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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Eu sou amante, mas eu quero ter um lar

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Uma posição julgada por muitos, condenada por tantos e apedrejada por milhares

São várias as mulheres que se colocam em situações complexas em busca de um mimo, de um carinho, de um colo.

E uma das posições mais delicadas — e mais discutidas a nível mundial — é a posição de concubina. A posição de amante.

Uma posição julgada por muitos, condenada por tantos e apedrejada por milhares.

E, curiosamente, somos nós, mulheres, as primeiras a atirar as pedras.

Mas… quem nunca?

De forma direta ou indireta, consciente ou não, muitas de nós já estivemos — nem que por instantes — nesse lugar.

E o problema não começa aí.

O problema começa quando, depois de algum tempo, essa mulher já não quer ser apenas amante.

Ela apaixona-se.

Ela envolve-se.

Ela começa a acreditar.

E, de repente, nasce dentro dela um desejo silencioso: cuidar daquele homem.

Aquele homem que, em Moçambique, nós provocamos e chamamos de… alecrim dourado.

O tal alecrim dourado.

O homem sofrido.

O homem que “dorme no sofá”.

O homem cuja relação “já acabou, só falta sair de casa”.

O homem que jura viver uma paixão avassaladora pela sua amada.

E ela vê.

Vê aquele homem “fragilizado”, desalinhado, com a barba por fazer, a pele cansada, o peso do mundo nos ombros…

E o que ela quer?

Cuidar.

Amar.

Salvar.

E quem a pode julgar por isso?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Ainda mais quando, em troca, ele oferece tudo aquilo que, muitas vezes, uma mulher deseja: atenção, presentes, viagens secretas, contas pagas, momentos intensos.

E assim, a história avança.

Até que, um dia, por algum capricho do destino…

a relação oficial termina.

E é aí que nasce o sonho.

A amante acredita que chegou a sua vez.

Que será, finalmente, promovida.

Que deixará de ser segredo… para se tornar lar.

Mas o que ela não sabe — ou não quer ver — é que o problema, muitas vezes, nunca foi da “mãe grande”.

O problema… era o alecrim dourado.

Aquele mesmo homem que ela idealizou.

Porque, na verdade, a mulher oficial muitas vezes suportava em silêncio aquilo que agora começa a ser revelado.

E então, o encanto quebra-se.

A relação que prometia ser perfeita… torna-se pesada.

O homem que parecia carente… torna-se exigente.

A mulher que era desejada… torna-se incômoda.

E começam as comparações.

As acusações.

As feridas.

“Destruíste a minha família.”

“Ela era melhor do que tu.”

“Tu nem sabes cuidar de mim.”

E a pergunta que fica é:

Se a “mãe grande” era tão melhor… por que tirá-la do lugar?

Por que iludir?

Por que prometer?

Por que fazer alguém acreditar num futuro que nunca foi real?

E mais…

Será que a culpa é só do alecrim dourado?

Ou também é dessa mulher que escolheu permanecer… quando já havia sinais?

Design Dolce sob imagem por Andrea Piacquadio em Pexels

Porque, no fundo, existem vários tipos de amantes:

– A que nunca é promovida.

– A que é promovida… mas se arrepende.

– E a que escolhe permanecer exatamente onde está.

Mas hoje… falamos daquela que quis mais.

Daquela que quis ser lar.

E que agora, ao chegar lá, percebe que o sonho… não era sonho nenhum.

O homem do pedestal cai.

A fantasia dissolve-se.

E o amor transforma-se numa espécie de novela dramática… daquelas das 22h.

E então surge o dilema:

Ficar… depois de tudo o que já investiu?

Ou sair… mesmo depois de tudo o que já sofreu?

Sinceramente…

Eu não tenho respostas.

Mas sei de uma coisa:

Quem conta uma história, sempre aumenta um ponto.

E aquele homem que parecia vítima… pode não ser.

Aquela relação que parecia destruída… pode não estar.

E mesmo que esteja… a decisão de sair nunca será simples, nem rápida, nem garantida.

Porque relações que nascem em segredo… carregam consigo um detalhe perigoso: ambos conhecem os truques um do outro.

E o que tinha tudo para dar certo, pode facilmente transformar-se numa guerra de ego, ciúmes e desconfiança.

Por isso, minha querida, a pergunta não é sobre ele.

É sobre ti.

Queres continuar?

Queres sair?

Queres recomeçar com alguém que nunca te conheceu como segredo?

Ou vais deixar que o destino decida por ti?

Eu não tenho respostas.

Sou apenas uma mulher com pensamentos inquietos, um papel e uma caneta na mão.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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