Por Arnaldo Reis Figueiredo
Nos últimos meses, tenho dedicado uma sequência de artigos na Dolce Morumbi® para acompanhar diferentes etapas da transformação provocada pela inteligência artificial. Primeiro observamos sua entrada silenciosa na rotina das pessoas. Depois vieram as discussões sobre influência, trabalho, concentração de poder e, mais recentemente, sobre os limites que começam a ser debatidos por empresas, governos e pela própria sociedade.
Nesse percurso, uma percepção começou a ganhar força: muitas das questões que hoje associamos à inteligência artificial surgiram antes dela.
Foi nesse contexto que voltei às obras de Yuval Noah Harari. Historiador, pensador e escritor israelense, Harari tornou-se uma das vozes mais influentes das discussões contemporâneas sobre sociedade, tecnologia e futuro. Autor de obras como Sapiens, Homo Deus, 21 Lições para o Século 21 e, mais recentemente, Nexus, ajudou a popularizar reflexões sobre temas que hoje ocupam espaço central nos debates sobre inteligência artificial, informação, poder e transformação social.
A ideia se consolidou quando retomei a leitura de Sapiens, por recomendação de um amigo. Em vez de começar pelos livros que tratam diretamente de tecnologia, dados e algoritmos, voltei ao ponto de partida. Diversas discussões que hoje ocupam espaço nos debates sobre inteligência artificial, influência, informação e poder já apareciam ali, anos antes de a tecnologia ganhar protagonismo.
Ao revisitar essa sequência, algumas conexões se tornaram evidentes. Determinadas ideias evoluíram ao longo dos anos, mas continuam dialogando diretamente com questões que hoje ocupam espaço nos debates sobre tecnologia, negócios e sociedade.
Confesso que a observação despertou minha curiosidade. O primeiro livro dessa sequência foi publicado em 2011, quando o mundo ainda discutia transformação digital, redes sociais e mobilidade. A inteligência artificial estava longe das conversas que hoje ocupam espaço em empresas, governos e fóruns econômicos. Foi justamente esse contraste que tornou a leitura tão interessante. Eu esperava encontrar referências a tecnologias que só ganhariam popularidade anos depois. Em vez disso, encontrei discussões sobre confiança, influência e tomada de decisão que permanecem centrais até hoje. Aos poucos, comecei a perceber que várias das questões que hoje associamos à inteligência artificial já estavam sendo discutidas antes mesmo de a tecnologia ganhar relevância. Foi nesse momento que ficou evidente que o centro da discussão não estava nas máquinas, mas nos mecanismos que influenciam comportamento, organizam informação e moldam decisões.
Ao avançar na leitura, ficou claro que Sapiens não procura explicar tecnologia, inovação ou mesmo o futuro. Seu foco está em uma questão muito anterior a tudo isso: como os seres humanos desenvolveram a capacidade de cooperar em escalas que nenhuma outra espécie alcançou.
Esse é um dos conceitos mais relevantes da obra. Harari demonstra que mercados, instituições, organizações e sociedades inteiras dependem de relações de confiança compartilhadas. Embora assumam formas diferentes ao longo do tempo, esses mecanismos continuam sustentando grande parte das estruturas que organizam a vida moderna.
A discussão sobre inteligência artificial também é uma discussão sobre confiança. Empresas existem porque acreditamos nelas. O dinheiro funciona porque existe confiança coletiva. Marcas possuem valor porque milhões de pessoas reconhecem esse valor. Contratos, governos, sistemas financeiros e instituições dependem do mesmo princípio. São estruturas que organizam a vida moderna porque existe um acordo coletivo sobre sua legitimidade.
Foi nesse ponto que a leitura passou a dialogar diretamente com algo que venho observando nos últimos anos. Grande parte das discussões sobre inteligência artificial gira em torno da tecnologia. Falamos sobre capacidade computacional, produtividade, automação e inovação. As mudanças mais profundas, porém, acontecem em outro lugar: quando passamos a confiar em sistemas que influenciam decisões, organizam informações e ajudam a definir o que ganha relevância no cotidiano.
Por isso, muitas das transformações recentes ultrapassam a própria tecnologia. Quando um aplicativo sugere uma rota, quando uma plataforma organiza o conteúdo que consumimos ou quando um sistema recomenda um produto, não estamos apenas diante de um software executando uma tarefa. Estamos diante de um novo mecanismo de mediação entre informação e decisão. A tecnologia é visível. A transferência gradual de confiança é muito menos perceptível.

O futuro talvez tenha começado antes do que imaginamos
A mesma lógica ganha novos contornos em Homo Deus. Diferentemente de Sapiens, que procura explicar como construímos o mundo atual, o livro volta sua atenção para o futuro. Mas não para um futuro de ficção científica. O que Harari investiga é o que acontece quando sistemas passam a participar de processos que durante muito tempo foram exclusivamente humanos.
O livro foi publicado em 2015, muitos anos antes da explosão da inteligência artificial generativa. Mesmo assim, várias das reflexões presentes ali dialogam diretamente com discussões que hoje ocupam espaço em empresas, universidades, governos e no mercado. O foco não está em prever tecnologias específicas. Está em compreender tendências. E uma delas aparece repetidamente ao longo da obra: a crescente capacidade dos sistemas de interpretar comportamentos, identificar padrões e influenciar decisões.
É justamente isso que torna algumas passagens do livro tão atuais. Não porque Harari tenha previsto ferramentas específicas, mas porque identificou uma transformação que começava a ganhar forma. Durante décadas, utilizamos tecnologia para ampliar nossa capacidade de executar tarefas. Agora convivemos com sistemas que também participam da organização das escolhas. A mudança parece sutil, mas seus efeitos são profundos.
Ao concluir essa primeira etapa da leitura, ficou claro que a inteligência artificial não criou discussões inteiramente novas. O que ela fez foi acelerar debates que já estavam surgindo há bastante tempo. Questões relacionadas à informação, influência, confiança e poder ganharam uma velocidade inédita, mas suas raízes parecem ser mais antigas do que imaginamos.
Essa é uma das razões pelas quais os livros de Harari continuam despertando tanto interesse. Eles não oferecem respostas definitivas sobre tecnologia. Também não tentam prever o futuro com precisão. O que fazem é propor perguntas que continuam relevantes mesmo quando as ferramentas mudam.
Ao longo dos artigos que tenho escrito nesta revista sobre inteligência artificial, a sensação sempre foi a de acompanhar uma transformação em movimento. A cada novo texto surgia uma camada diferente da discussão. Primeiro a presença silenciosa da tecnologia no cotidiano, depois sua influência sobre decisões, seus impactos sobre o trabalho, seu papel na reorganização de estruturas de poder e, mais recentemente, o debate sobre seus limites. Foi justamente por isso que a releitura de Harari se mostrou tão interessante. Não porque seus livros expliquem a inteligência artificial atual, mas porque ajudam a perceber que muitas das perguntas que hoje fazemos sobre tecnologia começaram a surgir muito antes dela.
Ao voltar para uma obra publicada há mais de quinze anos, o aspecto mais relevante não foi encontrar previsões sobre o futuro. Foi perceber que algumas das perguntas mais importantes do presente nasceram antes das tecnologias que hoje tentam respondê-las. Esse é um dos motivos pelos quais determinados livros continuam relevantes mesmo quando o mundo muda tão rapidamente.
As obras seguintes ampliam essas conexões de forma ainda mais clara. Os paralelos com os debates atuais sobre inteligência artificial, dados, influência e poder tornam-se cada vez mais difíceis de ignorar. É justamente nesse ponto que as reflexões de Harari deixam o campo das hipóteses e passam a dialogar diretamente com alguns dos desafios mais relevantes da inteligência artificial contemporânea. Mas essa já é uma reflexão para o próximo artigo.





























