Skip to content
Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

A passagem azul

Ilustração de Ana Helena Reis feita com tinta guache em papel Canson

De repente, ouvi meu nome; foi suave, mas certeiro; fiquei tão surpresa que quase pedi para repetirem

O grupo foi se acomodando no salão do jeito que dava: cada um por si, ninguém por todos. Nada de filas, senhas ou funcionários sorridentes oferecendo senhas coloridas. Aparentemente, a estratégia de atendimento era: “senta aí e boa sorte”.

Pensei comigo: vantagem ser cadeirante — pelo menos não precisava disputar lugar com ninguém. Enquanto o povo revezava o peso de uma perna para a outra, eu estava ali, firme e confortável. Pelo menos nesse quesito, um a zero para mim.

Foi então que uma adolescente com cara de quem ainda chupa pirulito foi chamada pela tal passagem azul no canto direito da sala. Como assim, pensei. Chegou faz dez minutos e já foi atendida? E eu aqui, plantada igual samambaia, esperando a boa vontade do além.

Alguns idosos mais espertos — ou teimosos — resolveram se aglomerar perto da passagem azul. Estratégia de guerra. Acreditavam piamente que proximidade significava prioridade. Que ingenuidade. Ali não parecia haver critério algum: nem idade, nem tempo de espera, nem cor da roupa.

Outros pareciam estar num piquenique. Casais jovens conversando, adolescentes rindo, crianças brincando de esconde-esconde entre cadeiras. Se isso fosse um hospital, era o mais animado que eu já vi.

Do outro lado, um grupo de aeromoças fazia charme para um comandante de sorriso impecável. Não sei para onde iam, mas parecia uma fila de embarque de primeira classe. Achei que, se isso fosse mesmo o fim da linha, pelo menos eles estavam indo com estilo.

Vi também algumas pessoas visivelmente mal, pálidas, respirando com dificuldade. Fiquei revoltada. “Poxa, se alguém tem que furar fila, que sejam eles”, pensei. Mas ninguém parecia estar no comando de nada. Nenhuma plaquinha de “atendimento preferencial”, nenhum guichê, nenhum cafezinho. Só aquele silêncio burocrático e a tal da luz azul.

Eu? Saudável, segundo meu médico. Pois é, ontem mesmo ele disse que estava tudo ótimo. E agora cá estou, esperando minha vez sabe-se lá pra quê. Ironias do destino — e sem Wi-Fi, pra completar.

De repente, ouvi meu nome. Foi suave, mas certeiro. Fiquei tão surpresa que quase pedi para repetirem. Conduzi a cadeira até a passagem azul — que, convenhamos, parecia saída de um episódio de ficção científica — e atravessei.

Atrás de mim, a desorganização ficou.

À minha frente, um túnel de luz — longo, silencioso, e com cara de passagem só de ida.

Design Dolce sob imagem por LeeYiuTung em Canva

Publicidade | Dolce Morumbi®

Publicidade | Dolce Morumbi®

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

Demais Publicações

Cachoeiras no caminho de sua viagem

Conhecer as grandes cachoeiras do mundo é uma maneira de descobrir a força e a beleza do planeta em seu estado mais impressionante

O luxo invisível: quando o antigo encontra o novo

O futuro do luxo não está em abandonar o passado, mas em saber dialogar com ele

Unindo forças contra o bullying

O papel da família e da escola na proteção de crianças e adolescentes

Coincidências existem? O tecido invisível das sincronicidades

O termo sincronicidade, criado pelo psicólogo Carl Gustav Jung procura descrever dois ou mais eventos que acontecem ao mesmo tempo sem que exista entre eles uma ligação física ou uma relação convencional de causa e efeito

Cinco dicas mostram como usar superfícies inspiradas em pedra natural na decoração da casa

Materiais com visual mineral ganham espaço em projetos residenciais que buscam sofisticação, desempenho e integração entre arquitetura e decoração

Ela não está louca, está perimenopáusica

Oscilações hormonais podem afetar sono, humor e memória antes dos primeiros fogachos

Cansei de ser resiliente

Talvez amadurecer seja descobrir que nem toda batalha precisa ser vencida, algumas precisam ser encerradas

A China não é só um país: é um laboratório vivo de estratégia

A China deixou de ser apenas uma potência industrial para se tornar um dos maiores laboratórios de inovação, gestão e planejamento estratégico do mundo

Entretempos – O que acontece quando a carreira que deu certo já não faz sentido

Uma reflexão atual sobre os dilemas da vida profissional é assunto da obra que discute o momento em que o sucesso deixa de trazer sentido e abre espaço para novas possibilidades

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções