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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Arear as panelas

Desgrudar do fundo o que, um dia, teve sabor, consistência, cor — mas que hoje deixou apenas resíduos opacos, prontos a roubar o brilho

Tenho na lembrança uma função doméstica sempre presente na casa de minha mãe: o dia de arear as panelas.

O esfrega-esfrega da palha de aço com sapólio ia soltando as crostas formadas pelos alimentos preparados ali, sedimentadas nos cantos, nas beiradas, no fundo de cada panela.

Sabores de uma vida que se desenrolava, impregnados nas marcas do alumínio.

Cozido de emoções apuradas em fogo brando ao longo dos anos; embates fervilhantes nas frigideiras a estalar; a doçura necessária para baixar os ânimos até o ponto de fio.

Caldo de um tempo que passou — e que segue, mas agora pede outro espaço nas panelas.

Tempo de uma nouvelle cuisine: sentir o frescor, a leveza, a delicadeza de um novo cardápio. É chegado o momento de arearmos nossas panelas.

Desgrudar do fundo o que, um dia, teve sabor, consistência, cor — mas que hoje deixou apenas resíduos opacos, prontos a roubar o brilho.

É hora de lustrar nosso caldeirão para acolher as cozeduras que a vida ainda nos reserva.

Design Dolce sob imagem por Panyakuanun Photos em Canva

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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