Por Thiago Carvalho
Nos últimos anos, tenho observado um movimento preocupante dentro das empresas: o trabalho continua sendo feito, metas seguem sendo entregues, mas o vínculo entre pessoas e organizações está cada vez mais frágil. Muitos profissionais permanecem em seus cargos sem, de fato, se reconhecerem naquilo que fazem. Não se trata de falta de competência ou comprometimento, mas de um esvaziamento emocional silencioso, que afeta diretamente o engajamento, o clima organizacional e, sobretudo, a sustentabilidade das operações.
Esse fenômeno vem sendo chamado de quiet cracking. De acordo com o relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, apenas 21% dos profissionais no mundo se dizem engajados, enquanto mais de 60% atuam sem conexão real com o trabalho, um cenário que recentemente gerou uma perda estimada de US$ 438 bilhões em produtividade global. Para quem atua em RH, esse dado não é apenas estatístico: ele aponta para um desafio estrutural na forma como estamos desenhando experiências de trabalho.

Na prática, ele se manifesta no dia a dia: menos participação em reuniões, menor disposição para colaborar, mais silêncios do que contribuições espontâneas. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando engajamento como uma pauta periférica, resolvida com ações pontuais de clima ou comunicação interna, quando, na verdade, trata-se de uma construção contínua, que exige coerência entre discurso, liderança e práticas.
Também é preciso rever a tendência de responsabilizar exclusivamente o indivíduo por esse distanciamento. Vejo profissionais altamente preparados perderem entusiasmo não por falta de ambição, mas por estarem inseridos em ambientes que oferecem pouco espaço para escuta, desenvolvimento real e reconhecimento consistente. Modelos de gestão excessivamente focados em controle e performance aparente podem até gerar resultados de curto prazo, mas raramente constroem pertencimento, e sem isso, não há cultura forte que se sustente.

Para quem atua em RH, o desafio é claro: resgatar o sentido do trabalho deixou de ser uma pauta inspiracional e passou a ser uma decisão estratégica. Engajamento hoje não é um benefício colateral, mas um ativo organizacional. Quando o trabalho perde o sentido, o que sobra é execução sem envolvimento e crescimento sem solidez. E, num mercado cada vez mais competitivo, cuidar da relação entre pessoas e organizações é uma das poucas vantagens que realmente não se copia com facilidade.





























