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Quando a Inteligência Artificial precisa se explicar

A era da decisão automática sem explicação está sendo julgada
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Por que decisões automáticas já não podem ser aceitas sem transparência?

Por Arnaldo Reis Figueiredo

A Inteligência Artificial já está em todo lugar.

Ela decide o que vemos nas redes sociais, influencia preços, recomenda filmes, ajuda a aprovar crédito e filtra currículos antes mesmo que um ser humano os veja. Durante muito tempo, isso foi tratado como um sinal inequívoco de progresso. Automatizar parecia sinônimo de evoluir. Quanto menos intervenção humana, melhor.

Mas algo começa a mudar.

De forma silenciosa, quase imperceptível, entramos em uma nova fase. 2026 marca uma virada simbólica, porém profunda: a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma ferramenta poderosa e passa a ser questionada como agente de decisão. E toda decisão que impacta vidas exige algo básico, explicação.

O Global Cybersecurity Outlook 2026, do World Economic Forum, aponta exatamente para esse ponto de inflexão. A fase da empolgação ficou para trás. A tecnologia já demonstrou seu potencial, mas também seus riscos. A pergunta deixou de ser “o que a IA consegue fazer?” e passou a ser outra, bem mais incômoda: por que ela fez isso?

Essa mudança não acontece apenas em relatórios técnicos ou fóruns especializados. Ela chega ao cotidiano, de maneira direta.

Imagine solicitar um empréstimo e receber um “não” sem qualquer justificativa. Perceber que o preço de um produto muda apenas para você. Descobrir que uma vaga de emprego simplesmente nunca apareceu, e nunca saber o motivo. Quando decisões relevantes são tomadas por sistemas que não se explicam, algo essencial se perde: a confiança.

Quando a decisão é da máquina, a responsabilidade continua sendo humana
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial

Quando decisões automáticas afetam vidas reais

Por trás de toda decisão automatizada existe uma pessoa impactada. Alguém que espera coerência, justiça e clareza. Não códigos. Não modelos matemáticos. Pessoas.

É por isso que governos, empresas e a sociedade começam a exigir transparência. Não por desconfiança da tecnologia, mas por respeito a quem é afetado por ela. Quando algo der errado, e erros vão acontecer, não será possível apontar para a máquina. A responsabilidade continuará sendo humana.

Esse debate se torna ainda mais urgente em um mundo mais instável. Golpes digitais se sofisticam, fraudes crescem e conflitos geopolíticos transformam a tecnologia em parte do risco da vida moderna. O que antes parecia neutro agora influencia segurança, reputação, relações sociais e direitos individuais.

Dentro das organizações, isso muda a conversa. Segurança e tecnologia deixam de ser temas distantes, restritos a áreas técnicas. Passam a fazer parte das decisões do dia a dia. Não é preciso entender algoritmos em profundidade, mas é fundamental fazer perguntas simples, e incômodas: Onde usamos Inteligência Artificial? Para quê? Com quais limites? E quem responde quando algo dá errado?

A governança, antes vista como burocracia, ganha outro significado. Explicar decisões, registrar processos e manter critérios claros deixa de ser custo e passa a ser proteção, de pessoas, de relações e da própria reputação das organizações. Não se trata de frear a inovação, mas de torná-la sustentável e legítima.

Há também uma mudança pessoal em curso. Todos nós, consumidores, profissionais, cidadãos, precisamos aprender a conviver com sistemas inteligentes de forma mais consciente. Questionar quando algo não faz sentido. Reconhecer limites. Exigir clareza.

A ideia de uma tecnologia perfeita, infalível e neutra começa a perder espaço. Em seu lugar surge um conceito mais realista: resiliência. Problemas vão acontecer. A diferença estará na capacidade de responder, corrigir e seguir em frente.

2026 não marca o fim da inovação. Marca o início de uma fase mais madura.

A Inteligência Artificial já não corre apenas para frente. Ela precisa de uma bússola que indique direção, critérios e limites. Usar IA passa a significar também ser capaz de explicá-la.

E a pergunta final não é apenas para empresas ou governos, mas para todos nós: quando uma decisão automática impactar sua vida, você vai aceitá-la sem entender, ou vai querer saber o porquê?

Entender a Inteligência Artificial deixou de ser opcional.

É parte de como protegemos nossos direitos, nossa confiança e o nosso futuro.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios e sócio proprietário da Vollare Mídia e Serviços | @vollaremidia, com atuação nas áreas de estratégia, tecnologia e comunicação.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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