Skip to content

A reputação que não entra em campo

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

O choque de realidade diante da Noruega, o fim melancólico da era Neymar e o início do verdadeiro trabalho de Carlo Ancelotti para resgatar a nossa dignidade

Por que a eliminação em 2026 expõe a nossa insistência em jogar com o peso da reputação enquanto o mundo corre com a precisão do planejamento?

Entre o cometa Haaland e o fantasma do Sobrenatural de Almeida, a crônica de uma ressaca nacional necessária para enterrar os nossos velhos mitos.

Por Paulo Maia

Olá, meu amigo e caro leitor, minha amiga e querida leitora, se você acordou nesta segunda-feira com aquela sensação incômoda de um silêncio pesado nas ruas, saiba que não está sozinho. Para nós, a Copa do Mundo de 2026 acabou ontem. Na imensidão do torneio norte-americano — ironicamente o maior e tecnicamente mais satisfatório da história, onde o futebol do século XXI se provou definitivamente globalizado e livre de abismos técnicos —, a trajetória da Seleção Brasileira foi interrompida por um cometa escandinavo chamado Erling Haaland.

Em um jogo em que a equipe brasileira pecou pelo desperdício, incluindo um pênalti tragicamente desperdiçado, o implacável atacante norueguês precisou de apenas duas chances para dar uma aula prática à camisa pentacampeã de como se comporta a elite contemporânea. E a verdade nua, crua e dolorosa que emerge dessa eliminação é uma só: nós não fazemos mais parte dessa elite. Nem nós, nem os alemães ou italianos. O presente pertence à solidez de França e Argentina, à ascensão de Inglaterra, Espanha e Portugal, e à fascinante audácia do futebol africano, de Marrocos ao surpreendente Cabo Verde, que virou o xodó dos brasileiros. O mundo perdeu o medo da nossa camisa porque nós perdemos o respeito pelo nosso próprio futebol.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Se deixarmos o luto de lado por um instante, veremos que o milagre nunca esteve nos planos. Até maio do ano passado, a Seleção estava em frangalhos. A CBF buscou Carlo Ancelotti como um superstar salvador. Mas o que faltou ao técnico italiano não foram credenciais; faltou-lhe tempo. Para Ancelotti, o trabalho de verdade começa agora. Contratado com horizonte até 2030, o “Mister” terá quatro anos para implementar uma cultura de planejamento onde hoje só reina o improviso. Eu já havia chamado a atenção para a questão da falta de nosso preparo no artigo “O complexo de vira-latas com grife”.

Para isso, Ancelotti precisará, antes de tudo, faxinar os nossos fetiches. A presença de Neymar Jr. nesta Copa foi o retrato do nosso atraso. O que outrora foi um gênio extraordinário transformou-se, nos últimos anos, em um engodo sustentado pelo apelo popular. Ancelotti, em sua sabedoria e diplomacia europeia, preferiu não incendiar um país cuja cultura ainda não domina por completo. Levou o atacante para fazer turismo de luxo, evitar controvérsias e não tocar mais no assunto. Sabia que carregava um peso morto que jogaria apenas alguns minutos.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A grande miopia do futebol brasileiro atual é que a Seleção não entra mais em campo para competir; entra para defender uma reputação. Entra para lembrar aos outros que é a maior vencedora da história, esquecendo-se de que a melhor forma de defender a história é construindo o presente. Faltou-nos a arquitetura do hábito, o profissionalismo técnico que agora tentamos tatear entre uma contusão e outra.

Se Nelson Rodrigues estivesse na tribuna de imprensa ontem, ele não falaria em números ou táticas; veria o jogo como uma tragédia grega disfarçada de esporte. Nelson diria que os deuses do futebol punem o desaforo e a soberba de quem perde gols feitos diante de um adversário que, consciente de suas limitações, apenas espreitava a “bola do jogo”. O mestre certamente teria avistado o Sobrenatural de Almeida soprando a nossa bola para longe das redes escandinavas.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

O nosso último “craque” encerrou seu ciclo ontem, anotando um gol melancólico de pênalti quando o placar já estava liquidado. A despedida de Neymar não poderia ter sido mais patética. Ele entrega estatísticas infladas e recordes frios que superam Pelé nos números, mas que devolvem muito pouco ao escudo mais sagrado do planeta. Há quem se apegue ao ouro olímpico de outrora, mas a verdade é que ninguém liga para o que não seja a Copa do Mundo. Nosso negócio são as grandes batalhas e os heróis cujas epopeias os trovadores contam para as novas gerações. E heróis não vivem de marketing.

Apesar da ressaca e do orgulho ferido, o sol teima em nascer no horizonte do dia seguinte. Ele banha as nossas esperanças e reinicia a engrenagem, alimentando a nossa alma com o sonho inevitável de ver, um dia, um capitão canarinho erguer novamente o mundo. O rascunho de Ancelotti começou ontem sobre as cinzas de Nova Jersey.

Vamos, Brasil. Até a Copa de 2030!

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

Demais Publicações

O ódio conveniente

A pergunta mais importante não seja apenas quem odeias, mas por que razão odeias

Outubro, o mês da fênix

Em outubro, renasço mais forte e escolho relações que me fazem bem

Enquanto a empresa ou a campanha decide o que fazer, a internet continua

Não basta estar preparado para falar; é preciso estar preparado para perceber quando a conversa mudou

Fé na fé

Acompanhada de consciência, responsabilidade e ação, a fé pode ser exatamente o que nos faz dar o próximo passo no mundo com tantas certezas imperfeitas

Por que aceitar as mudanças?

O encontro entre a Terapia Cognitivo-Comportamental e Jung sobre a arte de se transformar

Viagens para quem não gosta de viajar

Para quem sempre preferiu ficar em casa, a melhor viagem pode ser justamente aquela que não parece ser uma

Recém-formados

Não sei exatamente como devemos nos comportar aos 70; até hoje ninguém me entregou o manual

Projeto Luxúria celebra 20 anos como pioneiro da cena fetichista brasileira

Criado por Heitor Werneck em 2006, projeto chega às duas décadas com edição especial no dia 24 de outubro, reafirmando seu papel na popularização do fetiche e do BDSM no Brasil

Como a excelência conduz à verdadeira elegância para sua marca ser lembrada?

A elegância no mercado não é apenas estética superficial; ela é a consequência direta da excelência nos detalhes, no gesto, no atendimento e na contenção

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

dolce-mulher-publ-22-segredos-da-mulher-confiante-post-inst
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções