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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas

Ilustração por Ana Helena Reis feita em papel Canson, com guache na base e pincel aquarelado para a composição da figura

Traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade

Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.

Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?

E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale — “Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.

Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.

Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?

Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar! Epa… será que eu também tenho o meu TOC?

Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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