Saudades do ambiente de trabalho na quarentena? Faça uma maratona com The Office (US) e sinta-se verdadeiramente em… casa!

OPINIÃO

Por Paulo Maia

Até mesmo neste período de confinamento temos que buscar uma pausa para as paranoias que insistem em nos tomar de assalto face à ansiedade pelas medidas de restrição que estamos vivendo. Trabalhar em casa em tempos normais é uma coisa, mas fazê-lo por conta de uma epidemia é outra, então, muitos de nós e especialmente para aqueles cuja experiência é nova, traz um acumulo de estresse que é maléfico. Portanto, uma pausa é fundamental.

Nada como se acomodar no sofá e assistir uma ficção para nos levar ao patamar do alívio. Uma excelente sugestão (do meu ponto de vista, claro) é a série The Office, a versão americana, que foi ao ar em nove temporadas entre março de 2005 a maio de 2013. Especialmente para quem trabalha em escritórios ou ambiente do mundo corporativo, a série pode ter um efeito catártico em meio a gargalhadas e ao testemunho de situações de total constrangimento que leva à comédia, e por momentos de profunda ternura quando torcemos por romances e afetos que surgem entre os personagens e com os quais nos identificamos profundamente. Quantos de nós não tivemos uma queda por um colega de trabalho? E seriamos capazes de negar o desprezo que já sentimos por um chefe ou por alguém que, no fundo, gostaríamos que fosse demitido? Vemos a nossa natureza humana desnuda diante da laboriosa jornada de nossas carreiras!

The Office é uma adaptação da série homônima britânica que foi ao ar entre 2001 e 2003 e apresenta situações de trabalho na forma de clichés e personagens estereotipados em uma pequena filial de uma empresa de papel. Estrelado por Ricky Gervais, a versão britânica é mais ácida, pesada e não poupa constrangimentos maiores. Como o humor britânico. A americana, estrelada pela grande atuação de Steve Carrel, é mais pastelão, porém o exagero ajuda-nos a ver o quanto patético e cruel pode ser o ambiente no trabalho e, justamente por causa dessas coisas, torna-se irônico e engraçado.

A originalidade da série, apresentada ainda na versão original britânica, foi ser feita como um grande reality show, onde os personagens conversam com a câmera, e consequentemente, com o telespectador, funcionando quase como um confessionário, onde falam sobre si, suas ações, expectativas, aspirações e, claro, justificativas mesmo de suas vaidades e de seus pecados. Por isso é classificada como um mockumentary, sem uma tradução literal em português, mas que quer dizer “algo como um filme ou programa de televisão que assume a forma de um documentário sério para satirizar o assunto” (To mock, significa zombar). Um formato que fez tanto sucesso que fora usado em várias outras séries como em Parks And Recreation (dos mesmos produtores do The Office americano), Modern Family e, incrivelmente, em House of Cards, ainda que nesta última, apenas o personagem de Frank Underwood (vivido pelo excelente Kevin Spacey), virava-se para a câmera (para você, telespectador) para fazer seus comentários e demonstrar seu estado de espírito.

Outra grande sacada dessa série é que ela não tem sonoplastia. Os sons que surgem são por conta da própria estória. Nada de risadas ao fundo no final de uma cena ou músicas que induzem a um susto ou surpresa. Nem mesmo ao final do episódio! Apenas uma excelente trilha de abertura, servindo quase como uma preparação para o espírito encarar o que vem pela frente. A falta de sons de suporte às cenas ao longo do episódio faz com que a piada que surge ao final do que estamos assistindo venha de dentro de nós. Subitamente constrangidos.

A diversão do The Office é recheada de comédia, afeto, romance, tristeza, anseios e dificuldades em meio aos sonhos que temos com relação aos nossos trabalhos e carreiras. E no processo de se conversar com a câmera, a série revela talvez, a maior característica que o mundo corporativo cria nas pessoas: o marketing pessoal. E é, ao meu ver, aí que a série ganha corpo e cria um grande significado. Afinal, do que vale viver todo o nosso trabalho e aspirar carreiras sem poder se vangloriar disso? Do que vale as chateações, os “sapos engolidos”, as bajulações, as horas extras de esforço desmedido para resultados pífios com validade discutíveis, sem ao menos você não fazer disso um épico que lhe dá, ao final, um momento de glória? E no fim, percebemos estranhamente, que somos nós a única audiência do nosso próprio filme. Portanto, se não nos aplaudirmos, quem o fará? É esse bastidor que nos faz rir desavergonhadamente.

Para quem é fã de Friends, Seinfeld, How I Met Your Mother, Will and Grace, como eu por exemplo, percebe que estas são séries para a sua adolescência. The Office é diversão adulta garantida e eleva o nosso rigor para acompanhar outras séries cômicas. Em tempos de quarentena, mate a saudade do escritório e do convívio do trabalho. Faça uma maratona e sinta-se de volta à normalidade outra vez.

Disponível em:

2005 ‧ Comédia

Esta adaptação americana se passa em uma empresa de papel em Scranton, Pensilvânia e tem um estilo de documentário semelhante ao original britânico estrelado por Ricky Gervais. Mostra a equipe da Dunder-Mifflin, que inclui personagens baseados no original britânico (e, provavelmente, em pessoas com quem você trabalha em seu escritório). Temos Jim, o simpático empregado que tem um pouco de todo homem. Jim sente uma atração pela recepcionista promovida a representante de vendas Pam (pois romances de escritório são sempre uma boa ideia). Temos também Dwight, o colega de trabalho bem-sucedido que carece de habilidades sociais e bom senso. E há ainda Ryan, ex-estagiário que trabalha temporariamente na matriz em Nova York antes de retornar a Scranton.

Primeiro episódio: 24 de março de 2005
Episódio final: 16 de maio de 2013
Número de temporadas: 9

Autores: Mindy Kaling, Michael Schur, Greg Daniels, Ricky Gervais, Ryan Koh, Daniel Chun, Gene Stupnitsky, Lee Eisenberg

Principais Prêmios: Globo de Ouro em 2004 para melhor série e Globo de Ouro em 2006 para Steve Carrel  por melhor ator em série;

Elenco: Steve Carell (Michael Scott); John Krasinski (Jim Halpert); Jenna Fischer (Pam Beesly); Rainn Wilson (Dwight Schrute); Angela Kinsey (Angela Martin); B.J. Novak (Ryan Howard)

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