Por Tânia Lins
Os tempos são outros; essa verdade é incontestável. Mas certos hábitos jamais deveriam perder a imponência, ainda que muitos insistam em substituí-los pela praticidade insossa do mundo moderno. Ela sabia disso. Recusava-se a trocar o cinema pelo streaming; o cheiro de um livro impresso pelo frio e-book; o prazer de um câmbio manual pela facilidade do automático. Sua alma cultivava gostos anacrônicos, talvez porque nela residisse um saudosismo teimoso, inimigo do controle remoto.
Em meio ao cotidiano sufocante, buscava um oásis nas idas ao teatro. Era com expectativa que se inteirava da programação, buscando entre tantas sinopses uma que lhe despertasse um interesse especial. Não era uma mera ida ao teatro; algo mais pulsava em seu ser. Para ela, tratava-se de um ritual: comprar os ingressos, escolher a roupa, preparar-se para as emoções que viriam após as “três pancadas de Molière” — hoje substituídas por três toques sonoros.
Sentada habitualmente nas primeiras fileiras, permitia-se envolver pela atmosfera singular do recinto. Como uma espectadora experiente, observava a tudo atentamente, desejando captar cenas memoráveis antes mesmo de o espetáculo iniciar. Ela correu os olhos pela plateia e sorriu ao notar um casal de septuagenários. Num movimento quase imperceptível, a senhora, com a sensibilidade de quem sabe que amar é cuidar, abotoou o suéter do marido, abrigando-o da friagem do ar-condicionado. Então, a revelação: naquele gesto discreto, havia amor – constatou, feliz.

Emotiva inveterada, ela descartava as comédias; preferia os dramas, os romances inspirados em histórias reais. “A vida sempre nos dá muito mais argumentos que a fantasia”, afirmava convicta. Ajeitou-se melhor no assento, limpou os óculos e esperou. Logo, as luzes se apagaram. Mas, longe de anunciar o fim, a escuridão era prenúncio de algo que pode nos trazer emoção e o contato com sentimentos autênticos, ainda que, por vezes, incômodos. Quantas vezes ela mesma não havia experimentado a noite escura antes que a luz voltasse à sua vida?
A narrativa que se desenrolava no palco não era triste; pelo contrário, numa leitura apurada, trazia esperança, falava da coragem de mudar mesmo quando acreditamos ser tarde demais. “Passos”, uma produção teatral inspirada livremente no “dorama” coreano “Navillera”, convida a uma reflexão sobre questões existenciais, relações familiares, etarismo, abismos intergeracionais e abandono dos sonhos individuais – um espelho de nossas mazelas.
Nos noventa minutos do espetáculo, ela acessou conteúdos mais profundos sobre si, sobre o outro, sobre o mundo. Refletiu sobre as relações que havia construído até aquele trecho de sua caminhada. Não havia melancolia, apenas a constatação de que enxergava o entorno com olhos mais conscientes que a maioria – ao ler um olhar, compreender um silêncio, acolher uma hesitação, reconhecer nos sinais discretos o que não cabia em palavras.

No palco, os símbolos estavam ali: nos gestos, nos olhares, nos silêncios incômodos. Na plateia, no entanto, a incapacidade de decifrá-los – sintoma do empobrecimento da sensibilidade humana.
Aurélio, um homem de 70 anos, que foi soterrado pela urgência de se enquadrar no papel que todos esperavam dele – sustentar a família, comprar uma casa, trabalhar em um emprego estável –, decide, agora que está aposentado, tornar realidade um sonho há muito esquecido: fazer aulas de balé. Por que não? Será que ao envelhecermos temos de nos acostumar a renúncias? Negar nossos anseios, porque, aos olhos do mundo, nada mais temos a desejar?
Com passos vacilantes, Aurélio persiste, mesmo desacreditado pelo jovem professor, que ainda não havia compreendido a simbologia daquele encontro entre gerações. A dança, presente em várias cenas, é o elemento estruturante de uma narrativa poética e sutil – ela traz movimento, impulso para seguir, um voar sem asas libertador. Ao se questionar sobre suas escolhas, sobre não ter vivido os próprios sonhos, o protagonista precisa lidar com a incompreensão da esposa, que lê na atitude do marido desamor. Ela o confronta num vaivém de perguntas e respostas, sem que, de fato, ocorra um diálogo entre o casal – um claro indício da incapacidade de enxergar e reconhecer a individualidade do outro.

Os dois, companheiros de anos, já não se reconheciam. Quando haviam perdido a conexão? Ela realmente existiu um dia? O silêncio, antes compartilhado, converteu-se em desconforto; o abraço, que antes confortava, agora sufocava. O tempo avançou, mas, longe de criar raízes, a relação fez-se rasa – um lago reduzido a uma poça.
Na plateia, a espectadora acompanhava cada ato, questionando-se todo o tempo: e se nossa cegueira para o universo simbólico for justamente a raiz de tantas incompreensões nas relações? Perdemos a sensibilidade ao que não é literal, incapazes de ler olhares, silêncios, gestos. Abandonamos a gramática dos sentidos no sótão da nossa indiferença. Quando deixamos de escutar os gestos, passamos a viver num mundo estéril de significados, ainda que sufocado por palavras.
Voltou-se para o palco, para o último ato… Então aplaudiu os atores – do palco e da vida. Secou discretamente as lágrimas e decidiu que, dali em diante, seus silêncios não seriam preenchidos com palavras; transbordariam de significados, compreensíveis apenas aos que sabem decifrar a sutileza dos símbolos e acolher a intensidade dos sentimentos que sustentam a alma.
Nota do editor:
A peça “Passos” fica em cartaz até este domingo, dia 31/08 no Teatro Itália! (Avenida Ipiranga, 344, São Paulo, SP)
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