Você saberá quando alguém lhe sorrir

Paulo Maia

Que dia de trabalho! Ufa, ainda bem que terminou”. Foi o que passou pela cabeça dele logo que sentou no banco do ônibus da empresa que o levaria embora para casa. Era a primeira vez que pegava aquele ônibus ali. Geralmente ele usava outra linha que ficava mais próximo do prédio onde trabalhava. Neste dia, por conta de uma reunião imensamente tediosa que tivera, considerou usar aquela linha que o deixaria próximo de onde costumava ficar normalmente.

Sentou-se à poltrona mais ou menos à frente junto ao corredor, como preferia. À direita, olhava pela janela para o pátio aguardando os demais funcionários entrarem. Teria pelo menos uns 40 minutos de viagem e então tirou um livro da pasta para o entreter e neste momento ele a viu entrando. Ela estava trocando umas palavras com alguém logo atrás dela e exibia um sorriso junto com os olhos azuis mais bonito que já havia visto. Muito elegante, usava um salto num tailleur azul com uma saia que chegava em seu joelho. Cabelos castanhos lisos que iam um pouco abaixo de seu ombro com uma franja que deixava seu rosto numa simetria infalível. Esta imagem jamais se apagaria da mente dele. Ficou em choque por alguns segundos olhando para a frente sem enxergar mais nada e, meio sem jeito, olhou para o lado e depois para trás, querendo ver onde ela sentara. Pensou que precisa fazer alguma coisa. Decididamente precisava saber quem era ela; em que departamento trabalhava; como chamava e como poderia achar uma forma de conhece-la!

Imagem por Allef Vinicius

O livro foi ignorado e posto de lado o tempo todo da viagem! Ela foi sentar-se bem atrás e ele até tentou buscar outro lugar, mas os assentos já estavam todos tomados. Ficou torcendo para que ela descesse antes dele e assim ele soubesse por onde ela ficaria. Mas nada. Seu ponto chegara e ele precisou descer. Ao levantar-se, virou-se e conseguiu vê-la sentada ao lado de uma janela para a qual olhava despreocupada. Viu seu rosto lindo e pensou quando ele a veria de novo! Esperava que ela olhasse para ele, mas nada. Bom, ele teve que ir e antes de descer, olhou de novo na direção dela, agora sem a menor preocupação de ser notado. Desceu em seu ponto e esperou o ônibus se movimentar e a viu olhando pela janela. “Amanhã tenho que dar um jeito de pegar esse ônibus de novo! Preciso ver essa menina novamente”. Era o seu mais importante plano em muito tempo!

Nos dias seguintes sempre daria um jeito dele pegar aquela linha onde ele havia visto um anjo. Porém nos três seguintes não tivera êxito e começou a pensar se ela trabalhava naquele prédio. Sabia que era da empresa pelo crachá que estava usando, mas começara a imaginar que, como ele, naquele dia, estavam em locais diferentes de onde trabalhavam. Ok, tinha que reconsiderar a estratégia, já que para o dia seguinte não conseguiria ir até aquele prédio. Decidiu rever sua estratégia e passou a perguntar para os amigos, na hora do almoço, se conheciam alguém ali do prédio. Questionado o porquê de seu inquérito, era franco em dizer que tinha visto essa criatura divina e que não sossegaria enquanto não a visse de novo! Entre os caras, não tem essa de dissimulação. É isso e pronto! “Vi uma gata, um absurdo de uma gostosa e quero ver de novo”! Mesmo sabendo que o fracasso de uma conquista é tão certo quanto o nascer do sol, a aventura da conquista é o motor que nos faz sair da inércia; que gera a química da vida; que faz acontecer.

Imagem por Thought Catalog

Vários dias se passaram e nada mais aconteceu. Cada vez mais, aquela visão ficava apenas na memória e ia dando lugar a coisas mais mundanas como dar satisfação à chefia de tarefas ainda não realizadas ou correr de fazer o pagamento de contas atrasadas. Os dias iam passando sem muita diferença entre eles. Até que um dia…

Aquele dia prometia ser como qualquer outro. Ele se reunia com seus colegas discutindo uma tarefa qualquer em uma saleta próxima à entrada do departamento. Ao levantar se para pegar um copo de água no bebedouro, viu ela entrar na recepção. Ficou atônito por um momento. Não sabia o que fazer ou para onde ir. Saiu do estado de choque quando a água começou a transbordar do copo. Parado no corredor, viu ela ser orientada pela recepcionista para seguir à sala de seu chefe. Voltou para a reunião como quem tinha visto um fantasma, mas não foi percebido por conta da discussão que acontecia ali. Não conseguiu mais manter a concentração. Tudo voltava à tona e agora se tornava fundamental saber o que ela fazia ali.

Imagem por Alex Sorto

Quinze minutos passou voando e sua cabeça não pensava em outra coisa. A reunião se encaminhava para o fim e ele balançava a cabeça concordando com tudo e se mostrando inquieto e louco para sair dali com a esperança de que ela ainda estivesse no prédio para dar um jeito de “trombar” com ela. Não precisou. Ela entrou na sala acompanhada do chefe de todos ali. Ele queria anunciar que ela iria fazer parte da equipe e que todos dessem boas-vindas.

A notícia inundou seu coração de alegria, entusiasmo, vida e esperança. Enfim ela olhou diretamente para ele e sorriu agradecendo a acolhida. Foi, por muito tempo, o dia mais feliz da vida dele. Ele soube, naquele instante, que a conquistaria e que a amaria pelo resto da vida.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

Imagem destacada da Publicação: 
Imagem por Alexandru Zdrobau

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