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Quando construir muros virou normal

A transformação aconteceu aos poucos. Até virar paisagem.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A discussão sobre terrorismo revela uma transformação silenciosa na sociedade brasileira

Por Arnaldo Reis Figueiredo

Há debates que parecem tratar de um tema específico, mas acabam revelando transformações muito maiores na sociedade. A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas é um desses casos. A discussão envolve aspectos jurídicos, diplomáticos e operacionais importantes. Mas talvez ela também ajude a iluminar uma transformação silenciosa que vem redesenhando a vida cotidiana dos brasileiros há décadas.

Quem tem mais de 40 anos provavelmente se lembra de um cotidiano diferente. Não porque o país fosse livre de violência ou de problemas, mas porque a sensação de insegurança ocupava um espaço menor na vida das pessoas. Era comum ver crianças brincando na rua até mais tarde, vizinhos conversando nas calçadas e famílias convivendo nos espaços públicos com uma naturalidade que hoje parece menos frequente.

Pouca gente percebeu quando isso aconteceu. Em algum momento, as grades começaram a aparecer. Depois vieram os portões mais altos. Mais tarde, as cercas elétricas e os sistemas de monitoramento. Quando nos demos conta, aquilo que parecia exceção já fazia parte da paisagem. O muro deixou de ser apenas um elemento da construção e passou a simbolizar uma mudança mais profunda na forma como os brasileiros passaram a enxergar a própria segurança.

O país foi se adaptando à insegurança ao longo do tempo. Talvez por isso uma das características mais curiosas das últimas décadas seja o fato de que, enquanto os investimentos em proteção residencial se multiplicaram, a sensação de insegurança permaneceu presente. As casas ficaram mais protegidas, mas a tranquilidade não parece ter avançado na mesma proporção.

Os governos mudaram. Os muros continuaram crescendo.
Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A insegurança atravessou as décadas

Foi durante esse mesmo período que organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho cresceram e expandiram sua influência. O que começou dentro do sistema prisional transformou-se em estruturas nacionais capazes de movimentar recursos, disputar territórios e desafiar instituições públicas. Em muitas regiões, o crime organizado deixou de ser apenas um problema policial para se tornar parte da realidade cotidiana.

O crescimento dessas organizações ocorreu paralelamente a outro fenômeno. Ao longo dos últimos 40 anos, o Brasil passou por governos de centro, centro-direita, esquerda, centro-esquerda e direita. Mudaram os partidos, mudaram os discursos, mudaram as prioridades econômicas e mudaram as estratégias propostas para enfrentar os desafios nacionais. Ainda assim, considerando a taxa de homicídios como um dos principais indicadores de violência, o país registrou um aumento de aproximadamente 67% em relação aos níveis observados na década de 1980.

Mais importante do que os números, porém, é aquilo que permaneceu. Quatro décadas depois, a segurança pública continua entre as principais preocupações dos brasileiros. Existe uma contradição difícil de ignorar nessa trajetória. Diferentes projetos políticos passaram pelo poder propondo caminhos distintos para enfrentar o problema. Ainda assim, a sensação de insegurança atravessou todos eles.

Essa constatação não serve para apontar culpados nem para sugerir que todos os governos foram iguais. Ela apenas indica que o problema parece ser mais profundo do que a simples alternância entre partidos, lideranças ou correntes ideológicas.

É justamente nesse contexto que a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas desperta interesse. A discussão sobre a nomenclatura é legítima. Mas existe uma questão anterior a ela. O que essa decisão muda na vida das pessoas? O cidadão que reforça o portão da própria casa ou acompanha com preocupação a volta dos filhos para casa não está procurando uma nova definição jurídica. Ele está procurando segurança.

Talvez seja por isso que a reflexão mais importante não esteja na classificação dessas organizações, mas na dificuldade que o país ainda demonstra em enfrentar as causas que permitiram seu crescimento. Depois de quatro décadas, diferentes governos passaram pelo poder, acompanhados por estratégias distintas e visões diferentes sobre o papel do Estado. Ainda assim, continuamos ampliando os muros das nossas casas e adaptando nossas rotinas ao medo.

O debate sobre terrorismo continuará. Novas análises surgirão, diferentes interpretações serão apresentadas e a discussão seguirá ocupando espaço no noticiário. Mas, independentemente da classificação adotada, permanece um fato difícil de ignorar.

Ao longo das últimas quatro décadas, o Brasil não apenas conviveu com a insegurança. Aprendeu a se adaptar a ela. Os muros cresceram, as grades se multiplicaram e os hábitos mudaram. Talvez essa adaptação silenciosa, incorporada ao cotidiano de milhões de brasileiros, seja uma das transformações sociais mais profundas e menos discutidas da história recente do país.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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