ser dramatizado, repetido e visualmente marcado. Cores como o vermelho associado a urgência, paixão e transformação reforçam simbolicamente esses marcos. A estética não é detalhe; é mensagem codificada.

A falácia da garagem e o mito fundador
As big techs nasceram na garagem? Algumas sim. Outras não exatamente. Mas isso se tornou irrelevante.
A garagem venceu.
Ela funciona como símbolo. É o equivalente secular do estábulo de Belém: o início humilde que legitima a grandeza futura. O sucesso deixa de parecer privilégio e passa a ser visto como virtude.
O cérebro humano prefere uma boa história a uma planilha complexa. Narrativas organizam o caos da informação.
Quando João Adibi, da Cimed, se associa a Toguro influenciador com forte apelo popular, ele não está apenas ampliando mercado. Ele está reescrevendo sua própria narrativa. Está sinalizando: “Eu saí da bolha corporativa e fui onde o povo está.”
Isso é transferência de autoridade informal.
Para o CEO, a pergunta inevitável é: qual é a sua garagem?
Se ela não for literal, será simbólica. Pode ser o erro que quase levou à falência. A escassez inicial. A decisão que contrariou o mercado. Essa história precisa ser repetida até virar liturgia corporativa. Porque mitos não sobrevivem por verdade factual sobrevivem por repetição ritual.
O bem contra o mal: a força da simplificação
A estratégia político-religiosa mais poderosa é a redução da complexidade a dois polos: nós e eles.
Puros contra corruptos. Sistema contra povo. Luz contra trevas.
O cérebro humano busca atalhos cognitivos. Dicotomias oferecem clareza emocional. E clareza emocional gera engajamento.
No ambiente corporativo, muitos CEOs evitam esse recurso por receio de parecerem belicosos. No entanto, marcas que se posicionam contra algo constroem comunidades mais rapidamente do que marcas neutras.
Uma construtora não vende concreto, vende a luta contra a burocracia que impede o sonho da casa própria. Uma fintech não vende taxa zero, vende a guerra contra o “sistema bancário tradicional”.
Quando o líder nomeia um inimigo, o grupo se organiza instintivamente. Surge o efeito manada. Pertencer a uma “resistência” é psicologicamente mais estimulante do que pertencer a uma empresa estável.
Empresas estáveis geram clientes. Cruzadas geram legiões.
O culto da imagem: quando a estética vira ritual
A primeira impressão é majoritariamente visual. No campo político-religioso, cor nunca é apenas estética, é dogma visual.
- Azul comunica segurança, ordem, institucionalidade.
- Verde e amarelo evocam nação e identidade coletiva.
- Roxo e dourado remetem a poder e soberania.
- Preto sugere autoridade, profundidade e distanciamento.
Mas o ponto central não é a cor isolada. É a consistência.
Quando um líder mantém a mesma paleta visual ao longo dos anos, ele cria um estímulo condicionado. A cor passa a provocar uma emoção automática. O seguidor não precisa pensar; ele sente.
Esse mecanismo é pavloviano. A estética se transforma em rito. E ritos constroem pertencimento.
Dados, algoritmos e a construção da legião digital
Se no passado o púlpito era físico, hoje ele é algorítmico.
Líderes políticos e religiosos midiáticos dominam uma competência central: leitura de dados comportamentais. Eles sabem qual medo ativa engajamento em determinada região, qual palavra mobiliza mais compartilhamentos, qual imagem gera identificação.
O marketing digital deixou de ser ferramenta. Tornou-se campo de batalha.
Para o CEO, isso significa abandonar a lógica de campanha pontual e adotar a lógica de campanha permanente.
Não se trata de vender produtos; trata-se de vender filiação. Quem sente que “esse líder fala por mim” não troca de fornecedor com facilidade. Ele defende a marca em jantares de família. Ele evangeliza espontaneamente.

A legião é construída com três pilares:
Linguagem de pertencimento — “Nós da casa”, “Quem é da família sabe”.
Rituais recorrentes — Lives em horários fixos, expressões repetidas, gestos reconhecíveis.
Inimigo comum — Sem antagonista, não há coesão.
Comunidade não nasce do preço. Nasce da identidade compartilhada.
Da política ao mercado: aplicação prática na expansão
No mercado B2B, onde decisões são mais racionais, a confiança continua sendo o ativo central. E confiança, na ausência de convivência presencial constante, é construída por narrativa.
Um parceiro comercial não quer apenas um contrato vantajoso. Ele quer sentir que está ao lado certo da história.
Depoimentos precisam deixar de ser técnicos e se tornar testemunhais. Não basta “gostei do produto”. O discurso eficaz é: “Conheci o CEO e percebi que ele enxerga o futuro antes do mercado.”
Isso é transferência de autoridade simbólica.
O caso Adibi ilustra bem essa adaptação. Ao invés de tentar parecer jovem para dialogar com novas audiências, ele se associou a quem já tinha legitimidade naquele público. Não diluiu sua autoridade, expandiu seu alcance simbólico.
A era da gestão simbólica
A gestão inspiradora não é sobre simpatia. É sobre simbolismo.
Políticos e líderes religiosos compreenderam, há séculos, que pessoas seguem histórias antes de seguirem números. O mercado corporativo, ainda preso ao racionalismo técnico, começa agora a reconhecer essa verdade.
O CEO que domina a engenharia da narrativa não precisa ser o mais técnico nem o mais rico. Ele precisa ser aquele em quem as pessoas projetam suas lacunas — esperança, revolta, ambição, pertencimento.
Ele precisa ser, simultaneamente, espelho e altar.
No fim, a pergunta não é se você concorda com essa dinâmica. A pergunta é: você vai ignorá-la ou vai dominá-la




























