Querida leitora, querido leitor, estamos vivendo o tempo da Páscoa, e esse período é uma oportunidade profunda de refletirmos sobre o verdadeiro significado dessa data nos dias de hoje. Sim, lembrar da dor que Cristo sofreu por nós é importante, manter viva essa memória tem um imenso valor. Mas a história não termina ali. A Páscoa continua — e continua na ressurreição.
E, com o tempo, tenho a percepção de que foi justamente essa parte, a mais transformadora, que muitas de nós deixamos de viver.
Vivemos um tempo de avanços importantes na valorização da mulher, mas também convivemos com números cada vez mais chocantes. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência contra a mulher segue crescendo no país. São milhares de casos todos os anos — agressões físicas, psicológicas e emocionais. Mas existe uma dor que não aparece nas estatísticas e que, talvez, seja uma das mais difíceis de nomear: a dor de permanecer.
Permanecer em relações que machucam, permanecer em ambientes que silenciam, permanecer por medo, por culpa ou por dependência emocional, e permanecer porque, em algum momento, muitas mulheres passaram a acreditar que sair seria falta de fé, que renunciar a um relacionamento seria desobedecer a Deus. E, assim, ficam, mesmo sem conseguir explicar o porquê.
E eu te convido a refletir comigo: a fé, a espiritualidade — e até mesmo a religião — existem para nos aprisionar ou para nos libertar?

Essa é uma visão muito particular minha, construída a partir da minha fé e da minha vivência com tantas mulheres. A mesma fé que pode curar, acolher e dar direção também pode, quando malconduzida, manter mulheres em sofrimento e risco de vida.
Não porque Deus deseja isso, mas porque existem lideranças que distorcem mensagens, afastam mulheres de si mesmas e reforçam culpa em nome de uma fé que, na prática, condena.
Hoje já se fala, inclusive, sobre abuso espiritual, quando a fé é usada como ferramenta de controle, gerando medo, submissão e silenciamento, e isso é mais comum do que se imagina.
Eu vivi algo que me marcou profundamente.
Estive, há um tempo, em um encontro de mulheres em uma igreja, durante o Outubro Rosa, que tinha tudo para ser um momento de acolhimento, consciência e troca. Uma líder convidada, de renome, conduzia o encontro. Mas o que eu vi foi o oposto do que eu acredito que a fé representa: distância, frieza, falta de empatia.
Quando as mulheres tiveram a oportunidade de falar, muitas trouxeram suas dores, suas vulnerabilidades, suas histórias. E o que elas receberam? Nenhum acolhimento ou escuta ativa. A resposta para elas foi: “procure o seu pastor”.
Eu saí de lá profundamente triste, porque aquelas mulheres só queriam ser vistas, ouvidas, acolhidas. E foi ali que algo ficou ainda mais claro para mim: Deus não se distancia da dor humana, as pessoas é que, muitas vezes, se distanciam.
Se Jesus estivesse hoje diante de você ou de uma mulher ferida — emocional, psicológica ou fisicamente — o que Ele faria?
Ele acolheu a mulher que seria apedrejada, conversou com a mulher samaritana, que era rejeitada por todos, e parou para a mulher do fluxo de sangue, que vivia há anos sendo invisível. Em todos esses encontros houve algo em comum: acolhimento, presença e restauração. Não houve condenação, não houve afastamento, não houve incentivo à permanência na dor.
Por isso, eu acredito — e essa é a minha fé — que Deus não quer ver uma mulher presa, maltratada ou violentada. A fé verdadeira não nos diminui, ela fortalece.

E isso também encontra respaldo na ciência. Hoje, diversas pesquisas mostram que uma espiritualidade saudável está associada a melhor saúde emocional, mais resiliência, mais clareza nas decisões e menor incidência de ansiedade e depressão. Ou seja, a fé não nos aprisiona — ela nos ajuda a sair do lugar onde estamos presas.
Talvez esteja na hora de falarmos mais sobre isso, inclusive dentro das igrejas, de construirmos espaços de fé mais humanos, mais conscientes e mais responsáveis.
Mulheres precisam se unir, se apoiar e se fortalecer, e líderes também precisam rever seus papéis, porque orientar não é controlar e fé não castiga.
E aos homens fica também um convite: o silêncio também sustenta o problema, não se posicionar também é uma escolha, e talvez seja tempo de mais consciência, mais coragem e mais responsabilidade.
Neste tempo de Páscoa, eu te deixo uma pergunta: a sua fé tem te fortalecido ou te mantido onde você já não deveria estar?
Jesus não está mais na cruz. E você também não precisa estar.
Se essa reflexão tocou você de alguma forma, talvez seja o momento de não caminhar sozinha. Procure ajuda, apoio onde você verdadeiramente será acolhida. E acolha quem Deus colocar em seu caminho.
E eu estou aqui.




























