Por Fabio Marques
Em 2004 eu possuía infinitas desculpas para viver ansioso: havia terminado a faculdade de medicina e fazia residência em Clínica Médica em um hospital público no Rio de Janeiro.
A carga horária de mais de 84h semanais de trabalho – com dois plantões semanais de 24h – somada às inseguranças, responsabilidades e cobranças da função já serviriam de desculpas suficientes para uma vida desregrada, atribulada e com indícios de ansiedade. Além disso, fazia pós-graduação em homeopatia.
Saía de casa com horário contado e enfrentava trânsito pesado para chegar ao hospital.
Enquanto dirigia, aproveitava para tomar o café da manhã dentro do carro nas paradas do engarrafamento.
Enfim, um estilo de vida totalmente incompatível com o que deveria ser o estereótipo do médico. Além disso, sentia que quanto mais acelerava, mais as demandas aumentavam.
Se estava fazendo tudo mais rápido, deveria restar menos problemas para resolver. Afinal, se estava acelerando, por que as demandas aumentavam?
Os dias não eram longos o suficiente para mim e acelerar não estava resolvendo – e eu só fui entender a razão depois (no final eu faço um resumo disso).
O sinal de alerta explodiu quando percebi que, além de entrar em um ciclo de estresse e ansiedade, eu estava também começando a colocar os pacientes em risco. A minha “aceleração” aumentava os equívocos da equipe e eu estava começando a me perder.
Tentar fazer várias atividades em paralelo aumentava a entropia. Eu precisava mudar. Mas como?
Me encontrava em um ciclo de ansiedade: expectativa elevada e senso de responsabilidade gerava estado de alerta constante. O impulso em fazer rápido maximizava o erro. Sem atenção plena, erros se tornavam mais frequentes. O erro gerava retrabalho, e o retrabalho consumia o meu tempo. Ao ver o tempo se esvair, ficava mais ansioso. A ansiedade gerava reatividade, e foi nesse ponto que eu resolvi atuar.
A reatividade era o comportamento mais destacado (era fácil perceber quando eu estava reativo). A partir daí, comecei a fazer uma “engenharia reversa”: acabar com a reatividade para controlar e superar a ansiedade.

Quem reage, primeiro age, depois pensa. Quando você coloca a mão inadvertidamente em uma chapa quente, você reage – retira mão e só depois pensa ou se dá conta do que fez.
Combinei comigo mesmo a seguinte regra: toda vez em que me percebesse entrando no modo reativo eu iria simplesmente parar tudo o que estivesse fazendo, e só voltaria a trabalhar quando estivesse perfeitamente calmo e tranquilo.
Basicamente eu criei uma cláusula: preciso ir devagar para ir mais rápido. A aceleração aumenta o erro, e o erro gera retrabalho, ponto.
Eu poderia estar no meio do furacão, só não poderia estar estressado no meio do furacão.
E existe um razão óbvia para isso: se você está estressado no meio do furacão, o furacão simplesmente te engole. O trabalho em pronto socorro lotado às vezes te faz sentir como se estivesse no meio dele: pacientes chamando ao mesmo tempo, tempo escasso, equipe à mil.
Passei, então, à seguir à risca o combinado: se me percebia acelerado, falando rápido, gesticulando mais do que o normal, e até mesmo com algum tipo pressão no peito, simplesmente parava tudo, ia para um local tranquilo, trabalhava com as energias e só voltava quando estivesse equilibrado.
Essa autodeliberação veio acompanhada de uma objeção óbvia: “se fizer tudo com calma, com uma coisa de cada vez, existe o risco de tudo demorar mais, e ter de sair de madrugada do hospital”.
“Não tem problema. Se precisar, sairei de madrugada”.
E sim, passei a trabalhar com as energias em momentos específicos. Tinha um jardim ao lado do Pronto Socorro com uma árvore enorme. E era para lá que eu ia.
Nesse jardim, eu aplicava um técnica que consistia primeiro em concentrar as energias pessoais no topo da cabeça, mobilizá-la em direção aos pés, e novamente em direção à cabeça, repetindo sucessivamente e formando um circuito fechado de energias até atingir um estado de vibração máximo das energias – para isso, não é necessário imaginação, apenas força da vontade e concentração mental.
Do mesmo que você não precisa imaginar sua mão abrindo para que você abra-a e feche-a, também não precisa de imaginação para mobilizar as energias que envolvem o seu corpo. Basta o comando mental.
Essa técnica ajudava a promover a desassimilação das energias que absorvia nos ambientes e durante a interação com as pessoas. É semelhante a um “banho” – só que, nesse caso, é um banho energético que “limpa” as energias pessoais. Essa limpeza facilita a concentração, elimina aquela sensação de “peso nas costas” e propicia o aumento da produtividade pessoal.
Eu voltava mais leve, calmo e focado.

Acabar com todo o qualquer tipo de reatividade era uma forma de restaurar o meu equilíbrio.
No início, bastava 2 minutos trabalhando com energia embaixo da árvore – a proximidade da natureza ajudava nesse processo de desassimilação, por isso eu ia para lá.
Enquanto alguns se ausentavam do serviço para fumar, eu saía para “trabalhar”. Obviamente, ninguém percebia o que estava fazendo, pois não precisava fazer movimentos com as mãos, e também não ficava em posição de lótus tal qual um iogue. Apenas ficava de pé, centrado em mim mesmo, com os olhos abertos, enquanto trabalhava com as energias e procurava perceber o entorno.
Aos poucos, o tempo necessário para pausa foi reduzindo – e chegou ao ponto em que, quando me percebia entrando em estado de atribulação, bastava pensar na necessidade de parar e já retornava rapidamente ao estado de tranquilidade íntima. Eu não precisava mais sair do ambiente onde estava.
A produtividade também aumentou, o trabalho fluiu melhor e passei a sair do trabalho mais leve.
Se você tiver problemas com ansiedade, atribulação ou reatividade, pode aplicar isso também em sua vida. Basta seguir essas etapas simples:
- Primeiro, faça um screening das situações onde se viu ansioso. A ideia é que você consiga identificar os primeiros sinais de ansiedade. O que você sentiu logo no início? Assim como em um incêndio pequeno, é mais fácil acabar com a ansiedade logo no início. No meu caso, esses sinais eram a opressão no peito, a fala rápida e o aumento na velocidade das gesticulações. Esse era o conjunto de sinais que mostrava a necessidade de parar e voltar ao estado de acalmia.
- Segundo, assuma o firme compromisso de interromper imediatamente o que estiver fazendo assim que começar a manifestar esses primeiros sinais. Isso inclui nem mesmo responder a alguém caso esteja irritado. Primeiro, acalme-se, diga por exemplo que precisa ir ao banheiro ou que precisa fazer uma ligação, e só volte quando estiver bem.
- Terceiro, ao sair para outro ambiente, comece a trabalhar com as energias. Com o tempo se ausentar do ambiente onde estava não será mais necessário.
A regra é simples: sair da reatividade para assumir o controle da própria vida.
O estresse não aumenta a produtividade. Ele consome nossa energia e nos intoxica (semelhante a um veneno sendo ingerido diariamente).
Além disso, é péssima companhia. Dos inúmeros pacientes que atendi, os estressados eram o que mais adoeciam. Podia ter alimentação regrada, fazer atividade física e ficar longe do álcool, mas se era estressado, o estresse vencia o corpo. Por outro lado, tive a oportunidade de experienciar o contrário: pessoas mesmo não muito regradas, porém bem humoradas, amantes da vida e rodeadas de amigos, raramente adoeciam.
Ser mais produtivo não é fazer mais em menos tempo. É fazer melhor — com presença, clareza e autocontrole.

Não precisamos do estresse e ansiedade para nos tornarmos mais produtivos. Precisamos ser mais calmos e autocentrados para sermos mais eficazes.
As energias das pesssoas influem energeticamente nos ambientes.
Se você está agitado, você agita o seu entorno – mesmo que se mantenha calado.
Pensar é agir, e se você tem um padrão de pensamento ansioso, você reverbera ansiedade para o ambiente. Se você tem um padrão mais equilibrado, você o equilibra.
Aliás, esse é um ponto desconhecido por muitos gestores. Seja você um líder empreendedor, médico, enfermeiro, advogado, engenheiro ou até mesmo dono de padaria, procure reparar em como a sua presença reverbera no ambiente.
Como médico, por várias vezes reparei no impacto da mudança do médico de plantão nos pacientes. Quando um médico mais estressado assumia o plantão, os pacientes descompensavam mais. Um médico tranquilo re-equilibrava. E você, como lida com o estresse? Já trabalhou alguma vez com as próprias energias? Costuma perceber as energias dos outros e dos ambientes? Conta pra gente!





























