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Por que desaprendemos a esperar?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Psicóloga explica como o excesso de estímulos está mudando a forma como pensamos, descansamos e lidamos com o silêncio

Esperar alguns minutos em uma fila sem pegar o celular, permanecer em silêncio durante um trajeto de elevador ou simplesmente se sentar no sofá sem recorrer a uma tela tornou-se um desafio para muitas pessoas. Embora pareçam situações simples, elas revelam uma mudança importante no funcionamento psicológico contemporâneo.

Para a psicóloga Maria Klien, o problema não está apenas no aumento do tempo de uso dos dispositivos digitais, mas na perda gradual da capacidade de permanecer diante dos pequenos intervalos da vida. “Não desaprendemos apenas a ficar sem estímulos. Estamos perdendo a familiaridade com as pausas, com a espera e com o silêncio“, afirma.

Estudos mostram que permanecer sozinho com os próprios pensamentos sempre foi desconfortável para muitas pessoas. Uma pesquisa publicada em 2014 demonstrou que parte dos participantes preferia realizar uma atividade desagradável a permanecer alguns minutos sem estímulos externos. Segundo a especialista, as telas não criaram esse desconforto, mas ofereceram uma solução imediata, portátil e praticamente infinita para evitá-lo.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Hoje, qualquer momento livre tende a ser preenchido, seja na espera de uma consulta, na fila do supermercado, ou até durante uma série, consultamos outra tela. Aos poucos, o cérebro passa a associar qualquer sinal de desconforto a uma resposta automática: pegar o celular.

“Sem perceber, ensinamos ao cérebro uma sequência muito específica: desconforto, tela, alívio. Quanto mais repetimos esse comportamento, mais automático ele se torna“, explica Maria Klien.

Essa dinâmica também interfere na capacidade de concentração. Em um ambiente marcado por notificações constantes, múltiplas tarefas e alternância rápida entre conteúdos, se torna mais difícil sustentar a atenção em atividades profundas, como ler um livro, escrever um texto ou acompanhar uma conversa longa.

A psicóloga ressalta que isso não significa que as pessoas estejam menos inteligentes. “Vivemos em ambientes que disputam nossa atenção o tempo inteiro. O resultado é uma atenção fragmentada, e não uma redução da inteligência“.

Outro aspecto abordado pela especialista é a diferença entre descanso e anestesia emocional. Segundo ela, recorrer continuamente às telas nem sempre significa relaxar. Em muitos casos, trata-se apenas de evitar emoções desagradáveis. “As telas podem oferecer prazer, conhecimento, entretenimento e conexão. O problema surge quando elas passam a ser utilizadas para impedir o contato com o próprio cansaço, a tristeza, a ansiedade ou a sensação de vazio“,

Para Maria Klien, toda emoção possui uma função psicológica e precisa ser reconhecida para que possa ser elaborada. Quando esse processo é interrompido por estímulos constantes, o sofrimento tende a permanecer.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Ela também destaca o papel da dopamina nesse comportamento. Pesquisas mostram que a maior liberação desse neurotransmissor ocorre, muitas vezes, na antecipação da recompensa, o que ajuda a explicar a necessidade constante de verificar notificações, abrir aplicativos ou consumir novos conteúdos.

Apesar das críticas ao excesso de estímulos, a psicóloga faz questão de reforçar que a tecnologia não deve ser encarada como uma vilã, já que as telas aproximam famílias, democratizam o acesso ao conhecimento e criam oportunidades importantes de conexão. “A questão não é eliminar a tecnologia, mas recuperar a liberdade de decidir quando queremos utilizá-la e quando precisamos simplesmente fazer uma pausa“.

Na prática, ela defende pequenas mudanças na rotina, como se levantar para beber um copo de água sem levar o celular, esperar alguns minutos sem recorrer às redes sociais, caminhar sem registrar tudo e reservar breves momentos de silêncio ao longo do dia. Esses pequenos intervalos parecem insignificantes, mas é neles que nossa mente reorganiza pensamentos, reconhece as emoções e recupera a capacidade de atenção.

“Podemos achar que o silêncio não traz paz imediata, já que aumenta o volume do que existe em nosso interior. A princípio, ele pode até parecer assustador, mas o que realmente nos amedronta é aquilo que ouvimos na quietude. Provavelmente essa seja a melhor forma de alcançarmos o verdadeiro descanso, não apenas trocando um estímulo por outro, mas voltando a habitar a própria mente”, conclui.

Maria Klien exerce a psicologia, com título de mestre na área, orientando sua investigação aos distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo em seu contexto singular. Também é criadora do Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade. Como empreendedora, se dedica à ampliação do acesso a recursos terapêuticos voltados à saúde psíquica, desenvolvendo instrumentos que contribuem para o equilíbrio mental e para o enfrentamento de questões que atravessam o bem-estar psicológico de cada paciente.

@psimariaklien

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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