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Do outro lado da poltrona: de paciente a psicóloga

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Todos os dias tenho a oportunidade de acompanhar pessoas que escolhem crescer, superar dificuldades e construir uma vida com mais significado

PorMárcia Miari

O início incerto

Estava iniciando pela terceira vez uma graduação. A primeira tinha sido um ano de Letras e a segunda era Educação Artística. Não sabia ao certo o que buscava, mas todos os dias me questionava e procurava compreender minha verdadeira existência. Precisava de sentido; sentia-me vazia.

Vinda de uma infância afetuosa e feliz, fui filha única, amada e educada por toda a família. Mantinha uma boa convivência com primos e amigos. Meus pais, mesmo com poucos recursos, esforçaram-se ao máximo para que nada me faltasse, em nenhum aspecto. Eu era a criança que gostava de compartilhar o que tinha, abrindo mão das próprias coisas para que outras crianças também pudessem brincar.

Como eu era aquela de quem a família esperava apenas o lado bom, cresci com o peso de precisar ser sempre correta, aceitando os “sins” e os “nãos”. Aprendi que, assim, recebia amor e aprovação. Aos poucos, desenvolvi a crença de que precisava dar exemplo, acertar e corresponder às expectativas de todos.

Com a chegada da adolescência e todas as transformações dessa fase, comecei a questionar mais e a aceitar menos determinadas situações. Como consequência, passei a me sentir menos compreendida. Eu era um turbilhão de dúvidas, querendo descobrir quem seria no futuro, qual profissão seguiria e como encontraria meu caminho diante de tantos interesses.

Com o passar dos anos e a chegada da juventude, fui perdendo o entusiasmo e desenvolvendo uma forte insegurança nos relacionamentos. Não me sentia vista e não conseguia expressar minhas angústias, pois continuava acreditando que precisava aparentar estar bem e não “dar trabalho” a ninguém, muito menos aos meus pais. A autorrepressão trouxe uma tendência ao isolamento. Ainda assim, permanecia a busca incessante por descobrir quem eu seria na vida adulta.

Na trilha das possibilidades, pensei inicialmente em Arquitetura. Durante o cursinho, fiz um teste de aptidão e percebi que não seria uma boa opção devido à Matemática, disciplina com a qual tinha mais dificuldade. Então ressurgiu um antigo desejo da infância: comunicar, apresentar e informar. O Jornalismo chamou minha atenção, mas era uma época em que o curso era extremamente concorrido, e não consegui ingressar. Entrei na segunda opção, Letras, e segui adiante.

Permaneci dois semestres no curso. No ano seguinte, resolvi investir em outra paixão: as Artes. Ingressei em Educação Artística e iniciei uma nova etapa. Queria participar dos grupos, mas me sentia mal. Fisicamente, tinha o impulso de fugir sempre que precisava me expor, mesmo em situações simples. Até as conversas cotidianas começaram a se tornar difíceis. Eu já não me reconhecia. Preferia ficar sozinha para evitar a sensação de rejeição. A situação foi se intensificando até que tive minha primeira crise fóbica. Precisei me afastar, trancar a matrícula ainda no primeiro semestre e tentar compreender por que sentia tanto sofrimento emocional.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O diagnóstico

Então veio o diagnóstico: fobia social.

Naquele período, eu já me sentia intimidada ao me expor diante dos outros. Sentia-me inadequada e incapaz de me expressar; a voz simplesmente não saía. As mudanças começaram quando tive a oportunidade de iniciar a Psicoterapia, dando os primeiros passos em uma profunda jornada de reconstrução pessoal.

Sentia-me acolhida. Gostava de observar como aquela profissão funcionava e me encantava a possibilidade de escutar e auxiliar quem enfrentava dificuldades emocionais. Aquilo me tocava profundamente porque era exatamente o que estava acontecendo comigo: eu estava me reconstruindo.

Nas muitas reflexões que surgiram ao longo desse processo, percebi que, desde criança, fui mais ouvinte do que falante. Tinha interesse genuíno pelas histórias das pessoas e costumava ser a amiga que acolhia e escutava.

Foi então que comecei a considerar que a Psicologia poderia ser meu caminho. Aos poucos, nasceu o desejo de ocupar o outro lado da poltrona. À medida que me fortalecia emocionalmente, crescia também a motivação de acolher quem enfrentava desafios semelhantes, mostrando que a transformação era possível, mesmo para aqueles que se sentem invisíveis ou à margem da sociedade.

“É isso, vou fazer Psicologia!”

Eu ainda sentia insegurança, mas a vontade de seguir adiante era maior.

Fui aprovada e consegui uma bolsa de 75%, o que tornou possível continuar meus estudos. Cada aula revelava um universo de conhecimentos que despertava ainda mais minha curiosidade.

O entusiasmo pelo aprendizado era tão grande que conseguia superar a angústia e a vontade de fugir que, vez ou outra, insistiam em aparecer como resquícios da fobia. No entanto, dentro de mim havia uma certeza: aquela era a formação que eu concluiria. Pela primeira vez, não desistiria de mim.

A jornada de autoconhecimento

Foram cinco anos de dedicação, persistência e crescimento, mesmo quando parecia difícil continuar.

Tive a sorte de construir uma grande amizade com minha psicóloga e passei a estagiar em sua clínica, que mais tarde, após minha formação, também se tornou meu espaço profissional. Ela foi — e continua sendo — uma importante referência pessoal e profissional, oferecendo apoio valioso em minha caminhada dentro dessa profissão tão profunda.

Quanto mais eu evoluía emocionalmente, maior se tornava o desejo de contribuir para o desenvolvimento e o bem-estar de outras pessoas.

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Eu tinha medo de pessoas. Hoje ajudo pessoas todos os dias.

Ao longo da prática clínica, compreendi muito sobre o ser humano, sobre a vida e sobre mim mesma. Descobri o prazer de acompanhar processos de crescimento, aprendizado e transformação.

Aprendi que, em alguns momentos, aquilo que chamamos de doença pode representar uma oportunidade de reorganização da existência. No meu caso, o tratamento da fobia revelou algo que sempre esteve presente: a necessidade de contribuir para o crescimento humano e acompanhar pessoas em seus processos de desenvolvimento.

Ouvir tantas histórias, semelhantes ou diferentes da minha, permitiu ampliar minha compreensão sobre a condição humana. Nesse processo de troca, aprendi que quem auxilia também é transformado. A ajuda genuína produz crescimento para ambos os lados.

Também aprendi a me conectar com o outro. Essa era uma das minhas maiores dificuldades e, justamente por isso, tornou-se uma das habilidades mais importantes que precisei desenvolver. Cada resultado alcançado pelos clientes reforçava meu compromisso em oferecer um trabalho cada vez mais acolhedor e eficaz.

Tanto na minha trajetória quanto nas inúmeras histórias que acompanhei ao longo dos anos, percebo que aquilo que inicialmente parece impossível costuma apontar para grandes descobertas sobre nós mesmos. Muitas vezes, os maiores desafios escondem os caminhos para nossa realização pessoal e nosso sentido de vida.

Aprendi a lidar melhor com minhas emoções, ampliar minha resiliência e desenvolver mais compreensão diante das experiências humanas. Todos os dias tenho a oportunidade de acompanhar pessoas que escolhem crescer, superar dificuldades e construir uma vida com mais significado. E isso reforça a certeza de que fiz a escolha certa ao ocupar o outro lado da cadeira.

Cada cliente traz consigo um universo de possibilidades. As histórias que atravessam a sala de atendimento são expressões da vida em sua complexidade e riqueza. E, por mais difícil que seja a travessia, sempre existe um caminho possível para atravessar desertos emocionais e encontrar novos sentidos para existir.

Hoje, aquela menina que gostava de compartilhar o que tinha continua fazendo o mesmo. Apenas encontrou uma nova forma de contribuir: compartilhando escuta, acolhimento e a confiança de que toda transformação começa quando alguém acredita que pode recomeçar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Márcia Miari é psicóloga, pós-graduanda em Neuropsicologia. Atua em psicologia clínica, orientação de carreira para jovens e psicodiagnóstico. Pesquisadora da consciência, dedica-se ao estudo da Priorizacao Evolutiva e Sentido de Vida.

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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