Às vésperas do Dia Internacional da Mulher (celebrado neste próximo domingo, dia 8), escrevo este artigo movida por uma inquietação.
Porque toda vez que uma mulher morre por feminicídio, morre um pouco de todas nós. Morre a sensação de segurança, morrem nossas conquistas, morre parte da nossa história, da nossa luta e do espaço que abrimos ao longo de gerações.
E, ainda assim, ao observar as principais notícias na mídia brasileira o feminicídio não aparece entre as dez notícias mais comentadas ou repercutidas.
Antes ganham espaço temas como economia, política, conflitos internacionais, tragédias climáticas e até reality shows!
O feminicídio como notícia surge, é verdade. Mas não ocupa o centro. Não interrompe a normalidade.
Isso precisa nos incomodar. A todas nós!
Quando a visibilidade ainda não é suficiente
Ao me aprofundar em dados e análises, cheguei a uma constatação pessoal desconfortável: O feminicídio aparece nas notícias, mas muitas vezes como pauta episódica, acionada por picos de comoção e audiência, e não como uma agenda contínua de enfrentamento.
A mídia tem um papel central: informar, expor, pressionar e mobilizar. Mas, para que isso produza efeito, é preciso mais intensidade, mais constância e mais compromisso em tratar o feminicídio como uma crise grave, contínua e permanente — e não como episódios isolados que se sucedem sem consequência.
E isso precisa caminhar junto com outras frentes: prevenção contínua, educação, redes de apoio acessíveis, acolhimento rápido e seguro, amparo aos filhos das vítimas, respostas institucionais integradas e, sobretudo, responsabilização efetiva e severa de quem comete esses crimes.
Enquanto essas frentes não caminharem juntas, seguimos reagindo depois da tragédia — e não impedindo que ela aconteça.

Os números que não podem ser ignorados
Segundo dados oficiais, mais de 1.500 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em um único ano, o que representa, em média, três a quatro assassinatos por semana apenas por serem mulheres.
E esses são apenas os números registrados.
Quando falamos de agressões físicas, psicológicas, ameaças, perseguições e violência doméstica, os dados são ainda mais alarmantes — e profundamente subnotificados. Milhares de mulheres sofrem violência todos os dias sem denunciar, por medo, dependência emocional, dependência financeira, vergonha ou falta de rede de apoio.
O que aparece nos números oficiais é apenas a ponta do iceberg.
A violência que antecede o extremo
É exatamente aqui que precisamos ligar os pontos e estarmos em alerta.
O feminicídio raramente acontece sem sinais prévios. Antes da agressão fatal, muitas mulheres já estavam vivendo relações marcadas por:
- controle excessivo;
- isolamento progressivo;
- desqualificação emocional;
- ciúme patológico;
- silêncio punitivo e indiferença esmagadora;
- violência psicológica persistente.
Essa violência não deixa hematomas visíveis, mas abala a mulher por dentro, confunde a percepção, enfraquece a autonomia e potencializa a dependência emocional.
É nessa fase que nós, mulheres, precisamos estar mais atentas — para agir, denunciar, estender a mão, apoiar umas às outras. Somos as maiores interessadas em impedir que o mal continue.
Quem são esses criminosos?
Pesquisas mostram que muitos agressores compartilham padrões semelhantes, ainda que não tenham diagnósticos psiquiátricos formais.
São homens que apresentam, com frequência:
- necessidade extrema de controle;
- baixa empatia;
- comportamento manipulador e sedutor no início da relação;
- intolerância à frustração e à rejeição;
- reações intensas quando perdem poder sobre a mulher.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva descreve esses perfis como “camaleões sociais” — homens que encantam, se adaptam, criam vínculos rapidamente, mas que, com o tempo, revelam controle e abuso emocional.

Qualquer mulher pode ser vítima
É importante ressaltar: qualquer mulher pode viver uma história abusiva.
Isso independe de classe social, escolaridade, nível financeiro ou independência profissional.
Há manipuladores altamente habilidosos que, inclusive, se sentem atraídos por mulheres fortes, bem resolvidas, cuidadoras, generosas e independentes.
Eles enxergam nelas um ambiente emocional seguro — alguém que oferece, acolhe, sustenta e se responsabiliza.
Na fase da conquista, costumam ser encantadores. Por isso, atenção redobrada.
Não se trata de se fechar para o amor ou para o mundo. Nós merecemos amar, ser amadas, viver relações saudáveis e ser felizes. Mas precisamos desenvolver um faro emocional mais apurado.
Quando a realidade escancara o invisível
Casos reais ajudam a tornar visível aquilo que muitas mulheres vivem em silêncio.
A série Dirty John: O Golpe do Amor, baseada em fatos reais, mostra como a manipulação psicológica se instala aos poucos, corroendo identidade, clareza mental e autonomia.
Nada começa de forma explícita. São pequenas distorções, inversões de culpa, isolamento e medo. Até que a mulher já não confia mais em si.
Não é loucura. É desorganização psíquica induzida.
Antes da violência física, muitas mulheres já foram emocionalmente destruídas.
Fortalecer mulheres é prevenção
Independentemente de o agressor ter ou não possibilidade de mudança, há algo que está ao nosso alcance: nos fortalecer emocionalmente.
Desenvolver inteligência emocional, autoestima e autoconfiança não é discurso motivacional. É estratégia de proteção.
Podemos e devemos nos blindar emocionalmente e com recursos internos, através do autoconhecimento para a cura das feridas emocionais, fortalecimento da autoestima, autoconfiança e quebra de padrões que nos colocam em zonas de risco.

Um convite à inquietação, à voz e à ação
Escrevo porque tenho um espaço de fala. Porque atuo com mulheres. Porque já fui vítima, me importo e impacto outras mulheres por meio do meu trabalho e propósito.
E aproveito com responsabilidade este espaço para fazer um convite para que fiquemos inquietas e incomodadas o suficiente para nos movermos.
A primeira ação é simples e poderosa: fazer este conteúdo circular. Compartilhar este artigo e outros materiais que tragam informação, consciência e alerta. Porque, ao compartilhar, podemos estar salvando uma vida.
Silêncio protege o agressor. Voz protege mulheres.
O feminicídio não é apenas um dado estatístico. É uma ferida aberta na nossa história coletiva.
Enfrentá-lo exige mais do que medo ou espera. Exige consciência, circulação de informação, união entre mulheres — e coragem para falar, mesmo quando dói.
E aproveito para agradecer a Dolce Morumbi® por nos dar voz e espaço.




























