Skip to content

Por que ler os clássicos? A permanência contra o efêmero

Foto de Aaron Burden na Unsplash

Os clássicos falam conosco porque revelam as inquietudes universais da condição humana

Por Paulo Maia

Olá, meu caro leitor e querida leitora! Espero que estejam bem — o que significa, entre outras coisas, manterem-se curiosos.

O texto de hoje nasceu de alguns comentários que recebi após citar Shakespeare em minha última coluna, Som e fúria na brevidade da vida e na leveza do ser. Não poderia ser diferente: o bardo é o exemplo máximo do clássico, e seus dramas permanecem eloquentes justamente por visitarem as profundezas da nossa natureza. Essa repercussão me levou de volta a Ítalo Calvino e à sua obra seminal, Por que ler os clássicos (1991), na qual ele nos lembra que esses livros não pertencem ao passado — eles nos interpelam hoje, como se tivessem sido escritos para o nosso tempo.

O motivo é tão simples quanto profundo: os clássicos tratam do que é constitutivo da nossa condição. Desde que o Sapiens habita este mundo, convivemos com a finitude, as paixões, os desencontros e os conflitos. São inquietações que atravessam séculos. Por isso, não importa o abismo cronológico: ao abrir um clássico, encontramos espelhos de nós mesmos.

Foto de Johnny McClung na Unsplash

Vivemos em uma era marcada pelo imediatismo: notícias que expiram em minutos, conteúdos descartáveis e opiniões que se dissolvem na velocidade de um clique. Nesse cenário, o clássico ergue-se como um gesto de resistência e desaceleração. É um mergulho em questões que não se esgotam, pois pertencem à própria natureza humana. Como bem notou Calvino, um clássico é um livro que “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Cada leitura é nova porque apesar das mudanças no mundo e de algumas alterações em nossos hábitos, lá no fundo do ser, nós permanecemos os mesmos.

Essa permanência contrasta com a volatilidade do presente: enquanto o efêmero nos dispersa, o clássico nos concentra. Ele nos obriga ao olhar interno, ao reconhecimento de nossas fragilidades e contradições. Calvino abre seu livro com uma provocação certeira: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo…’ e nunca ‘Estou lendo…’”.

O clássico nos obriga ao olhar interno. Enquanto o efêmero nos dispersa, a grande literatura nos concentra, revelando que a nossa essência permanece a mesma diante da morte, do amor e da vaidade.

Até mesmo o historiador israelense Yuval Noah Harari observa que, na ficção científica mais tecnológica, o que nos prende à narrativa não são as máquinas, mas as “humanidades”. Se concebêssemos uma história com seres desprovidos de paixões, dilemas morais ou finitude, a identificação desapareceria — e, com ela, o interesse. Se nos reconhecemos em personagens de um futuro longínquo ou de uma Grécia antiga, é porque eles tocam em algo que permanece inalterado.

Assim, a literatura, seja ela antiga ou futurista, só nos envolve quando revela que, por trás de toda inovação, seguimos sendo insuficientes e em busca de sentido.

Foto de Barry na Unsplash

Em tempos de excesso de informação e superficialidade, abrir um clássico é escolher a profundidade contra o efêmero; o silêncio contra o ruído. É aceitar que, apesar de toda a modernidade, seguimos sendo os mesmos seres que se inquietam diante da morte, que se encantam com o amor, que se perdem na vaidade e que se redimem pela coragem.

Portanto, caro leitor e querida leitora, ler os clássicos vai além do que um mero exercício intelectual: é um gesto de reconexão. É lembrar que, embora o mundo mude ao nosso redor, nossa essência permanece — frágil, incompleta, mas ainda assim, capaz de criar beleza.

Aproveite!

Foto de Birmingham Museums Trust na Unsplash

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”.

Um mosaico de ideias e sentimentos com textos que convidam a refletir sobre o humano e suas contradições.

Demais Publicações

Beleza também é coisa de homem

O autocuidado ganha força às vésperas do Dia dos Pais

Vai que…

Se não atrapalhar, não mexa, só ajeite

Como não ficar refém dos seus conflitos internos

Conflitos são inevitáveis em nossa condição humana, mas podemos achar formas de nos relacionar com eles

Estas são as 5 cidades onde você precisa redobrar a atenção com golpes e furtos

O recado não é cancelar a viagem, mas sim viajar com mais cuidado

O fim da moda por estação

A elegância do futuro está na permanência, não na velocidade

Por que tantas mulheres já não sabem o que querem para si

Entre trabalho, família e a necessidade constante de corresponder às expectativas, muitas mulheres perderam a conexão com os próprios desejos

O que a série “Uma Nova Mulher” revela sobre os padrões emocionais que aprisionam tantas mulheres

Embora seja uma obra de ficção, a série desperta reflexões sobre temas amplamente estudados na ciência do desenvolvimento humano, dos vínculos afetivos e dos padrões emocionais

Como falar sobre sexualidade com o parceiro sem virar uma discussão sobre o relacionamento?

Entenda como transformar conversas difíceis sobre a vida íntima em momentos de cumplicidade e desejo, sem cobranças ou clima de 'DR'

A Copa de 2026 revelou um jogo que vai muito além do futebol

Quanto maior a relevância de uma organização, maior também passa a ser o número de interesses que está ao seu redor

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções