Skip to content

Projeção lúcida

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Como atuo em várias dimensões para resolver um processo no trabalho

Por Izoé Daysi Pedroso

Muito além do currículo vitae: como a experiência fora do corpo traz uma visão de bastidores capaz de resolver os problemas mais complexos em corporações.

Eu estava sentada na sala em minha sala de trabalho, enquanto meu superior apontava para uma série de inconformidades graves em um projeto de grande porte. Meu corpo permanecia ali, irretocável em minha postura profissional de arquiteta, fazendo anotações automáticas no bloco de notas.

No entanto, minha mente operava em outra frequência. Eu olhava para aquela situação estupefata, mas também com uma profunda perplexidade. Aquele projeto, pelo qual eu respondia tecnicamente, havia entrado na empresa de modo clandestino, burlado e com os protocolos apagados por um colega engenheiro civil. Toda a documentação havia sumido misteriosamente no almoxarifado, em um claro extravio intencional para que os papéis nunca chegassem às minhas mãos.

“Você aprovou o projeto, o prédio está em construção e agora você está mentindo para mim”, sentenciou meu líder. Sem argumentos imediatos para provar minhas legítimas palavras de desconhecimento e diante de uma discussão tensa que culminou em minha demissão verbal, peguei minhas coisas no meio da tarde e fui para casa.

Cruzei a porta da residência dos meus pais sem saber direito o que dizer à minha mãe. Fui direto para o quarto dizendo não estar bem, e, realmente não estava. Tomei um banho para buscar me acalmar e deitei-me na cama com um objetivo evidente e técnico: eu precisava descobrir o que havia acontecido com aquele processo. Mas, para isso, eu teria que buscar as respostas além das paredes daquele escritório. Eu teria que sair do meu próprio corpo físico e ir projetada até a empresa e investigar o que estava acontecendo.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

De fenômeno da infância à rigor científico

Para entender como cheguei a esse ponto, precisamos voltar um pouco no tempo. Eu vivenciava experiências fora do corpo desde a infância. Naquela época, eu já despertava flutuando no quarto com uma lucidez intrigante e sabia que encontrava amigos e amparadores enquanto dormia. O meu maior desafio, no entanto, era fazer com que minha mãe compreendesse o processo. Como eu podia afirmar que saía com amigos que vinham me buscar, enquanto ela me via deitada imóvel na cama? Na lógica dela, aquilo não existia.

Minha percepção mudou drasticamente aos 21 anos, quando encontrei o corpo de conhecimento da Conscienciologia e a Projeciologia, uma Neociência proposta pelo médico e pesquisador Waldo Vieira (1932-2015). Foi por meio do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia(IIPC) em Florianópolis, que tive acesso ao rigor metodológico que eu tanto buscava. Ao estudar o tratado Projeciologia: Panorama das Experiências da Consciência Fora do Corpo Humano, escrito por Vieira, compreendi que as minhas vivências noturnas fora do corpo não eram um devaneio ou um mero subproduto da minha imaginação, mas sim um fenômeno biológico, técnico e passível de controle e aprimoramento.

Aprendi que nós não somos formados apenas de carne e osso, mas sim por um conjunto de múltiplos corpos – o que chamamos de holossoma. Temos o corpo físico (soma), o corpo das energias (energossoma), o corpo das emoções (psicossoma) e o corpo mental (mentalsoma).

Enquanto o corpo físico adormece, a nossa consciência se manifesta por meio de outro corpo, no caso desse relato, o psicossoma, e com ele, posso transitar por diversos lugares. Mais do que isso: compreendi que a projeção lúcida não deve ser usada para passeio ou turismo extrafísico. A projeção madura não está atrelada a passear nos bastidores da revista Dolce Morumbi ou flutuar por pontos turísticos de São Paulo, por exemplo. O foco da projeção consciente é a interassistencialidade e a pesquisa. E, naquele dia, a assistência que eu precisava prestar era à verdade, à minha própria integridade profissional e prestar assistência para solucionar as dificuldades encontradas no projeto do edifício.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

A mecânica dos múltiplos corpos no bastidor extrafísico corporativo

Para realizar aquela operação de reconhecimento da situação no extrafísico do ambiente corporativo, precisei de autoliderança. Essa habilidade, fundamental para qualquer projetor lúcido, consiste no domínio absoluto sobre os próprios pensamentos, emoções e energias. Deitar-se em uma cama sentindo mágoa contra o colega que boicotou ou chateada com o chefe bloquearia completamente a minha lucidez ou me sintonizaria com dimensões densas e problemáticas e eu não atingiria o alvo projetivo. Eu precisei governar meus instintos, meu íntimo, acalmar o clima mental pessoal e focar estritamente na resolução do problema.

Foram alguns dias de aplicação de técnicas projetivas e de persistência até conseguir a projeção lúcida com a nitidez necessária. Quando finalmente me projetei no ambiente extrafísico da empresa com lucidez, passei a investigar os espaços. O escritório, que de dia parecia apenas um conjunto de mesas e computadores, à noite revelava sua contraparte extrafísica. Flutuando pelas salas, cheguei ao almoxarifado. Foi ali que localizei a caixa do projeto completo, exatamente no arquivo morto.

Percebi, então, o verdadeiro cerne do problema: a caixa estava sob um forte bloqueio energético no extrafísico. Era um emaranhado de intenções e energias pesadas de ocultação que tornavam o objeto invisível aos olhos de quem o buscava na dimensão intrafísica.

Na conscienciologia, costumamos dizer que o objeto estava bloqueado extrafisicamente para que as desconformidades não fossem descobertas. Utilizando manobras energéticas sobre a caixa do arquivo, fiz uma limpeza, possibilitando que ela fosse encontrada no intrafísico. O trabalho extrafísico estava feito. O desafio, agora, era fazer com que ela se materializasse aos olhos da equipe intrafísica.

O telefone toca às sete da manhã

Quatro dias haviam se passado desde a minha saída intempestiva da empresa. Eu me considerava formalmente demitida. Às sete horas da manhã de uma sexta-feira, o telefone fixo da casa dos meus pais tocou. Meu pai atendeu e, segundos depois, veio me acordar no quarto, visivelmente surpreso: o CEO da empresa estava na linha e queria falar comigo.

Atendi o telefone ainda sonolenta, tentando disfarçar a voz embargada. Do outro lado da linha, o chefe foi direto:

— Quero saber quando você volta a trabalhar. Estou aqui te esperando, você saiu e não apareceu mais.

— Mas você não havia me mandado embora? respondi, tentando me situar.

— Pode preparar a minha documentação que eu volto para assinar a rescisão.

— Esqueça isso. E o projeto? Onde está o projeto que deu todo aquele problema?

Ainda sob o efeito do hipnopompismo – o estado de transição entre o sono e a vigília –, esqueci completamente qualquer protocolo de autopreservação corporativa e disparei tudo o que tinha visto na dimensão extrafísica:

— Ele está dentro de uma caixa convencional de papelão de arquivo morto, amarrado de tal forma, no Setor X do almoxarifado.

Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. O CEO, então, respondeu com a voz pausada:

— O projeto foi encontrado. Preciso que você volte agora, quero que você avalie e revise esse processo pessoalmente.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva
v

O confronto com o ceticismo material

Quando cheguei ao escritório, fui chamada imediatamente à sala da diretoria. O CEO colocou a caixa de papelão sobre a mesa, cruzou os braços e me encarou com um olhar que misturava desconfiança e perplexidade.

— O projeto estava exatamente no lugar e da forma como você descreveu. Você me garantiu que nunca tinha encostado a mão nesse projeto. Mas ele foi encontrado exatamente onde você descreveu ao telefone, embalado do jeito que você falou. Como você sabia disso se diz que nunca o viu?

Ali a minha vida profissional se complicou por alguns segundos. Como explicar para o principal executivo de uma empresa privada tradicional que eu havia utilizado meu psicossoma para entrar no almoxarifado durante uma projeção lúcida à noite? Esse tipo de habilidade profissional ainda é omitida pelos projetores lúcidos durante o preenchido do curriculum vitae. Se eu dissesse a verdade nua e crua, colocaria em xeque a minha sanidade mental perante a lógica corporativa e a vida da maioria das pessoas. Respondi:

— Eu simplesmente sei.

Para descortinar toda a realidade dos fatos vivenciados eu precisava saber se ele acreditava na multidimensionalidade. Respirei fundo e ativei mais uma vez a racionalidade. Recorri à sensatez física e argumentei com base na padronização: expliquei que todas as caixas de arquivo morto da empresa seguiam rigorosamente o mesmo padrão de organização e que, por eliminação de processos, aquele seria o único local lógico onde um documento extraviado poderia parar. Ele aceitou a justificativa técnica, o assunto foi dado por encerrado e eu retornei oficialmente ao meu cargo, com meu líder reforçando o quanto me considerava uma peça indispensável e responsável na equipe.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

A verdade em preto no branco

Nas horas seguintes, ao analisarmos o conteúdo da caixa com o devido distanciamento, a verdade material apareceu: o projeto havia sido integralmente avaliado e assinado por aquele outro engenheiro civil, contando inclusive com o protocolo físico de aprovação do próprio CEO. Minha assinatura não constava em folha nenhuma. Minha inocência intrafísica estava preto no branco.

Essa experiência, vivida ainda no início da minha carreira, consolidou em mim uma certeza de que carrego por toda a minha vida: a realidade não se restringe àquilo que os nossos olhos físicos conseguem enxergar. Nós operamos, simultaneamente, em múltiplas dimensões. O ambiente de trabalho é composto por paredes, computadores e planilhas, mas é estruturado fundamentalmente pelas energias, pensamentos e intenções de todos os que ali atuam. E, a realidade extrafísica dos ambientes pode ser muito diferente.

A lucidez multidimensional não é uma fuga da realidade material, muito menos uma excentricidade. Ela é, em última análise, um fator de altíssima qualificação para a nossa atuação intrafísica. Quando o profissional desenvolve a autoliderança necessária para dominar suas energias e expandir sua consciência e projetar-se além do corpo físico, ele ganha uma visão de bastidores que nenhum MBA consegue ensinar. Você passa a ler os ambientes, a antecipar crises, a compreender os bloqueios invisíveis que travam os negócios e a agir com uma assertividade cirúrgica multidimensional.

Tornar-se consciente da sua realidade holossomática empodera o profissional a entregar resultados muito mais robustos e cosmoéticos nas múltiplas dimensões. Afinal, quando aprendemos a governar a nós mesmos além dos limites do corpo físico, descobrimos que a melhor perspectiva para resolver os problemas mais complexos da nossa carreira, muitas vezes, é observá-los de fora.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Izoé Daysi Pedroso é arquiteta e urbanista, engenheira de Segurança do Trabalho, mestre em Ciências Ambientais, voluntária da Associação Internacional de Liderologia Interassistencial (LIDERARE) e autora do livro “Xô Assédio”, onde explora ferramentas práticas de empatia e ética para transformar culturas organizacionais

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

E se o problema não for você?

Estudos explicam por que tantas mulheres passam a vida acreditando que há algo de errado com elas

Saúde sexual! Quem precisa de tratamento?

Disfunções, medos ou falta de desejo: quando as barreiras na intimidade exigem ajuda profissional e como o tratamento na terapia pode devolver a você o direito ao prazer

Muito antes do ChatGPT, alguém já estava fazendo as perguntas que discutimos hoje

Muitas das questões que hoje associamos à inteligência artificial surgiram antes dela

Antes da medalha existe o treino invisível

Você tem preparado sua equipe apenas para executar tarefas ou para construir relacionamentos?

Sequestro umbilical

Entre as dores do pós-parto e os julgamentos da sociedade, uma reflexão necessária sobre a empatia com as mulheres e o laço inquebrável da maternidade real

Drogas, surto e despertar: uma jornada em busca da própria verdade

O terapeuta Kempes Macedo compartilha sua trajetória para provocar reflexões sobre os caminhos da cura, do autoconhecimento e da reconstrução de si

A reputação que não entra em campo

O choque de realidade diante da Noruega, o fim melancólico da era Neymar e o início do verdadeiro trabalho de Carlo Ancelotti para resgatar a nossa dignidade

Em uma sociedade hiperconectada, informação já não garante mudança de comportamento

A crença de que informar é suficiente para transformar comportamentos foi uma ideia que orientou campanhas públicas durante boa parte do século XX

A vaga não é o problema: o processo é

A disputa por profissionais qualificados começa muito antes da contratação; e a comunicação tem papel decisivo nessa jornada

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções