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Masculino e feminino são opostos?

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Os feminismos e as discussões sobre novas masculinidades nos provocam a romper com os moldes fixos que herdamos e a imaginar outras formas de existir

Por Maria Homem

Quanto mais nos debruçamos sobre as construções do masculino e do feminino em suas muitas camadas, mais percebemos o quanto elas se atravessam. É impossível falar de um sem tocar o outro, como se cada parte carregasse uma partícula do seu oposto. Isso me fez pensar na imagem do Yin e Yang: a metade branca com um ponto preto, a metade preta com um ponto branco. São forças que se complementam, mas que também se tensionam.

Essa tensão não é um problema, ao contrário, ela é constitutiva. O que chamamos de masculino e feminino está longe de ser apenas uma questão de corpos. É simbólico, é cultural, é histórico. Ao longo dos séculos, fomos empilhando significados, colando qualidades e criando hierarquias. Força, razão, luz, potência foram associados ao que chamamos de masculino. E, à sombra disso, colocamos o feminino como o oposto: doçura, acolhimento, silêncio, receptividade. Como se estivéssemos sempre tentando organizar a complexidade do real e, para isso, classificar o mundo em pares excludentes e “complementares”: forte e fraco, público e privado, racional e emocional.

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Mas essa lógica binária não dá conta da realidade. Somos atravessados por múltiplas experiências que não cabem em rótulos. A cultura ao mesmo tempo cria metáforas e busca reduzir essa complexidade. Cria mitos, religiosidades, histórias que reforçam certas posições: o pai como figura de autoridade; a mãe como a cuidadora abnegada. A imagem da “virgem-mãe”, por exemplo, tão presente em tantas tradições, é um ideal impossível, uma fantasia cultural que conforta, mas que também aprisiona. Se alguém se torna mãe ou pai é prova inequívoca que houve uma experiência sexual. Não é curioso que a cultura tenha que negar justamente a sexualidade dos pais e sobretudo da mãe?

Ao refletir sobre essas camadas — da biologia à psique, do mito às estruturas sociais —, entendemos que não dá mais para falar de homens e mulheres como polos fixos. As fronteiras estão em movimento. Estamos sendo chamados a repensar nossas identidades, nossos papéis, nossos desejos e as violências simbólicas que tudo isso carrega. Os feminismos e as discussões sobre novas masculinidades nos provocam a romper com os moldes fixos que herdamos e a imaginar outras formas de existir: mais livres, mais plurais, mais humanas.

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Nesse percurso, o que antes parecia contrário, revela-se como diferentes características do humano. E o que parecia certeza, vira pergunta. Talvez esse seja o nosso maior desafio cultural hoje: reconhecer as diferenças sem hierarquizá-las. E entender que, no fundo, todos carregamos um pouco do outro em nós. Foi assim que nasceram os livros “Coisa de Menina?” e “Coisa de Menino?”, de uma conversa que trançou a biologia, a psicologia, o inconsciente, as poções e as fantasias que a gente projeta ao longo do tempo sobre essa multiplicidade de seres com seus corpos diferentes.  A sociedade precisa estar disposta a revisar seus próprios símbolos. E essa revisão não acontece só nos discursos, mas nas vivências: quando enxergamos meninos sensíveis como legítimos; quando percebemos a força que existe nas mulheres que cuidam; quando reconhecemos que nenhuma identidade é menos digna de direito, de expressão, de espaço público. O tempo atual nos convida a trocar a oposição pela composição, e entender que construir um mundo mais justo passa, também, por desfazer os sentidos prontos que nos ensinaram a carregar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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